Dica de Leitura: Quando Nietzsche Chorou (Irvin D. Yalom)

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Esse é livro que estou lendo. Ele não se trata de uma história real de quando Friedrich Nietzsche chorou realmente, mas sim uma ficção que mistura filosofia e psicanálise na literatura. Aqui vai a sinopse:

"Josef Breuer, um dos pais da psicanálise, está prestes a se deparar com um grande desafio: trata do filósofo Friedrich Nietzsche, atormentado por uma crise existencial e uma depressão suicida. Breuer - mentor e melhor amigo de Sigmund Freud, entretanto vive também momento de angústia, obcecado pelas fantasias sexuais com Anna O., pseudônimo da jovem de quem tratou com seu novo método terapêutico. O encontro destes dois homens extraordinários resulta numa profunda amizade, criada pela imaginação poderosa de Irvin D.Yalom, conhecido psiquiatra e escritor renomado. Tomando como pano de fundo a Viena do final do século XIX, ele constrói um romance apaixonante, em que realidade e ficção se misturam, assim como literatura, filosofia e psicanálise"



Esse post não faria sentido sem um trecho que me chamou mais atenção até agora, no capítulo 15, com uma citação que está dentre minhas prediletas há tempos (essa está em negrito). Trecho que, tem ligação direta com o que penso, por exemplo com esse post.

"(...) Consulte sua lista - Breuer apontou o caderno de Nietzsche. - Lembre-se do item sobre o ódio por mim mesmo... item três acredito. Escondo meu verdadeiro eu por existirem tantos aspectos desprezíveis em mim. Depois, me odeio ainda mais por me ver isolado das outras pessoas. Para poder alguma vez romper este círculo vicioso, terei que aprender a me revelar para os outros!

- Talvez, mas observe - Nietzsche apontou para o item 10 de seu caderno - Aqui, você diz que se preocupa demais com as opiniões de seus colegas. Conheci muitas pessoas que não gostam de si mesmas e tentam superar isso persuadindo os outros a pensarem bem delas. Feito isso elas começam a pensar bem de si próprias. Mas essa é uma falsa solução. Isso é submissão à autoridade dos outros. Sua tarefa é aceitar a si mesmo, não encontrar formas de obter minha aceitação.

(...)

- Sei que apenas preciso de sua aceitação. você tem razão, a derradeira meta é ser independente das opinões dos outros, mas o caminho para essa meta - falo por mim e não por você - é saber que não ultrapassei os limites de decência. Preciso ser capaz de revelar tudo de mim para outrem e saber que eu também sou... simplesmente humano. Como reflexão posterior acrescentou. - Humano, demasiado humano.

O título de seu livro fez brotar um sorriso no rosto de Nietzsche.

- Touchê, doutor Breuer! Quem poderá contestar esta expressão oportuna? Entendo agora seus sentimentos, mas ainda não vejo claramente suas implicações para nosso procedimento.

(...)

- Quando falo de meu amor obsessivo ou de meus ciúmes, me ajudaria saber se você também experimentou esses sentimentos. Suspeito, por exemplo, de que acha o sexo desagradável e desaprova totalmente minha preocupação sexual. Naturalmente, isso me deixa pouco à vontade para revelar essas minha facetas.

Uma pausa prolongada, Nietzsche fitou o teto imerso em pensamentos profundos.

(...)

- Nada posso fazer com suas palavras. Você me diz para cultivar as partes superiores de mim, mas não me diz como superar, como cultivar o herói em mim. Tudo isso são elucubrações poéticas refinadas, mas, neste momento, para mim, não passam de palavras vazias.

Aparentemente não afetado pela súplica de Breuer, Nietzsche respondeu como um professor para um aluno impaciente.

- Com o tempo, eu lhe ensinarei como superar. Você quer voar, mas não se pode começar a voar voando. Primeiro, tenho que lhe ensinar a andar, e o primeiro passo ao aprender a andar é entender que quem não obedece a si mesmo é regido pelos outros. è mais fácil, muito mais fácil, obedecer a outro do que dirigir a si mesmo. - Dito isso, Nietzsche apanhou seu pequeno pente e pôs-se a arrumar o bigode.

(...)

- Há uma divisão básica no estilo dos homens: aqueles que desejam a paz de espírito e a felicidade têm que acreditar e abraçar a fé, enquanto aqueles que desejam perseguir a verdade devem renunciar à paz de espírito e devotar a sua vida à investigação! Caso escolha a ciência, caso opte por ser libertado das cadeias sedativas do sobrenatural, caso, conforme alega, escolha evitar a fé e abraçar o ateísmo, então não poderá ao mesmo tempo ansiar pelos pequenos confortos do crente! Se você matar Deus, terá que também deixar o abrigo (conforto) do templo.

- Você exagera o papel da escolha em minha vida. Minha escolha não foi tão deliberada, nem tão profunda. Minha opção pelo ateísmo foi menos uma opção do que uma questão de ser incapaz de acreditar em contos de fadas religiosos. Escolhi a ciência simplesmente por ser o único modo possível de dominar o corpo.

- Então, você esconde sua vontade de si mesmo. Você precisa agora aprender a reconhecer sua vida e a ter coragem de dizer "Assim escolhi!". O espírito de um homem se constróí a partir de suas escolhas."

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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