Resenha Filme: Watchmen - O Filme

domingo, março 25, 2012

É dificil começar uma resenha já imaginando tecer comentários de como o tal filme é espetacular sem parecer um fã inveterado. A mim, podem surgir comentários contrários pois, não li o gibi, apenas fui daqueles que ao ver o filme se interessou pelo restante da obra. Fato que convenhamos, apesar de tais falhas de adaptação que podem ser expostas por quem entende do assunto mesmo, mostra toda a qualidade inquestionável desse filme. Em pouco mais de 2h30 aqui temos exposta a melhor obra da história de Alan Moore, uma HQ imortal, uma HQ que é mais do que uma HQ, trajada em traços coloridos e balões de fala. Onde a literatura, sociologia e a filosofia se confundem completamente com a história de anti-heroísmo.

Iniciemos pela sinopse: A história é situada em 1985, numa realidade alternativa onde super-heróis existem, Richard Nixon é presidente pela terceira vez e as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética estão mais fortes do que nunca. Enquanto isso, o vigilante Rorschach ao investigar o assassinato do ex-vigilante Comediante (Edward Blake), desconfia de que alguém quer matar heróis mascarados. Assim o mascarado alerta todos os ex-vigilantes da morte dele e do possível assassino de heróis. Logo a primeira vista observa-se que a trama apesar de ser em um ambiente muito fictício e futurista, é considerada muito realista, por tratar de assuntos sérios da época e por ter uma narrativa cruel e sem medo de censura.

Afirmo que Zack Snyder nos entrega aqui a principal adaptação de HQs, não só pela estilização fantástica e fidelidade de traços, mas porque ele manteve basicamente suas ideias. Watchmen é famoso por ser não só uma simples HQ, mas é famoso por ser uma discussão ampla sócio-filosófica, onde moral e humanidade são postas a prova, através do poder bélico, governamental, artístico... Tudo aqui é digno de aplausos e exige um maior entendimento. Creio que se é preciso assistir o filme mais de uma vez para entender certos aspectos, afinal é uma grande discussão. Eu mesmo para tentar entregar uma resenha que faça jus a esse filme, tive que ver o filme mais que duas vezes, em tempos diferentes da vida, sozinho e com companhia, para entender e discutir de forma mais ampla aquilo que acontece.

Snyder fez um filme de fãs para fãs. Watchmen não é um filme para as massas, assim como a sua HQ não é. Enquanto somos bombardeados de informações a cada momento, discussões e situações onde a moral é posta a prova, penso que alguém mais desavisado logo levantaria a bunda da poltrona logo na primeira meia hora. O fato de a história ser uma experiência, é o que torna Watchmen tão valioso historicamente; cultuado até os dias de hoje com uma adaptação que (merecidamente) demorou mais de uma década para ser feita.

Falando das atuações, os atores foram muito bem escolhidos e incorporaram os personagens. É fácil se identificar com algum deles, principalmente o Rorschach e o Dr Manhattan. Dois que são claramente priorizados no filme, e o que me faz pensar que 2h30 de filme não são suficientes para ditar o ritmo da história. Às vezes é comum você sentir que tal personagem anda esquecido durante um tempo, como por exemplo o estiloso, rico e "homem mais inteligente do mundo" Adrian Veidt (Ozymandias). Narrativa e visual andam de mãos dadas e os personagens são envoltos por toda a temática, Jackie Earle Haley (o enigmático Rorschach), Patrick Wilson (o herói em crise de meia-idade Coruja), Jeffrey Dean Morgan (o amoral e fanfarrão Comediante), Malin Akerman (a sexy Espectral), Matthew Goode (o metódico Ozymandias) e Carla Gugino (a primeira Espectral) são dignos de aplausos.

Dr. Manhattan merece um parágrafo a parte por ser visualmente espetacular. Ao contrário da HQ onde ele é apenas um cara azul, aqui esse azul ganha vida, onde sob a superfície de sua pele transitam átomos e galáxias, um brilho intenso, enfatizando cada nuance do rosto do ator Billy Crudup. Enquanto aqui temos um personagem que por ser um deus, pode passar arrogância, prepotência e poder; ao invés disso, pela delicadeza dos seus traços e tranquilidade da sua fala e da sua face, nos passa uma humanidade dramática de alguém que talvez não saiba muito bem como empregar seu poder de forma prática. Temos uma luta de moral em que todos nós se fôssemos um físico que sofresse um acidente atemporal, teríamos.

Watchmen para ser assistido ou lido, precisa-se ter a ideia empregada de que isso é uma desconstrução do mito de super-heróis. Aqui não temos histórias onde o american way of life é idolatrado, pelo contrário. Temos aqui heróis vivendo em um mundo caótico, uma fantasia real, de medos e inseguranças, o instinto humano posto a prova. Tirando Dr. Manhattan, temos aqui apenas humanos, que atrás de máscaras ou capas procuram fazer alguma diferença no mundo; conceitos em comum, mas seguindo caminhos incomuns. Com suas diferenças (observe Comediante e Rorschach), empregam suas filosofias para algum bem, onde ninguém está errado.

E tal qual seus erros e infelicidades, sabemos que a raça humana não valoriza os pequenos milagres que tem.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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