Metal Open Air: Reflexo de uma nação

segunda-feira, abril 23, 2012


Não, não vou aqui jogar pedras no evento depois do show de horrores tomar conta no lugar da música, ou declamar aqui que um evento desse porte não poderia ser realizado onde foi realizado; na verdade ficar apontando os motivos e jogar culpa em A, B ou C é o que melhor do pior que fazemos nesse país, é deveras fácil.

Célebre frase de Homer Simpson em que ele diz: "A culpa é minha e eu jogo aonde quiser", somos um país de desenho animado. Leia clicando aqui, a carta aonde a Lamparina Produções procura tirar o corpo fora da situação em que está envolvida diretamente.

Mas convenhamos que era uma tragédia anunciada. Comemorei a iniciativa de reunir mais de 40 atrações internacionais em um evento voltado para o heavy metal que amamos como: Megadeth e Anthrax, metade do Big 4. Gritei hell yeah quando o cast de bandas se formava aumentando cada vez mais minha loucura e desejo de presenciar tudo aquilo. Eu achei justíssimo, e o pessoal do Nordeste bradou aos quatro cantos quando o Maranhão foi anunciado como sede do evento, uma região carente de shows, e aonde residem inúmeros fãs headbangers que não aguentam mais ouvir que o axé está impregnado em seu sangue. E aqui posso citar tantas outras coisas...

Entretanto, um festival que começou se chamando Wacken Brazil, apoderando-se livremente de uma marca sendo que a própria organizadora do evento original não sabia, já era um tanto estranho. Um festival que anuncia a quantidade de atrações nacionais e internacionais distribuídas em três dias de evento, comparando-se ao porte de um SWU, e organizado por duas produtoras desconhecidas, Negri Concerts e Lamparina Produções, que sinceramente não tinham experiência em montar uma estrutura que necessitava ser gigantesca pela quantidade de público que iria vir e bandas que iriam tocar; onde se necessitava de deslocamento e o mínimo de saneamento (se tratando de Brasil contamos o mínimo) em um tempo relativamente curto do anúncio do evento e execução. E enquanto isso, no meio tempo, se veiculavam notícias anunciando bandas atrás de bandas muitas vezes sem um espaço de tempo, o que significaria que rolava realmente uma negociação. Enfim, tudo soava muito fundo de quintal e apressado, romântico em outras palavras; parecia um festival organizado por haters do Rock In Rio, de fãs para fãs com o estilão vangloriado do "feito na raça". E assim foi se formando a tragédia anunciada e que presenciamos nos últimos dias.

Como um evento que está em sua primeira edição, se dispõe a trazer 40 bandas nacionais e internacionais, lidar com milhares de pessoas, e montar uma estrutura gigantesca aonde não se tinha nada? E não venham com a história bairrista de que o evento teria que ter sido feito em SP ou no RJ, os produtores eram um de cada estado para deixar claro; o que prova que picaretagem não tem endereço. Aliás esses argumentos bairristas é o que fazem ser o país que nós somos, assim se vai jogando culpa um no outro dizendo que "aqui é melhor" em vez de se refletir a realidade do que aconteceu. A verdade era que desde que o metal Open Air foi anunciado, tudo parecia um passo além da perna, era impossível não ficar com um pé atrás.

Mas a tragédia, não passa só pelo tal romantismo e estranheza que o festival causou em mim, mas sim porque nosso país não é confiável. Não precisamos de promessas, precisamos é de fatos concretos, execução e coragem, pro-atividade, conhecem? Não estou generalizando, mas somos o país que não consegue organizar uma festa de aniversário direito (que festa você lembra que não teve uma queixa ou lamentação?), estamos no país de pagar tudo na última hora, das compras de última hora, do país em que onde engolimos preços abusivos mesmo reclamando dos mesmos - espertos são os supermercados. Estamos no país aonde muitos aqueles que reclamam e se queixam do governo, fariam coisas tão piores se tivesse um punhado de dinheiro e poder na mão. Estamos no país do "jeitinho brasileiro", estamos no país de filósofos, manifestantes e chefões de porra nenhuma. Essa sim era a tragédia anunciada. Só abrir o jornal pra ver o show de falcatruas e enrolação sobre a construções dos estádios da Copa de 2014, pra ver o que se passa.



O Metal Open Air tinha tudo para marcar a história do país, e marcou, só que da forma negativa; e só nos próximos tempos saberemos com precisão a área dessa mancha. Não vou falar aqui que perdemos a credibilidade e a boa imagem de um país organizado de vez, acho que isso é outra coisa utópica, aqui sempre terá a imagem de bunda, caipirinha e carnaval seja qual for a época. Continuaremos com praticamente a mesma imagem vagabunda. Mas já que a maioria das bandas que abraçaram NOSSO PAIS como sua casa e nos colocaram de vez em seus circuitos internacionais, ela não será negativamente arranhada para sempre. Só que com certeza cairemos na piada, e terá um pé atrás, sim terá. Se demos trinta passos a frente nos últimos anos, recuamos pelo menos quinze com esse mico.

Bandas nacionais que aceitaram tocar no festival por "amor aos fãs", citando Korzus, Almah e Shaman, e  internacionais como Megadeth, Exciter e Symphony X, mergulham na hipocrisia maior quando dizem que tocaram por esse "amor" pregado aos fãs. Claro que os fãs pelo sofrimento, em parte, merecem realmente algum presente por toda a humilhação que passaram, mas por outro lado, o tal "movimento" do metal nacional capitaneado por Edu Falaschi e Thiago Bianchi principalmente, teve sua imagem cruelmente ridicularizada depois desse episódio por causa de tantas declarações dos dois. E os downloads são os culpados da "pobreza" das bandas. Ah tá.

Sobre Edu Falaschi e suas falácias

Creio que a tal bandeira "metaleira" levantada principalmente pelos senhores Edu Falaschi (Angra e Almah) e Thiago Bianchi (Shaman), seja a mais pura infantilidade que presenciamos nos últimos tempos. Tá, legal incentivar o metal nacional, mas do que adianta tanto ativismo se os próprios sequer levantam a bandeira a favor de sua "classe" no momento necessário? Eles foram lá e tocaram, de graça, com Bianchi declarando ironicamente em sua conta no Twitter: "Haha, perderam", e Falaschi inundando os sites de notícias especializados com suas declarações e muitas explicações acerca das próprias declarações, onde em carta aberta ele diz "temos que olhar pelo lado bom, pelo menos aconteceu". Ou em outra declaração pelo Twitter: "OBRIGADO GALERA Q FOI AO SHOW! O MOA, MESMO COM PROBLEMAS, ESTÁ DE PARABÉNS! VALEU NEGRI E LAMPARINA PROD. TAMU JUNTO! É UM COMEÇO! \\\\m/"

Grito aos quatro ventos negros que esse rapaz precisa ter sua internet tirada! Como um cara que defende o metal nacional com todo peito, praticamente chamando eu e você de chupa-rola (é o termo certo) do metal gringo. No momento crucial em que ele se deve posicionar do lado dos fãs totalmente, vai justamente pro outro lado puxando o saco de quem não pagou um centavo a ele. Já Bianchi nem se pronunciou contra tal acontecimento. É como João Gordo diz contra aqueles que o chamam de traidor do movimento: "Se o Brasil tivesse movimento de alguma coisa, esse país seria bem melhor".

Como ganhar respeito tocando por "amor" aos fãs? Na verdade para mim, respeito se cria tocando música de qualidade e tendo declarações firmes, não mostrando a imagem de que tocariam por meia dúzia de reais e um x-burger. A imagem do heavy metal é deturpada e por demais romântica, principalmente aqui no Brasil aonde temos complexo de vira-lata. Como sabiamente declarou o guitarrista da ótima banda Ancesttral: "Não caiam na conversa de que as bandas de metal fazem as coisas pelos fãs, porque seu eu der uma conta de luz pra algum fã do Ancesttral pagar ele vai me mandar tomar no cu!". Leia aqui na íntegra, vale a pena.

Voltando ao assunto

"É um começo" disse Falaschi sobre o evento. Esse é espírito de vira-lata faz o país em que vivemos, é apenas mais um reflexo. Estamos em um país onde tudo se olha pelo lado bom e cega-se de absurdos e descaso, conforma-se com o fato "rouba mas faz". É absurdo fãs pagarem caro, muitas vezes sem a condição financeira necessária para tal, viajarem milhares de quilômetros para um lugar não tinha estrutura e segurança alguma. Estrutura que, dado ao que li, eram barracas ao lado de estábulos cheios de merda, uma segurança que permaneceu apenas um dia no evento por falta de pagamento, e alimentação que se resumia em sanduíches doados por um supermercado local no dia do cancelamento (leia aqui). Independentemente de o tal "espírito do heavy metal" ter o tal "improviso" na sua veia e muitos dos fãs compartilharem da opinião de Falaschi, inclusive alguns gatos pingados (espero) que estiveram lá, deu pena da massa consciente que foi. Espero mesmo que esse abuso não seja tolerado, e todos os danos sejam ressarcidos.

Temos sim condições de fazer um evento grande desse porte, já realizamos vários outros. E bem ou mal, acerca dos gostos de cada um, o Rock In Rio, com problemas como todo festival tem é um sucesso de público dentro e fora do Brasil. Organizado por um brasileiro, se tornou uma marca, e assim ele se aproveitou do capitalismo que nos cerca. Hipócritas aqueles que ainda o chamam de picareta só porque sua bandinha favorita não tocou no festival. Irônico não?


Espero mesmo de coração que se consiga honrar com respeito e dedicação o heavy metal que amamos. Tenho certeza que terá outra tentativa de outro evento desse porte, só resta saber se irá ter apoio. Mostra é o fim do Monsters of Rock por exemplo.

A prepotência de Felipe Negri, um dos organizadores do evento, que no seu Twitter declarou no fim do primeiro dia fúnebre: "Pra quem falou que não ia rolar, vão todos se foderem". Faço dele as minhas palavras. Acreditei que não ia rolar, por desconfiança nem pensei em ir; e por tal desrespeito e prepotência eu e milhões é que mandam ele se foder. Tenho dito.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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