Resenha Filme: Nosso Lar

terça-feira, abril 24, 2012

Como vocês sabem, não creio em Deus. Não me declaro um cético de forma absoluta, mas também não creio em o que acredito que sejam tolices. Tudo o que pode ser desmentido pela ciência, vulgo, provas cabíveis, eu passo a crer. Sabe o "só acredito vendo", então... Porém mais do que eu NÃO acredito, acho importante pregar a tolerância e o respeito acima de tudo. Se elevar perante a si mesmo talvez seja isso. E acho que sempre devemos ter a mente aberta para qualquer preceito bom, seja isso se é de uma religião ou não.

E assim fui ver o filme. Eu não o coloquei em meu DVD, mas minha mãe o fez para ela assistir, e resolvi também fazer o mesmo, já que ouvi boas críticas de meu tio que é espírita. Porém independentemente de ele ser suspeito pra me recomendar esse filme em especial, o respeito e compreensão que ele tem por mim por ter uma opinião bem própria acerca do que acredito, me faz pensar que se existissem mais pessoas assim, acreditando em Deus, mas evoluídas enquanto ao seu pensamento e tolerância, existiria um mundo melhor. O que me fez vontade de saber realmente do que o filme se tratava.

Confesso que não sabia o que esperar muito do filme em si. Por ele ser brasileiro, acho que já acaba me dizendo metade da sua qualidade. Atores ruins com falas nada naturais, mal aproveitamento e desenvolvimento da história, clichês e lições de moral comuns; enfim, tem um pouco de cada um. Mas procure não descartar já o filme só por isso. A surpresa positiva está naquilo que o filme tem de tema, o livro.

A sinopse por si só é deveras interessante:

"Ao despertar no Mundo Espiritual, após um longo período de sofrimento em um mundo sombrio, André Luiz (Renato Prieto) é recolhido dessa zona de purgação de falhas do passado por espíritos do bem e é levado para a Colônia Espiritual Nosso Lar, de onde surge o nome do filme. A partir desse momento ele começa a conhecer melhor a vida no além-túmulo e a aprender lições e adquirir conhecimentos que mudarão completamente o seu modo de enxergar a vida. Tendo então tomado consciência de que está desencarnado (morto), sente imensa vontade de voltar à Terra para visitar e rever parentes próximos de quem guarda imensa saudade. Entretanto, como narra a sinopse do site oficial do filme, isso acontece só para que ele perceba "a grande verdade" - a vida continua para todos."

Embora não seja espírita, e ache uma verdadeira tolice a "vida após a morte" - além de durante o filme a cada vez que ouvia André Luiz, imaginar a ONG de mesmo nome -, reconheço que o filme tem um potencial filosófico praticamente infinito contido nos ensinamentos que André Luiz aprendia.

O que se aprende

Depois de um começo horrívelmente entediante que quase me fez colocar os fones de ouvido e um rock bem alto. Quando que André Luiz morre e chega em Nosso Lar, o filme começa a ficar bom - o que me faz pensar que há males que vem pra bem LOL. As ideias que o filme vai lhe passando são a grande sacada do filme, e o que me faz e vai te fazer se prender diante a ele.

Por exemplo, não acredito nessa vida após a morte que todos acreditam. Em outras palavras, se a vida após a morte existir em seu significado mais filosófico do termo, é aquele em que as ações feitas em vida serão sempre lembradas depois da morte; em outras palavras, as pessoas verdadeiramente boas vivem através de nossas lembranças. Já tinha uma ideia assim, mas recentemente passei por uma morte em minha família, e foi ali que amadureci essa ideia, percebendo talvez, o verdadeiro significado que deveria ser levado dessa "imortalidade" que as pessoas buscam na forma espiritual. A vida em si, continua dessa forma.

Acredito que religião é um mal pra humanidade, não ela em si, mas porque o ser humano em si é egoísta. Então mal por mal, vamos abater aquele que é ensinado. O fato de o espiritismo ter uma levada mais filosófica, a transforma na religião mais simpática diante a mim, tanto que faço questão de chamá-la de "doutrina".

O que se vê

Além de esse lado filosófico ser intenso em uma parte do filme, é também tão embasbacante o visual da cidade de Nosso Lar, quanto as cenas de quando André Luiz está no purgatório. Um só não é mais bonito por falta de espaço, e outro só não é mais assustadoramente fascinante por falta de tempo - e de Tim Burton. Outra menção que vale a pena ser feita é uma cena em especial do reencontro de André Luiz e sua mãe, que é a mais emocionante que já vi nos últimos tempos.

Assim como a trilha sonora que é de longe a mais bela de todos os filmes nacionais, confesso que me emocionei em muitos momentos principalmente na belíssima Moonlight Sonata de Beethoven.


Porém o filme tem o velho problema que todo o filme brasileiro tem, as atuações. Pelo amor de Deus, por Odin, Buda e Judas Iscariotes. Será que os atores não falam entre si? Será que o roteirista acredita viver no século 19? A forma engessadamente natural tal qual se fossem o Stephen Hawking falando que os atores interagem entre si, causa praticamente uma vergonha alheia, e é um problema sério mesmo. Em nenhum momento, existe uma fala natural no filme!

Uma fala coloquial não significa palavrões e gírias! Carambolas.

Além disso fica difícil levar a sério um filme em que tem-se um Anacleto, Genésio, Narcisa... Com todo respeito (aos senhores) que tem esse nome. O fato de André Luiz ser o nome (composto) mais "comum" do filme, o transforma em um filme de comédia em muitos momentos. Só faltou um Astolfo no filme.

Alegria de pobre dura pouco

Apesar das atuações, infelizmente o filme não sustenta o potencial que ele tem até o final, pois quando já começamos a ficar animados com a surpresa que temos, aparece uma garota chamada Eloisa (Rosanne Mulholland Drive), que faz com que o longa se esqueça da filosofia e vire uma historinha clichê e entediante. Será que essa parte é uma abordagem fail de Chico Xavier, de que as mulheres estragam tudo muitas vezes?  LOL

O que me deixa um pouco animado, é que o filme é acima da média do cinema nacional, tanto em execução, como em história. Mas em praticamente todo o filme, vendo os acertos e falhas, fiquei achando que um remake de Hollywood o transformaria em um filme realmente bom. Tratado com cuidado e abordando aquilo que deve realmente ser abordado, Nosso Lar tem esse potencial.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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