Resenha Livro: Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo

sábado, maio 12, 2012

Precisei de algum tempo para digerir esse livro e escrever sobre ele de uma forma decente. Li o livro ano passado, mas ele ainda permanece fresco na minha memória. Não sei se foi por causa do fato de ele ter sido escrito em 1932 imaginando essa sociedade tão automatizada, um futuro distópico e não distante; ou se foi a especulação de que Huxley, deve ter tomado uns ácidos malucos pra imaginar tudo isso!

"Admirável Mundo Novo" narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse "futuro" criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada "soma". As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe.

Na época em que foi escrito o livro, Aldous Huxley presenciava a automatização da produção em massa. Henry Ford era o mentor por trás disso, e seu modelo de carro T é a sombra por trás de toda a modernidade que vemos hoje, e porque não, base do próprio capitalismo. Vale-se atentar que, mais do que simplesmente um nome de modelo, "T" é a antíntese do cristianismo. A forma da letra é a supressão da cruz, simbolizando o próprio tema do livro de Huxley, mas como para a realidade em que vivemos, onde a religião cada vez mais é suprimida em favor ao ateísmo. É uma discussão ferrenha entre moral, religião, humanidade e progresso.

Nessa sociedade esqueça Deus, em vez de proferirmos "pelo amor de Deus" substituímos Ele por Ford. Esqueça tais sentimentos como o amor, o desejo, raiva; e a sexualidade é canalizada pela prática banal do próprio sexo. Não se sente mais nada, e cada vez mais a humanidade está presa a essa programação. Tudo é suprimido e foi feito assim com o objetivo de "dignificar" a raça humana, foi colocado o sentido do progresso em primeiro lugar, e o ponto de vista que a humanidade nunca estaria em plena harmonia se a moral (tão subjetiva) fosse colocada em primeiro plano. Em outras palavras, fomos automatizados em favor de um bem maior chamado "perfeição".

Logo no primeiro capítulo somos transportados para uma fábrica de humanos (sim, você já viu essa história no cinema). Brincamos de Deus, e a tecnologia roubou o lugar da natureza de maneira bastante eficaz. As classes Alfa, Beta, Gama, Delta (etc.) são castas pré-estabelecidas com o simples objetivo de prestarem algum serviço a sociedade, seja ele qual for. São apenas peças de uma engrenagem, já que perderam qualquer liberdade de ação. 

Só que como sempre, tem alguém que se deixa pensar. O personagem Bernard Marx sente-se insatisfeito com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta, e em outra parte porque sente-se... simplesmente insatisfeito na casta em que vive. É o homem que representa a parcela deslocada da população, cheia de tudo, provavelmente como Huxley se sentia de acordo com o que via da janela pra fora. 

Como sua casta, Marx é bonito, mas deslocado. E como nesse futuro o sexo passou a ser algo banal simplesmente para suplantar desejos hormonais, Lenina vê em Marx esse parceiro sexual. E é nesse casal em que a trama se foca. Marx vê Lenina como sua confidente e potencial ajuda em seus objetivos para se livrar das amarras em que vive.

Viajando para um reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado, uma espécie de "reserva histórica" - semelhante às atuais reservas indígenas - onde preservam-se os costumes "selvagens" do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Marx e Lenina se veêm numa trama em que são obrigados a questionarem o "produto" em que se transformaram, e o mundo em que vivem e são vítima.

Apesar de na sua conclusão Huxley nos dar uma gota de esperança, mesmo que seja débil, já que a humanidade caminha a passos largos para um futuro não muito convidativo. A obra dele nos faz tocar numa ferida em que percebemos que a tecnologia avança, menos humanos nós somos. 

Admito que fiquei perturbado ao final da leitura e durante ela. Não em pegar o livro e deixar de lado, a leitura por muitas vezes é difícil e você realmente se força a isso, precisei de uns "lapsos" de tempo para digerir o que vinha lendo. E durante esse tempo, aos poucos vai se entendendo que o jogo de palavras que Huxley usa, serve para te imergir nesse mundo distópico e nada longe do real, te prendendo do início ao fim.

A reflexão que já a fiz a um tempo, é de que a harmonia e a liberdade, são duas coisas realmente distintas por mais que isso machuque nossa humanidade. A luta de todos nós é com nós mesmos, todos os dias. O "Admirável Mundo Novo" se renova dia-a-dia, mas a discussão já é velha sobre os limites da sociedade; fato que já prova toda a importância e profundidade da história de Huxley.

Junto com "1984" de George Orwell e "Laranja Mecânica" de Anthony Burgess, "Admirável Mundo Novo" é obra fundamental na estante de qualquer amante de ficção científica futurista.

Curiosidades (fonte: Wikipédia)
  • O título do livro é inspirado em uma fala da personagem Miranda, do livro A Tempestade, de William Shakespeare. 
  • O sobrenome de Bernard Marx faz uma referência ao Karl Marx (que foi um dos percursores do socialismo científico. A sociedade retratada no livro tem semelhança com suas análises socio-economicas do capitalismo). De modo semelhante, o primeiro nome de uma outra personagem, Lenina Crowne, é muito semelhante com o de Lenin (o líder dos primeiros anos da Rússia Comunista). 
  • No segundo filme da trilogia The Matrix - Matrix Reloaded, o "Arquiteto" (Helmut Bakaitis) fala, na cena da conversa com Neo, sobre a primeira versão do mundo virtual. O fracasso dele teria sido causado justamente por conta da extrema perfeição das relações interpessoais. 
  • A banda Iron Maiden tem uma música e um álbum chamados Brave New World (Admirável Mundo Novo), na capa do álbum está representada uma Londres do futuro baseada na descrição de Huxley. A turnê de divulgação rendeu uma passagem pelo Brasil que mais tarde virou o DVD Rock In Rio.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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