Resenha Livro: Lugar Nenhum (Neil Gaiman)

domingo, junho 03, 2012

O ano é 1997 e o já consagrado no mundo da literatura e HQs Neil Gaiman resolve testar sua mão na televisão. Naquele ano para a BBC ele escreveu a série "Neverwhere", ou "Lugar Nenhum" para os não versados na língua do Tio Sam. Então seguindo em contramão do que a maioria da mídia faz, o livro é apenas uma extensão - junto com quadrinhos - da série homônima escrita há quase 10 anos atrás para a BBC de Londres e que só em 2007 chegou no Brasil através da Conrad Editora.

O que temos aqui é a história de Richard Mayhew, um jovem escocês submisso e disperso que vive uma vida normal e pacata (chata) em Londres. Richard tem um bom emprego, mora em um apartamento alugado como a maioria dos londrinos e vai se casar com a mulher ideal que rouba suspiros dele por sua beleza e inteligência, coisa que o faz se sentir um fracassado e submisso, o que é talvez motivo de ela gostar tanto dele.

Paralelamente temos a narração de uma história em que uma garota chamada Door foge de dois assassinos profissionais chamados Sr. Croup e Sr. Vandemar. Porém uma noite a caminho de um jantar importantíssimo com o chefe rico e chato de sua noiva Jessica, as histórias finalmente se cruzam, e ele encontra na rua a misteriosa Door na rua sangrando e agonizando. A caminho desse jantar Richard decide socorrê-la e isso implica no abandono do jantar importantíssimo que ele iria com sua noiva Jessica, o que causa um extremo contragosto dela até rompendo o noivado. Só que o que Richard não contava depois de Door ter sido socorrida e fugido da sua casa na noite seguinte, era que sua vida dali por diante se tornaria um verdadeiro caos não só pelo noivado com a garota dos seus sonhos ter sido rompido.

Richard parece ter se tornado invisível para todas as outras pessoas, e as poucas que notam sua presença não conseguem lembrar exatamente quem ele é. Sem emprego, noiva ou apartamento, é como se Richard não existisse mais. Pelo menos não nessa Londres. Sim, porque existe uma outra, a Londres-de-Baixo onde Door vive. Constituída de uma espécie de labirinto subterrâneo, entre canais de esgoto e estações de metrô abandonadas, essa outra Londres é povoada por monstros, monges, assassinos, nobres, párias e decaídos - e é para lá que Richard vai em busca de resgatar sua vida normal. Richard ao longo de sua jornada por esse mundo familiar e tão esquisito pra alguém que se sente tão fracassado, a Londres-de-Baixo, encontra a inocente Anaesthesia, a caçadora Hunter, o marquês De Carabas, e claro a inocente Door que jurada de morte e na busca do assassino de seus pais. ele acompanha em toda jornada. 

Foi o primeiro livro de Gaiman que li, então não posso aqui criticar se sua narrativa e criatividade estão aquém ou não de sua capacidade, mas aqui me senti preso a esse mundo tão cheio de detalhes que o autor inglês conseguiu criar. A primeira impressão ao ler "Lugar Nenhum" é estar de frente a uma espécie de Alice No País das Maravilhas, mas com um toque gótico bizarro. Neil Gaiman dono de uma imaginação fértil conseguiu detalhar um mundo rico e povoado por seres curiosos e bizarros. Sua imaginação vai voar com Marqueses que colecionam quinquilharias, ratos que são soberanos altamente respeitados, falantes de “ratês”, assassinos cruéis e nojentos como Vandemar e Croup, moradores de esgoto, mercados exóticos que vendem desde curry a cadáveres em decomposição. Toda a ambientação passa a impressão de algo escuro, sempre permeando o gótico, mas sem perder umas boas doses de ironia e até humor. 

Com um início chato não me senti conquistado pelo livro, e até por isso demorei a ler-lo, mas a partir do capítulo seis é que a coisa engrena e você se vê devorando cada página ao longo do que mais irá acontecer nessa aventura. "Lugar Nenhum" é um livro de narração fácil, mas como dificilmente algo é perfeito, o principal problema aqui para mim são os personagens. Apesar de um mundo fascinante - e isso é o que cativa realmente no livro, tanto que ao terminar o mesmo me senti triste como se tivesse que voltar a realidade -; os personagens não conquistam o leitor em nenhum momento, além de a narrativa não esclarecer em nenhum momento o que realmente há entre Door e Richard. E falando dele especialmente, me vi com raiva em mais da metade do livro. Não que ele tenha feito algo de errado, mas é que ele é muito bobo e fracassado - o que também, não foge da realidade de muitos humanos pacatos, convenhamos. Talvez o único aqui que tenha uma boa descrição e em vários momentos me senti simpatizado (principalmente quando ele forja sua morte) é o ladrão corajoso e honrado De Carabas. 

Quando vamos procurar um livro na livraria, a primeira coisa que fazemos ao olhar pra capa e achar interessante, é acabar virando o livro e se dar de cara com algum comentário, ou de algum veículo literário ou de alguma pessoa influente dentro desse mundo, que soa positivo pra nós. Então vou citar duas delas estampadas na parte de trás do livro de Neil Gaiman que descrevem perfeitamente o que você irá ler. Sendo isso bom ou ruim, o livro é recomendadíssimo para quem gosta do mundo de fantasia com toques góticos.

"Assustador e fascinante"

"Dizem que Lugar Nenhum é uma espécie de Alice No País das Maravilhas com uma virada punk que não faz justiça ao primeiro romance de Neil Gaiman, mas serve para definir seu tom. Gaiman é mestre na arte de criar e povoar mundos. Em Lugar Nenhum ele consegue se superar."

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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