Rotinas de um Paulistano

terça-feira, junho 05, 2012

Por Estevan Sena, publicado originalmente no blog Na Ressaca

Um conto, um treinamento de um. Baseado em fatos reais de São Paulo e da vida.


- Lara, você me ama ?

Lara não respondeu, apenas respirou e calmamente soltou minhas mãos, e foi assim que eu me encontrei sentado no parapeito do 12° andar do edifício Walph Thompson.

Era uma tarde calma, com um brilhante e vistoso Sol, os pássaros guerreavam por uma migalha de pão e tudo estava nos seus conformes. Meu estado de espirito era tão "ermo" que nem me incomodava as toneladas de pessoas prensadas na catraca do metrô Anhangabaú. Os pedintes, os gritos, o suor... nada me incomodava.

Enquanto caminhava pela Avenida Nove de Julho, eu pensava em como era bom estar com Lara. Seu rosto, perfume e o olhos brilhantes de alegria; eu amava aquela garota e amor é raro nos dias de hoje. No meio de grafites e a poluição tóxica das ruas de São Paulo, um homem me chamou atenção, com flores em pequenos vasos, e flores que de tão coloridas me animavam a alma. Comprei uma flor lilás. Estava animado para entregar essa flor para Lara, e caminhei feliz por entre as pessoas. Observei todos os tipos de pessoas que passavam por mim, tristes, felizes, bravas, boas e más...

Parei numa locadora e aluguei o filme "Dublê de Anjo" - adoro esse filme - e achei que Lara ia gostar, seria ótimo depois de um jantar romântico. Ao sair da locadora comprei uma Coca-cola, peguei meu cigarro e parei na porta do meu prédio. Fumei e esperei o cigarro acabar. Só pensava no rosto de surpresa de Lara ao ver o que eu tinha preparado para ela.

Abri a porta, chamei o elevador e subi para o 12° andar, apartamento 1209. Entrei tomei um banho, e olhei para a Lua - afinal já estava de noite. A Lua estava linda, nunca vou me esquecer. Preparei um ótimo prato, coloquei a mesa, velas e uma música de fundo bem calma pra dar um clima e deixei o filme no ponto. Me servi de vinho e esperei, eram 19:30. 

As horas passaram e nada de Lara, minutos, minutos e horas. Eram 23:00 e nada de Lara; foi quando me dei conta:

- Nunca existiu apartamento confortável em nenhum 12°andar e sim um cubículo mal iluminado. Nunca existiu flor alguma, pois já estava morta em minha mesa há dias. E o DVD do filme já estava velho de tanto que eu assistia ele todas as noites; a locadora nem estava mais lá, era uma padaria agora. Nunca existiu nada.

As velas já tinham acabado, derretidas á espera das minhas esperanças, e foi quando me dei conta que nem Lara havia existido, nem uma lembrança e nem uma sombra de um sentimento, seja lá qual for. Eu apenas vivia sozinho, numa rotina de trabalho e fantasias, e a única coisa que permanecia comigo em meu pequeno e inóspito apartamento era um fantasma. Ele vinha todas as noites me visitar, conversávamos muitas coisas..Eu mal lembrava do seu nome...

Éramos íntimos e eu sempre me encontro com seu rosto e suas intenções. Eu lembrei que sabia seu nome e de quando ele me foi apresentado; faz muito tempo.

Seu nome é Solidão.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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