Resenha Cinema: Na Estrada - On The Road

domingo, agosto 26, 2012

"On The Road" - Na Estrada
França / Brasil / EUA/ Inglaterra -  2012

Direção: Walter Salles
Produção: Francis Ford Coppola / Rebecca Yeldham / Nathanael Karmitz / Charles Gillibert
Gênero: Drama
Elenco: Sam Riley / Garrett Hedlund / Kristen Stewart / Kirsten Dunst / Viggo Mortensen / Alice Braga

"On The Road" ou "Na Estrada", é um livro escrito por Jack Kerouac nos anos 60 considerado até hoje um marco e uma referência para a "geração beat". Mas o que é "geração beat"? Digamos que são os famosos "hippies", geração que aflorou justamente nessa década, e o livro de Kerouac foi como uma bíblia para eles.

Jack Kerouac teve uma infância séria, onde era muito dedicado à mãe. Frequentou um colégio jesuíta e ajudou o pai numa fábrica de impressão. Mais tarde Jack conseguiu entrar na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para onde se mudou com a família, e lá teve seu primeiro contato com seus amigos "delinquentes" que mais tarde formariam a conhecida "geração beat", entre eles Allen Ginsberg e William Burroughs, além do seu maior companheiro de viagens, Neal Cassady. Este recém chegado em Nova York, com sua esposa de 16 anos. Neal Cassady era um verdadeiro produto das ruas, passando sua infância e parte da juventude em reformatórios.

A relação de amizade do escritor com o amigo Neal, foi determinante para despertar em Jack sua vontade reprimida de botar o pé na estrada e desfrutar de uma liberdade ainda não experimentada - afinal, quem nunca quis isso e nunca teve coragem? Os dois viajaram por sete anos, saindo de de Nova York e cruzando o país em direção a São Francisco, com frequentes descidas ao México. Nessa jornada baseou-se a obra "On The Road", cujos protagonistas, Dean Moriarty e Sal Paradise, aludem a Cassady e ao próprio Kerouac. Experimentando formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido sem parar para pensar ou formular frases, Jack escrevia vários romances que ia guardando em sua mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país. E assim surgiu "On The Road" como o conhecemos.

Dono de um estilo inovador de escrita, um Kerouac entorpecido de café e usando papel manteiga colados um a um fazendo assim um rolo, para não ter de trocar de papel a todo momento, sentou-se e teclou na sua máquina de escrever "On The Road" em apenas três dias. Sem parágrafos e sem pontuação em seu manuscrito original, Kerouac fundou ali um estilo inovador e de tirar o fôlego, assim como sua experiência. Sim meus caros, para quem leu e para quem viu o filme; para quem vivenciou somente um dos dois, ou os dois, pode interpretar facilmente que seu estilo reflete muito do que ele viveu nesses anos na estrada.

Nos anos 90 o famoso diretor Francis Ford Copolla ensaiou um projeto para um filme baseado na obra de Kerouac, mas foi pelas mãos do diretor brasileiro Walter Salles que acabou se concretizando nesse ano, com Coppola como produtor.

"On The Road" não é só uma obra auto-biográfica contando as desventuras de Neal e Jack, ou Dean e Sal, mas reflete a ideia da viagem que todos os jovens um dia sonham um dia em fazer, repleta de garotas, bebidas e, acima de tudo, liberdade. Quem nunca um dia sonhou em um dia chegar no trabalho e pedir demissão, simplesmente sem rumo, sem ter um porquê? Liberdade significa sair das amarras que a sociedade nos impõe para sobreviver. Fazer o que se quer e vivenciar o que se deseja, aproveitando cada momento que aparece. Eu sinceramente ainda tenho essa ideia, e "On The Road" é esse grito que ainda ecoa nos corações jovens por aí. a ambição de se viver e contar, sem arrependimentos, aquilo que mais tarde perto da morte, se arrependerá de não ter vivido.

Tendo como personagens principais, Kristen Stewart (Marylou) safada e vadia como se ela estivesse descontando toda vontade de transar que teve em Crepúsculo (apesar de ser sem sal, como ela É); Sam Riley (Sal Paradise) encarnando aquela parte de nós em que após pensar em o que fazer, mas que "taca um foda-se" logo depois; e Garret Hedlund (Dean Moriarty) nos entregando uma atuação irrepreensível de um jovem que não aguenta responsabilidades. O filme não é só uma obra cinematográfica em que procura se basear em um livro, mas é uma lição de grande amizade, e que como tudo aquilo que se viveu vale a pena. São momentos que mesmo em pequenas partes, lembra a nós mesmos, afinal, o que são nossos amigos senão donos de nossas grandes e maiores lembranças? Um homem sem amigos é um homem vazio.

"Na Estrada" é um filme que divide opiniões. Em festivais antes de estrear em cinemas brasileiros, o filme teve reações distintas aonde passava, talvez assim como a obra de Jack Kerouac; assim como toda a geração "beat" de escritores. Eu confesso que ainda não li o livro apesar de tê-lo em minha estante, e para quem leu, "Na Estrada", pode dividir ainda mais opiniões; já que toda adaptação nunca agradará a gregos e troianos. Todavia, o maior mérito que Walter Salles conseguiu com essa adaptação foi instigar o espectador, aqueles como eu, a ler o livro o quanto antes possível, saber de todos os detalhes, vivenciar ainda mais a experiência que ele conseguiu transportar para as telas. Ter o sabor de liberdade, mesmo que momentâneo, é por demais prazeroso; e Salles conseguiu isso tendo apenas uma tela de cinema. Particularmente, o filme, o livro, tocam o espectador que tiver esse grito de liberdade no peito. Eu tive um sorriso ao sair do cinema.

Voltando a parte das opiniões distintas. Como disse, elas refletem o que são os livros dessa geração, tal qual o que cada um conhece por liberdade. Muitos taxam de imoral, eu apenas fico estupefato. 

Particularmente, as palavras refletem a vontade do escritor, constroem um mundo em que podemos morar; na verdade em que moro. Jack Kerouac no caso, reflete o que viveu e o que pode conhecer da "liberdade". Com sua história e seu estilo de escrita, definiu uma geração; aquela "brisada", aquela sonhadora. Particularmente, entendo que Walter Salles aceitou o desafio, e conseguiu transportar esse sonho.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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