Resenha Filme: A Invenção de Hugo Cabret

sexta-feira, agosto 10, 2012

Quando imaginamos cinema pensamos logo em explosões, em ação, em romance, em drama, em comédia. Porém quando olhamos pelo outro lado, o cinema se traduz em arte, a sétima arte. Mais do que uma diversão para o espectador, ele é expressão do artista. Como arte, quem faz o filme busca ser compreendido, busca fascinar.

Claro que nos tempos atuais vemos um pouco isso deixado de lado, mas não vou ser um espectador metido a crítico ranzinza dizendo que o cinema como arte morreu, assim como o rock e tantas outras coisas. O certo é olhar e ver que o cinema como todas as outras coisas são mídias além de arte, e como arte, ela tem que ser ao alcance de todos. Logo sendo todos, há aquilo que agrade aos nossos ouvidos e/ou visão, e simplesmente aquilo que... não. não vamos comparar Michel Teló a Richard Wagner, ou "Triplo X" com Charles Chaplin. O que quero dizer que há espaço para todos, a arte é ao alcance de todos, seja para diversão, seja para a emoção. Podemos dizer que é disso que são feitos os sonhos, cada um tem sua realização. 

Mas é inegável que uma história bem construída - assim como uma música exaustivamente bem trabalhada -, causa as lembranças que queremos ter. Não só aquelas que lembramos ao conversarmos com os amigos, mas aquelas que ficam na lembrança só ao andarmos na rua, virando referência não só quando se faz uma recomendação a alguém, mas a nós mesmos. O cinema pra mim é uma arte por isso, ela precisa te tocar para ser necessariamente relevante. É assim que corremos atrás de nossos sonhos, como Scorsese e a sétima arte.

Um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e um raro autômato estão no centro desta história. Mais do que um filme que mistura fantasia e drama, "A Invenção de Hugo Cabret" é uma homenagem grandiosa e apaixonada de Martin Scorsese para aqueles que ajudaram a construir o cinema: os irmãos Lumiére, e especialmente George Meliès; mostrando a introdução a um de seus filmes mais famosos: "A Viagem a Lua" de 1902 (lembram-se do elogiado clipe do Smashing Pumpkins?). A história de Meliès é uma tocante mostra de como o cinema é feito de sonhos, aqueles sonhos que apesar de um mundo maluco nunca serão esquecidos. É nada menos que encantadora a parte em que o vemos produzindo seu filme. Era tudo artesanal, tudo era vida. Cada filme era uma obra de arte.


No começo do século enquanto os inventores do cinema, os irmãos Lumière, filmavam banalidades para divertir o público, Meliès encantado depois de ver uma dessas sessões resolve se aventurar nesse "mundo de "fantasia. Empolgado filmando cenas do cotidiano de Paris, a câmara de Meliès para. Mas depois de ver que a câmara parou e as pessoas continuavam a se movimentar, Meliès percebeu que a ação feita na filmagem era diferente da ação que ele estava filmando. A este "truque" (fazendo jus a seu outro talento, o ilusionismo) ele deu o nome de stop-action. Meliès criou vários outros efeitos como perspectiva forçada, múltiplas exposições ou filmagens em alta e baixa velocidade. O que poderia ser um defeito era na verdade uma descoberta que revolucionou o cinema como era conhecido. Viu como o cara foi revolucionário? 

Na trama, Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um órfão de 12 anos que vive escondido na estação central de trens de Paris dos anos 1930. Entre roubos e fugas se esgueirando pelos corredores escuros, Hugo tinha como seu porto seguro e seu motivo de alegria o seu pai relojoeiro, interpretado por Jude Law. Porém depois de sua morte Hugo passa a viver na Gare du Nord, a majestosa estação de trem em Paris onde seu bêbado tio trabalha acertando os relógios diariamente, afazer que ele, não o tio, se encarrega de fazer todos os dias. E assim por causa justamente disso ele vive, no anonimato. Como herança, Hugo ganhou não apenas o talento com engrenagens miúdas, mas também um misterioso autômato, que o garoto tenta remontar com peças que ele rouba de uma loja de brinquedos na estação. 

O protagonista Hugo Cabret não inventa nada ao contrário do que o título possa profetizar, aliás é um tremendo engano mais uma vez cometido por quem traduz os títulos dos filmes para o português, já que "A Invenção de Hugo Cabret" é simplesmente... "Hugo" em sua versão americana. Tendo esse título em mente, é bem mais fácil compreender quem é Hugo Cabret. Podemos fazer uma comparação de que ele na verdade é Martin Scorsese, o seu alter-ego digamos.

Hugo vive no anonimato, vê tudo do cotidiano de Paris do pequeno relógio da estação, como o flerte do guarda com a florista e os guardas da estação perseguindo os órfãos como ele. E vê tudo da cidade-luz de seu grande relógio, assim como um projecionista vê um filme da sua sala de projeção. Cinema é luz, e nada melhor que os grandes olhos azuis do protagonista para refletir e absorver tudo isso. Histórias são como uma grande engrenagem, cineastas apaixonados como Scorsese tem um propósito de fazê-las, e se não o fazem perdem seu sentido. Hugo observa o filme da vida.

Conhecido mais por seus filmes violentos como "Taxi Driver" e "Os Bons Companheiros", Scorsese baseia-se em um livro infanto-juvenil homônimo escrito por Brian Selznick. Mas engana-se que o filme é infantil. Tirando o visual lindo e colorido que pode até remeter a um desenho animado fantasioso no começo, o filme se revela por focar muito no drama e na emoção. É desse valor pedagógico que o filme acaba por se destacar, principalmente para quem não conhece George Meliès. Tudo aqui é muito bem feito e caprichado, as músicas, o figurino, a direção, a história, o visual, enfim...

Indicado a 11 oscars e concorrendo ao lado de outro filme magnífico, "O Artista", e que coincidentemente homenageava também os primórdios do cinema se focando no drama. "A Invenção de Hugo Cabret" pode ser entediante se você não é amante do cinema como o cinema é e foi concebido. Mas se você faz parte do grupo que se encanta pelo cinema como uma forma de arte além do entretenimento. Esse é o filme certo para você.

Hugo - 2011 - Estados Unidos

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan
Criação original: "The Invention of Hugo Cabret", de Brian Selznick
Género: Aventura / Mistério / Drama

Elenco: 
Asa Butterfield como Hugo Cabret
Chloë Moretz como Isabelle Fiorentina
Jude Law como pai de Hugo
Ben Kingsley como George Meliés
Sacha Baron Cohen como Gustav, guarda da estação de trem.
Christopher Lee como Monsieur Labisse, dono da biblioteca.
Helen McCrory como Tia Geanne

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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