Resenha Livro: A Ilha do Dr. Moreau (H.G. Wells)

domingo, setembro 02, 2012

Publicada em 1896, o romance de H.G. Wells (1866-1946) "A Ilha do Dr. Moreau", narra a história de um jovem náufrago chamado Edward Prendick, que perdido, se vê lançado numa ilha habitada por criaturas monstruosas. Resgatado por Moreau e seu capanga Montgomery, Prendick aos poucos irá descobrindo as experiências de Moreau com animais, que por meios científicos tenta os elevá-los a forma humana, mas no entanto, sem jamais produzir nada além do trágico.

É em outras palavras, mais um cientista brincando de Deus, e uma história que nos remete a uma realidade mais próxima que imaginamos. Porém o romance de Wells não é só uma simples história de ficção científica, aqui há uma questão que dá ao livro uma vida que transcende seus méritos literários: sua história aberta a interpretações, e suas fortes críticas. Não só a ciência, não só ao Homem, não só a religião; mas a Deus.

Dr. Moreau, um cientista como um cirurgião plástico, cria espécies através de operações sem anestesia, como transplantar cascos e garras para criar uma mão mais funcional, além de de orgãos e tecidos criando aberrações como numa brincadeira de ser Deus, tudo para "aperfeiçoar a evolução". 

Entretanto através da história, Wells deixa claro de que Moreau em nenhum momento está a fazer tudo aquilo para um benefício a humanidade realmente, como técnicas cirúrgicas que um dia poderão ajudar a medicina ser mais eficiente para salvar vidas. Não, Moreau faz tudo aquilo para seu deleite estético e puro egoísmo de ser um cientista que chegou a perfeição, aquele em que pôde "manipular" a evolução. Todos são "obras de arte" de Moreau. E isso é o que choca mais a Prendick, a crueldade contida não pelo ódio, mas pelo simples prazer de o cientista ter a obsessão de criar e aperfeiçoar a criação.

Como Moreau diz: "Cada vez que mergulho uma criatura viva nesse banho ardente de dor, penso: desta vez, queimarei todo o animal até extingui-lo, desta vez produzirei uma criatura racional de acordo com meu desejo. Afinal de contas, o que são dez anos? O homem está sendo aperfeiçoado há cem mil.".

O procedimento de Moreau basicamente é criar animais, e não gostando do resultado, simplesmente os descarta a ilha. E para controlar as criaturas criadas, Moreau impõe uma Lei composta por regras que, dada ao comportamento de cada monstro no seu mundo animal, lhes é doloroso ou simplesmente impossível de ser obedecido. Uma repressão de instinto, como não poder andar de quatro, ou mesmo não comer carne. 

Tendo animais bizarros recitando os mandamentos de forma doentia e repetitiva, num processo de lavagem-cerebral de rituais primitivos, Moreau os controla e tem sua prepotência preenchida, sendo que quando alguma dessas normas não é obedecida por alguém, inevitavelmente, esse é julgado e punido com diversas torturas. Com esse paralelo, Wells faz critica ferrenha a religião, além do modo civilizatório do "homem branco". O todo-bom-poderoso Deus de leis irrevogáveis e punitivas, a religião e ao povo.

Após Prendick ficar encurralado nessa ilha cheia de Frankesteins, acabou por regressar a Inglaterra, mas viu incapaz de afastar a percepção dos membros da sua própria espécie como bestas só ligeiramente civilizadas, regressando a pouco e pouco à sua natureza animal. Uma sensação que você tem ao lado de Prendick, ao terminar de ler sua assustadora história.

O único lado ruim do livro, é sua narrativa lenta demais, apesar de o livro ser curto. Tanto "A Ilha do Dr Moreau", como o "Drácula" de Bram Stoker são livros com a narrativa em forma de diário; claro que o caminho das histórias dos dois livros são completamente diferentes, assim como a qualidade é inquestionável, só que "A Ilha do Dr. Moreau" ao contrário do romance de Bram Stoker, não teve o poder de me envolver a sua história, assim não me fazendo interessar no livro o suficiente pra ler em alguns dias.

Entretanto, quando se termina o romance, e nota-se esses tantos paralelos que citei ao longo da resenha; se percebe que Wells, na sua tamanha grandeza de pensamento, nos faz ver como vale a pena ter essa leitura na memória.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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