Mas por que votar?

segunda-feira, outubro 29, 2012


Finalmente terminaram as eleições municipais, e com isso, o fim do sofrimento de uma eleição sem outdoores, mas com todo outro tipo de propaganda midiática. Tradicionais "santinhos", cavaletes, placas, adesivos, e cansativos e infindáveis comerciais...  E como se não fosse o bastante, eu fui atingido na cabeça por uma dessas placas. Agora posso dizer que fui agredido por um político...

Não vamos falar de capitalismo e como ele influencia nessa democracia utópica - assim como qualquer outro sistema -, mas vamos falar do exercício prático da eleição, o voto. Pra começar ele é obrigatório em um país que se dita democrático. Soa contradição, todavia reconheço que o povo precise realmente de regras a cumprir, tal qual a sua cidadania democrática é "representada" pelo voto que se abstém ou não. Mas o desinteresse reflete essa ideia contraditória juntamente com a própria classe de políticos abastados.

Nunca me senti motivado a votar, mas nessa eleição quase que completamente a deixei de lado. Não vou me estender muito, mas por exemplo aqui em São Paulo quase não se teve promessas concretas. Apenas um candidato que vestiu a camiseta da mudança e outro pedante que tinha como a maior promessa cumprir os quatro anos de mandato...

Enfim, por que me sentiria motivado a votar nesse quadro em que vi? Mas vamos inverter isso e ir direto ao ponto: por que eu me sentiria motivado a votar? Já disse o ponto em que o voto é obrigatório em um país que se denomina democrático; e dando os argumentos da revolta dessa contradição, isso me desanima quase que automaticamente e acredito que muitos até sem pensar. Usemos como exemplo os EUA. Se lá não é um exemplo de como se agir - e não é mesmo -, ao contrário de nosso país baronil, lá não é o voto não é obrigatório. Ok, voltamos ao ponto que disse que o povo deve ter obrigações, mas eu faço a pergunta: "porque essa?".

Pense em um vendedor. Ele precisa vender seu produto, ele precisa vender sua ideia e torná-la atraente para você. Agora pense na classe política. Como um voto obrigatório motivaria os próprios políticos a convencerem seu eleitorado? Bom, se você pensou na resposta "conveniência", você pensa junto comigo.

Temos um país rico e poderoso, com uma classe trabalhadora que passa pelo seu maior momento no índice demográfico. Mas com toda essa evolução que nos fez ser a 5ª economia do mundo, detemos ainda os piores índices em várias das necessidades mais básicas. Saúde, saneamento, segurança, educação. Sobre esse último, bate diretamente na tecla do voto, mais precisamente a verde na urna.

Não estou recriminando essa classe mais humilde, pelo contrário, queria eu que todos tivessem a mesma oportunidade que tantos milhões de brasileiros. E que a minha vida sofrida de um típico pertencente a classe média fosse compartilhada com eles, já que por mais que reclame da vida, tenho oportunidades de buscar um aprendizado maior. Meus esforços acabam valendo a pena e a função do Estado era garantir isso a seu povo, mas é fato de que um país "burro" e desinformado convém a classe política. O voto obrigatório obriga esses tais cidadãos com a desinformação e falta de interpretação - causados pelo próprio Estado - a ir para frente da urna sem analisar corretamente as propostas do seu candidato.

Resumindo, o be-a-bá que se vê na televisão e palavras mais cultas, são de difícil entendimento ao pessoal sem oportunidade. O desinteresse é tão grande que a novela transpõe qualquer interesse no futuro de quatro anos, limitando assim o entendimento a explicação pela discussões com a família, com amigos e companheiros de trabalho, e não pela compreensão própria como deveria ser. A preguiça de pensar e de se ver tudo mastigado pela televisão diariamente, afeta cruelmente o destino do país. É um assunto complexo, mas vai do Bolsa Família até o imediatismo de... qualquer bolsa. Dinheiro na mão é vendaval e esse ventinho sem esforço convém.

Nessa eleições vi alguns exemplos básicos que refletem milhões de brasileiros. No primeiro turno após o domingo do voto, numa discussão de trabalho perguntaram a cada um em que votou. Todos responderam e independentemente do voto, um motivo me chamou atenção. Disse ele: "Eu votei no Russomanno porque minha família votou", essa pessoa tem apenas 18 anos. Não vou generalizar, não vou dizer que a geração da internet não busca informação, mas é fato de que a grande maioria infelizmente busca a informação errada e não busca o tal discernimento que disse. Prosseguindo, essa mesma pessoa no segundo turno respondeu a mesma pergunta, sua resposta: votou no "Adauto". Mas quem é Adauto? É Haddad. Bom, preciso explicar de novo o que quero dizer?

Voltamos ao ponto cujo texto é inspirado: por que votar? Pra começar, me sinto desmotivado. Por mais que tenha o poder de exercer minha democracia conquistada por uma geração mais antiga que a minha e da velha máxima de "fazer a minha parte", a desmotivação vem bem além da falta de honestidade da classe política, mas vem da "maioria". A "maioria" esmaga e destrói, destrói sonhos e destrói pensamentos. Uma ideia é realmente a prova de balas, como diria o personagem V (de Vingança), mas em um sistema político essa maioria com falta de sede por informação inutiliza qualquer voto contrário que você tenha em um candidato de uma proposta mais lúcida. A maioria acaba "obrigando" esse eleitorado a votar no "menos pior", ou mesmo o voto de "protesto" em um palhaço como Tiririca -  e esclareço que não tenho nada contra a pessoa dele, mas sim abomino o fato de que piadinhas e uma musiquinha grudenta conquiste mais votos do que qualquer candidato.

Fico feliz em que o número de abstenções tenha sido relativamente grande para a média de um país de voto obrigatório, mas tenho certeza que teria sido bem maior se essa lei não existisse; talvez assim "acordando" a classe política para a própria podridão que a cerca, transformando pessoas de boas intenções nas de pior instinto possível -  vide José Dirceu que lutou contra a ditadura e hoje é julgado pelo Mensalão.

Sei que moralistas irão me reprovar, mas esse texto surge mais como desabafo. Também sei que é um ponto pertinente e "triste", pois o país em que vivemos é utópico na realidade. Um país em que nem se tem poder suficiente para cobrar-se de um político da forma que qualquer cidadão poderia cobrar, um país em que a união na verdade só vale mesmo no montante da contagem dos votos em que são direcionados pro "menos pior" - caso do Fernando Haddad.

Então pergunto: por que deveria votar? No que adiantaria meu esforço se grande parte de eleitorado não se esforça como eu e a minoria? Vote ou anule, não me preocupo com seu voto contrário ao meu desde que seja com argumentos. O ponto é que todos votassem com a consciência. Porém parece que isso é tão utópico quanto a própria democracia.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários