Resenha Filme: Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen)

segunda-feira, outubro 01, 2012

Whatever Works - EUA , 2009 
Comédia / Romance

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Ed Begley, Henry Cavill, Christopher Evan Welch

Seja qual for a sua ideia sobre Woody Allen de estar se desgastando por cima de seu pedestal como um dos maiores cineastas de todos os tempos, ou de continuar genial como sempre foi retratando o comum e banal da sociedade, ele em "Tudo Pode Dar Certo" para mim conseguiu mais uma vez se superar. É de se admirar quanto o filme é bom ao te fazer assisti-lo com um sorrisinho de satisfação no rosto a todo momento, estrelado pela grosseria falastrona de Bóris (Larry David), e pela fofa ignorância de Melody (Evan Rachel Wood).

Mais uma vez como em praticamente todos os filmes de Woody Allen o cenário é Nova York, cidade que Allen faz questão de protagonizar seus filmes mais importantes (como "Manhattan" e "Noiva Nervosa, Noiva Neurótica"). O que ele retrata e aonde ele retrata, pode ser chamado de repetição, mas eu chamo de personalidade. Nos seus filmes ele não tem medo de se auto-copiar, talvez numa própria alusão a vida, já que ele retrata essa vida cotidiana que vive se repetindo nos causando tédio em nosso dia-a-dia. Acordamos, trabalhamos, comemos, vamos ao banheiro, juntamos o lixo, pagamos impostos, amamos, nos frustramos, e dormimos para fazer tudo isso mais uma vez. Assim como vários de seus filmes se notarmos.

Com seus problemas e risadas. Bóris Yellnikoff é um físico aposentado de QI elevadíssimo que passa o tempo ensinando crianças a jogar xadrez, e um hiponcondríaco neurótico que entre outras coisas, canta parabéns a você todas as vezes que lava as mãos, e acorda no meio da noite gritando que está morrendo (não agora, mas um dia). Uma cópia de Allen misturado com o George de Seinfield interpretado por Larry David, exagerado, grosseiro de tanta sinceridade. Mas também é como todos nós, inseguros e encanados, entre verdades questionáveis e inquestionáveis. Seu QI elevadíssimo o faz por desistir da aleatoriedade da vida, e como toda pessoa desse tipo, acabou por achar melhor tentar buscar uma explicação para tudo que ela contém. Bom, costuma se dizer que quanto mais inteligente um homem, mais neurótico e seletivo na vida ele é. Mas o amor não se encaixa nisso, apenas acontece.

"No final das contas, as aspirações românticas da nossa juventude se reduzem a o que for que funcione". Daí vem o título do filme (Whatever Works).

Li um livro interessante a um tempo atrás, ele chama "O Estrangeiro" de Albert Camus. O livro se trata de coisas imponderáveis e inevitáveis. O livro não fala do amor especificamente, mas aproveitando o seu gancho das coisas inevitáveis, o amor está dentre elas. Entre essas coisas imponderáveis e inevitáveis, de ver a vida simplesmente acontecer e a medida que o tempo passa, nós reconhecermos cruelmente de que não temos controle sobre metade dos fatos que incidem sobre nós. Mas é aí que chega uma Melody St. Anne Celestine (Evan Rachel Wood) para dizer, não que estamos errados, mas como estamos sendo enganados. O amor se disfarça de acaso no final das contas.

Bóris voltando pra casa um dia conhece Melody jogada perto da sua casa, uma jovem sulista que acabou por fugir de casa para Nova York, sem conhecer nada nem ninguém, porque estava cansada de ser "controlada" e mais queria é viver a vida. Bóris, relutante, acaba por hospedar a moça em sua casa somente por uma noite, mas que porém acaba por ser estendido por um mês, e até ela arrumar um emprego. Ela com seu jeitinho fofo que contagia até quem está assistindo (lembra a parte do sorrisinho no rosto?), acaba por ficar na casa de Bóris e acaba por conquistá-lo de certa forma. Ela fala, ela ouve, mesmo sem entender nada no seu jeitinho ignorante. É fofo como recebe cada crítica e se põe a entender, na verdade todos gostam de um pouco de atenção. E de dois pólos impressionantemente diferentes, os opostos se atraem e eles acabam por casar.

Ai que um dia do nada, a mãe de Melody acaba por aparecer na casa de Bóris. Igualmente sulista, bastante religiosa, sem conhecer a cidade grande e chorando de raiva por ter sido traída por seu marido; ela de ato desaprova o casamento e parte em busca de outro partido para sua filha. "Meu Deus como ela pôde se casar com alguém tão velho?". Só que nessa busca, acabando por conhecer pessoas e a cidade, a mãe de Melody inevitavelmente amplia seus horizontes e redescobre o que a faz realmente feliz. Caminho que o pai de Melody, também comicamente aparecendo do nada na casa de Bóris, acaba por conhecer, assim também entendendo o que o faz realmente feliz.

Outra característica marcante é como se Allen estivesse conversando com nós, olho no olho. Transpassando a tela, Bóris fala com o espectador, critica a vida. Ele diz que essa sua história não é de um filme feito para você se sentir bem. Porém ao final do filme, a mordida dói menos do que pensamos se transformando em um bom arranhão que arde um pouco, mas que nos dá aquela dose de otimismo que precisamos.

Na vida, proporcionalmente temos 50% daquilo que pode dar certo e 50% daquilo que pode dar errado. Começamos assim e a medida que o tempo passa, esses números vão mudando de acordo com nossas atitudes. Tal qual os fatos imponderáveis, o "tudo pode dar certo" está entre elas. Realmente em alguma hora as coisas elas realmente dão certo, estamos felizes. Por quanto tempo? Não sabemos. Mas que tal acordar rindo de nós mesmos, e pensando no que "tudo pode dar certo"? São certas coisas que o filme me passou.

A primeira esposa de Bóris era perfeita, combinavam em tudo, entre gostos e pensamentos. Mas como Bóris diz, acordando depois de mais uma noite em que vislumbra o fato de que irá morrer, "esse é justamente o problema, damos certo em tudo". O amor não é assim, na verdade nem tudo É para dar certo assim.

Não acredito em destino, mas a vida apenas acontece no final das contas. Assim: "Whatever Works". Sabe, traduzindo: tanto faz. E o maior mérito de Woody Allen como diretor, no seu 45º filme, é transparecer de que ele não precisa realmente mais mostrar nada a ninguém, nem atuar na verdade; tanto faz se você vai gostar do filme ou não. É Bóris (Larry David) sendo um Woody Allen, e pára-raio de todas as neuras da nossa vida. Sarcasticamente conversando com você.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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1 comentários

  1. Gostei muito do filme e recomendo que mais pessoas assistam. Garanto que de uma forma ou de outra também vão gostar.

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