Resenha HQ: A Piada Mortal - Alan Moore e Brian Bolland

No Descafeinado tem resenhas de filmes, música e até games; mas e os HQs? Eu me identifico com o mundo nerd, mas confesso que não sou tão vidrado em quadrinhos. Me encantam mais as graphic novels e as edições especiais de capa dura de grandes clássicos, mas me nego a acompanhar edições e mais edições com mortes e suas reviravoltas e novas versões dos quadrinhos semanais. Aliás não sou chegado a nada com edições ou episódios numerosos, sejam quadrinhos ou animes. Então me perdoem por qualquer falha ou mesmo pela simplicidade nessa resenha.

Voltando ao que interessa, para a minha primeira resenha de HQ nada melhor que começar por uma das HQs mais clássicas. Escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland e vencedora de 7 prêmios Will Eisner Awards, "A Piada Mortal" ao lado de "O Cavaleiro das Trevas" é a obra mais clássica do morcegão e tida como referência até hoje.

"A Piada Mortal" começa com uma visita de Batman ao Asilo Arkham, o sanatório para criminosos insanos de Gotham, para visitar o Coringa e tentar conversar com ele para colocar um ponto final na longa história de ódio que existe entre os dois. No entanto, para a surpresa do Morcegão, o Coringa fugiu do Arkham e colocou outra pessoa em seu lugar. Quando descobre o ocorrido, Batman sai atrás do vilão.

Enquanto isso o Coringa já está colocando seu plano à prova, e o seu objetivo é o que move a história, de que mesmo o mais são dos cidadãos pode enlouquecer com um dia trágico. Fazendo uma visita na casa do comissário, Bárbara (ex-Batgirl) atende a porta e recebe um tiro que parte sua coluna. Enquanto os comparsas do Coringa espancam o policial, e o levam. Enquanto isso, o Coringa despe Bárbara e tira diversas fotos dela naquela situação. Com isso em mãos, ele e os comparsas levam Gordon para um parque de diversões onde torturam o comissário psicologicamente. Num pequeno "show", para "terminar" o trabalho o vilão mostra as fotos de Bárbara, nua e ferida, com o objetivo de enlouquecê-lo. Provando a todos, especialmente ao Batman, que não é preciso muito - apenas uma grande tragédia pessoal - para que uma pessoa perca sua sanidade.

O Batman é o meu herói predileto. Não tanto pelo que faz, mas pelos motivos, dilemas e conflitos pessoais que ele tem. Aliás, ser essencialmente bom é o certo? Numa análise mais profunda do herói, o Batman não é tão distante do Coringa, um necessita do outro e os dois vem dos mesmos motivos. É esse o principal ponto de "A Piada Mortal". O que o Coringa tenta mostrar é que o que separa a "luz" da justiça das "trevas" da loucura, é apenas um dia ruim.

Se conhecíamos bem o passado de nosso herói, até "A Piada Mortal" não tinha sido bem explicado qual era o passado do Coringa. Alan Moore aqui humaniza e aproxima o vilão dos leitores mostrando sua humanidade, não o suficiente para nos importarmos mais com ele do que com o Batman e o Comissário Gordon, mas o suficiente para entendermos melhor porque ele faz tudo que faz e porque faz. Isso vai desde sua tragédia que marcou sua vida, até a questionamentos mais profundos da humanidade e sua existência. Traço característico do vilão e que se vê bem nessa HQ e no "Cavaleiro das Trevas".

Paralelamente ao presente da história, vemos o passado do Palhaço. Ex-funcionário de uma fábrica química, o futuro Coringa era um comediante frustrado que decide cometer um crime para poder dar uma vida mais digna à sua esposa grávida e seu futuro filho. A ideia é que, se passando pelo criminoso Capuz Vermelho, ele leve dois criminosos através da fábrica química com o objetivo de assaltar a empresa vizinha. Como disseram os criminosos: "Se der algo errado o primeiro e único culpado por isso será o Capuz Vermelho". A primeira vista não tinha como dar errado.

No dia planejado para o assalto, a esposa do futuro Coringa morre eletrocutada em um acidente doméstico. Sem motivos para seguir seu plano, e muito menos de viver, ele acaba sendo coagido por seus novos sócios a se ater ao combinado. No entanto, os planos do bando são frustrados pelos seguranças da empresa e por Batman. Os dois criminosos são baleados, enquanto que o homem que se passava pelo Capuz Vermelho acaba entrando em pânico na presença do Batman e pula em um tonel de produtos químicos. Sai de lá com a pele branca, os cabelos verdes, lábios vermelhos e completamente enlouquecido.


Pois é, esse homem digno que tentou ganhar uma grana fácil, teve um dia ruim. Dia ruim que Batman teve quando criança ao testemunhar o assassinato de seus pais, o que o motivou a usar essa máscara e se aventurar por essa duplicidade de vidas, da qual Bruce Wayne é um magnata podre de rico totalmente banal e playboy.

"A Piada Mortal" quebrou na época diversos paradigmas na relação simplista entre "mocinho e bandido" nas HQs. Na essência tudo continua o mesmo, mas a mudança mostrava um Batman e Coringa (o verdadeiro protagonista aqui) acompanhado de mais profundidade, onde tanto um como o outro eram capazes de ter conflitos internos morais. Coisa que que nem tinha o porque de existir nas décadas anteriores. Alan aqui explorou como ninguém a psicologia dos personagens e fez uma trama paralela muito bem amarrada e simples. Acompanhado de ilustrações marcantes e cores que ilustram bem os momentos de mais climáticos - por exemplo o seu minimalista final.

A história marcou os anos 80 com uma qualidade ilustrativa (a imagem do Coringa de Brian Bolland é icõnica) e de roteiro inegável dinâmico com dose de mistério, tanto que logo me perguntei ao final da história: "o que o Comissário Gordon teve de tão forte para não ceder completamente a loucura?". É o que a HQ deixa para ser respondido pelo próprio leitor. Graças a essa "realidade" proposta por Alan Moore, acabou por afastar aquela imagem "gordinha" dos anos 60 e aproximar tantos como eu do herói.

Obra-prima para amantes do Batman e qualquer apreciador de boas histórias.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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