Resenha Filme/Livro: Laranja Mecânica

Em 1960, Anthony Burgess passava por um momento trágico quando ele e seus médicos suspeitavam de que ele tivesse um tumor no cérebro. Com a perspectiva de no máximo um ano de vida que fora dado pela medicina, Burgess estabeleceu uma última meta de vida: escrever o máximo de livros que com o dinheiro dos seus direitos autorais, pudessem dar uma vida de máximo conforto para sua amada esposa.

Burgess na sua iminência de morte, vislumbrou um futuro distópico que nunca veria. Teoricamente, pois o romance foi inspirado em um fato real acontecido em 1944: o estupro de sua primeira mulher, Lynne, por soldados americanos. Pois é, o futuro é uma repetição do passado...

Bom, em 1960 os primeiros rascunhos foram escritos, para no ano seguinte serem aprimorados, e em 1962 finalmente publicados. Burgess que tinha a estimativa de um ano de vida, viu sua vida "renascida" após um erro médico, felizmente, se é que se pode dizer assim; já que nesse erro o escritor deixou um legado de obras conceituadas, e a primeira delas, Laranja Mecânica. O autor veio a falecer em 1993, mas sua obra é atemporal, imortal. Eleito pela revista Time como um dos 100 clássicos da Literatura e um dos romances fundamentais ao lado de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, que tem um futuro distópico como grande tema.

Se passou menos de uma década quando o genial Stanley Kubrick resolveu adaptar a obra de Burgess para o cinema. Com baixo orçamento de pouco mais de US$ 2 milhões, o filme se tornou sucesso de crítica e público, e se tornou um clássico do cinema como um dos filmes mais influentes de Kubrick. Laranja Mecânica tem como mérito mais brilhante de ser uma das poucas obras que se confundem com sua inspiração, o livro. Julgando pela qualidade dois dois, é fácil se confundir ao julgar qual é melhor, seja pela atuação brilhante de Malcom McDowell como Alex DeLarge, seja pela leitura de Kubrick sobre Burgess.

A farra. A prisão. O tratamento.

Ambientado na Inglaterra num tempo indeterminado (o que torna a obra ainda mais atemporal), Alexander DeLarge é um jovem londrino de classe média de gosto um tanto peculiar. É fã de Beethoven, especialmente da 9ª Sinfonia. E as noites, como líder de uma gangue de delinquentes ao qual ele se refere como druguis, se drogam com uma mistura de leite com alucinógenos (o moloko), e saem pela rua praticando a ultra violência, como espancar gente indefesa, invadir casas e estuprar mulheres (essa "ultra-violência" que a se tratar pelos tempos malucos atuais, acaba nem sendo mais chocante). Enfim, ele é mau porque gosta de ser mau, como ele mesmo deixa a entender.

Alex com seus druguis, decidem o que fazer na próxima noite: invadir mais um domicílio. É quando, naquelas noites em que tudo dá errado, Alex da casa ouve o soar da sirenes da polícia e ao tentar fugir é traído pelo seus comparsas descontentes com sua liderança, e por Dim (guardem esse nome), que quebra uma garrafa na região de seus olhos o cegando temporariamente.

Agora preso, e acusado de assassinato - já que lá fica sabendo que sua "vítima" da noite acabou falecendo -, é condenado a 14 anos e mandado para uma rígida prisão. Tendo cumprido dois anos, é então que Alex fica sabendo do tratamento chamado Ludovico, desenvolvido pelo governo na estratégia eleitoreira de diminuir a criminalidade e que o faria sair da prisão em algumas semanas.

O tratamento consiste numa mostra de cenas de ultra-violência, que com ganchos nos olhos, ele não poderia parar de assistir. Ao final do tratamento, Alex criou uma aversão pela violência, incapaz até de se defender e de até tocar nos seios de uma mulher. Assim, como um caso de "puro sucesso" do governo em sua luta contra o crime, Alex é solto e lida agora com sua nova vida. Só que nada é como ele imaginava ao entrar para o tratamento.

Reflexões

De fato a primeira coisa que pensamos é o que se aplica a nossa realidade: prisão não reabilita ninguém. A consistente discussão da obra é como a violência acaba se tratando com violência, e ali acabamos percebendo com o narrador como é a rotina da prisão, logo, o método do Estado de recuperar seus jovens devolvendo-os a sociedade. Completamente falho e arcaico. Método em que, para o eleitor supostamente dá uma sensação de justiça. 

O amadurecimento de Alex é a característica mais marcante na obra e a que faz nos refletir acerca de vários dilemas e valores morais, como a linha tênue do certo e do errado. Apesar de ser ladrão, estuprador e arruaceiro; Alex acaba se torna carismático e passível de transformação moral. Se tornou mais sensato e provou realmente a dor quando foi totalmente privado de suas escolhas. Tornando-se um simples boneco, bom e devolvido a sociedade, mas incapaz de se defender num mundo em que se trata violência com violência. Na obra percebemos mais uma vez como somos tão inerentes a maldade do que a bondade. Ninguém se torna bom, você simplesmente é bom, e não há como extirpar o mal sem destruir a nós mesmos. Do contrário seríamos todos meras Laranjas Mecânicas. Foi o que Alex se tornou. 

Ao final do filme Alex, ao sonhar acordado, vislumbra-se transando com uma mulher na neve rodeado e aplaudido por damas e cavaleiros. Foi aí que ele disse: "finalmente estou curado". Ele voltou ao normal.

O maior tratamento é termos o poder da escolha.

Anthony Burgess conseguiu ironizar a sociedade de forma sutil quando inseriu no livro o dialeto "Nadsat". Inventado pelo autor, consiste em "gírias" que misturam o russo e inglês (por exemplo, rozzer é polícia, drugo é amigo, chavalco é homem, moloko é leite) que propositalmente nos acaba passando uma sensação de futuro. Algo que desconhecemos.

No começo esse tipo de dialeto causa estranheza, mas aos poucos acabamos relacionando e compreendendo melhor o que Alex quer dizer ao longo da obra. É um tipo de lavagem cerebral, benéfica e simples, em que sem querer querendo acabamos aprendendo algumas palavras em russo. Ato simples, inegavelmente realístico, que é passível demais de se fazer com o ser humano. Pois é...

Laranja Mecânica - 1971 - Reino Unido

Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick
Elenco original: Malcolm McDowell (Alex) / Warren Clarke (Dim) / Clive Francis (Ledger) / Micheal Tam (Pete)
Género: Drama / Ficção Científica

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Voltando
Next Post »
Comentários
0 Comentários
0 Comentários