Metallica: Vale mesmo a pena ir no show deles?

domingo, março 23, 2014

Ontem no estádio do Morumbi tivemos a turma de James e Lars mais uma vez passando por aqui e trazendo seus clássicos para os fanáticos admiradores brasileiros do bom thrash metal. E como em outras vezes, mais uma vez eu não fui.

Além das questões financeiras que te impedem em ir num show de grande porte como esse por causa dos preços exorbitantes cobrados, o que consola aqueles pobres mortais que não puderam ir no show da banda naquele ano, é a certeza de que ela logo voltará. Metallica, Iron Maiden e Motorhead são apenas três exemplos de bandas que batem ponto aqui em terras tupiniquins praticamente todo ano, fazendo a alegria de fãs brasileiros.

Porém um lado que quero apresentar nesse post, é a pergunta: vale mesmo a pena ir num show do Metallica?

Ao contrário do que você pense, não estou aqui para expor uma opinião de um fã frustrado de não ter ido (ontem fui num bar com covers excelentes de três bandas que adoro e que curti muito, obrigado por perguntar), mas quero expor uma opinião de que se sente incomodado por investir dinheiro numa banda que praticamente todo ano tem passado por aqui e tem nos apresentado praticamente o mesmo setlist. Algo que é realmente frustrante.

Pra você entender, a turnê "Metallica By Request" que passou ontem por aqui, é uma turnê em que eles tiveram a brilhante ideia de deixar a cargo dos fãs escolher a setlist desejada. Que banda do mundo faz isso, e uma das maiores? Nenhuma até onde saiba, o que fez a oportunidade ficar dourada como o ouro mais valioso. Era a oportunidade perfeita de ver o Metallica tocando ao vivo clássicos que não vemos ao vivo ou mesmo nunca vimos. Quando soube disso fiquei empolgado, afinal, logo se pensa que se tratando de fãs, o setlist seria recheado dessas músicas pois os que votariam conhecem a discografia. Fã que é fã é assim.

Porém ao mesmo tempo em que soube dessa notícia meses antes, fui tomado por um pessimismo que apesar da oportunidade dada aos fãs e mesmo esses conhecendo a discografia a fundo, veria no setlist músicas obrigatórias como "Master Of Puppets" e "Seek and Destroy" novamente, provando por A + B que brasileiro não sabe votar nem na eleição do grêmio da sua escola. O tempo passou e foi exatamente isso o que aconteceu, como você pode ver no gráfico abaixo (clique nele para ampliar):

O Metallica jogou para os fãs e os fãs jogaram para o Metallica...

Tudo está muito bom, tudo está legal e o suficiente pra esperar do Metallica algo de bom, não só pelo seu talento, mas porque a banda realmente anda numa boa fase (principalmente comercial). Mas em vez de explorar seu catálogo extenso e variado, ela prefere fazer um grande Greatest Hits pra se jogar aos louros de "melhor banda do mundo". E isso é o que me frustra. Indo mais além, a frase do Lars Ulrich no gráfico é enfática e confessa como o Metallica se acomodou em seus clássicos.

Antes que você pense, não tenho nada contra a esses clássicos absolutos que estão no gráfico e muito menos "revoltinha" de fã cabeça dura que xinga muito no twitter. Só quero externar a frustração de um fã que sabe que o Metallica tem uma discografia mais que suficiente para fazer um showzaço, mas que viu e participou de uma oportunidade única e tem voto vencido como se fosse meu voto nulo nas eleições pra presidente... Entendo que deixar os fãs escolherem o setlist é uma falta de atitude tremenda da banda, e nada mais do que uma transferência de responsabilidade meio que proclamando a todos: "oh o resultado, isso prova que tocamos as músicas que o público gosta". O que por um lado é verdade, mas por outro não. E um setlist refletindo a vontade dos fãs mais jovens. Whiskey In The Jar? Sério? E então a oportunidade final que deram numa votação ao vivo, em que a escolhida acabou sendo a mediana "The Day That Never Comes" em vez da "Ride The Lightning" e "The Memory Remains"? No Peru a alguns dias os fãs escolheram canções como a "Fight Fire With Fire", "Fade To Black" e "Orion", sendo a "Hit The Lights" a escolhida do dia. To me mudando pra lá!

O Metallica inegavelmente faz parte da minha vida e da minha formação musical -, mas outro ponto que me incomoda a ponto de não ir em um show deles, é que a banda tanto ao vivo como no estúdio só está sendo "boa". O que juntado ao que eu disse do setlist claramente jogado pro povo, só me desmotiva quando penso em ir num show que eu tenha uma experiência única e me decepciona profundamente por ser uma banda que me marcou tanto. Traçando um paralelo, infelizmente tem que se admitir que James e Lars não andam mostrando talento em procurar se "reinventar" de alguma forma, refletindo diretamente nas composições. 

O Metallica ao longo da história foi a banda mais criativa e que mais se reinventou ao longo dos anos, estabelecendo os alicerces do trash/heavy metal. O Black Album pra mim é inquestionável e introduziu o que a maior parte do povo conhece de metal hoje em dia. Load pra mim é uma obra prima injustiçada, um álbum corajoso de quem gosta de música e que se fosse assinado por outra banda não teria as críticas que se tem. S&M é um projeto que se transformou em obra-prima cult, e ao contrário de muitos, acho o Lulu legal pra carai. E St. Anger é um bom álbum de altos e baixos, e que só careceu de uma produção decente (talvez ali o Metallica quis voltar tanto às suas raízes que esqueceu do bom senso).

Foi aí que todo mundo chiando, James e Lars resolveram lançar o Death Magnetic. Em outras palavras dar o que o povo pedia, somente isso. Olhando por esse lado é bom, mas com uma audição mais apurada, nota-se que DM carece de espontaineidade e mesmo criatividade. Tanto que "dar o que o povo quer" é que o Metallica está fazendo em seus shows. Entende o que quero dizer sobre essa acomodação que o Metallica vem tendo? A nova música que foi apresentada especialmente aqui na América do Sul, "Lords of Summer", exemplifica bem isso. Riffs interessantes, bom refrão, solo mediano, e duração longa demais. Acho que já vi isso antes.

Voltando ao ponto principal, eu entendo que shows são experiências únicas. Ficar no meio de um mar de gente que curte a mesma banda que você, pular, gritar e cantar desafinado com seus ídolos de carne e osso, é um sentimento que não se compara a nada. Ainda mais em um show de rock. É purificador. Entretanto, shows não são feitos só disso pra mim, mas sim pela música em si. Creio que o que muita gente menos deseja é pagar pra ver um filme no cinema duas vezes e muito menos ir num show que tenha o mesmos setlist duas vezes. Oras, se o mundo é capitalista, então vou dançar conforme a música, concorda?

Também não quero ser leviano e depreciar a "experiência", um sentimento que é indescritivel e único a cada pessoa. Mas tal fato mostrado no gráfico, só me desmotiva quando penso em ir num show que eu tenha uma experiência única e me decepciona profundamente por ser uma banda talentosa e que me marcou tanto. Afinal, como pode ser único se (talvez) no ano seguinte parte do público verá o mesmo show, a mesma agitação, os mesmos clássicos e os mesmos trejeitos da banda? Prefiro então colocar um DVD (que tem as mesmas músicas da turnê) pra rodar.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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