Resenha Série: Breaking Bad

Resenhas de filmes são um troço meio complicado de fazer. Além de deixar o texto atrativo em si, é preciso contar a história do filme do modo mais básico possível, mas sem parecer sucinto demais. Em outras palavras, fazer de tudo para não entregar o que chamamos de "spoiler". E todos nós odiamos essa palavra que-você-sabe-o-que-estraga. Entretanto o lado bom de tudo isso e o que ajuda a falar do filme sem "entregar a rapadura", é que um filme é uma história hermeticamente fechada por mais que hajam continuações. Se for um filme único melhor, se não for tá tudo dentro dos conformes.

Agora com séries não, você pode até comentar sobre as características dela, mas não é possível falar do roteiro da temporada sem entregar algum spoiler. Sinceramente acho sem graça ler um texto assim. Eu respeito tanto quanto os avisos, mas muita gente não está nem aí, o que acaba "estragando" aquela sensação tensa de ser surpreendido.

Nunca fui fã de séries, animes ou seja lá o que for que tenha diversas sequências ou episódios. Confesso é algo deveras cansativo quando se resolve assistir uma série que está lá pela nona temporada, ou animes que estão lá pela sua marca de cinco mil episódios. Aqui é o primeiro ponto positivo de "Breaking Bad". Discutível, mas acredito que soa muito mais atraente assistir uma série que tem um final aclamado, do que aquela que está lá pela décima temporada e caminhando...

Sobre sequências, claro que deve-se reiterar que aqui há exceções, e grandes exceções. Há aquelas casos de melhora, há aqueles casos de piora e há aqueles casos que não tem salvação mesmo. Mas enfim... grande parte delas, apesar de inicialmente serem uma boa história, pisam na bola justamente quando elas se estendem demais. Quando isso acontece, imagino o roteirista amarrado numa cadeira com uma arma na cabeça e lendo aquelas declarações empolgadas para sites, declarando que a próxima temporada ou filme tem uma história incrível e quando se vê o resultado final a decepção é inevitável na maioria das vezes.

Falando especificamente das séries, francamente a audiência acaba ditando as regras em praticamente todo o tipo de emissora. Só falando das que assisti e tenho certeza que há diversos outros exemplos: "Smallville", "Supernatural", "House", "Two and a Half Men", e até posso citar "The Walking Dead"... todas elas foram vítimas de tais extensões de roteiristas que não tiveram culhões de terminarem o seriado quando esse atinge seu clímax, ou simplesmente eles não tiveram criatividade para terminarem suas histórias em busca de mais alguns trocados da emissora (especialmente a série de Chuck Lorre). Oras, em time que está ganhando não se mexe. Esse é mais um ponto positivo para a série de Jesse e Heisenberg, em que o criador Vince Gilligan teve culhões o suficientes para escrever uma série com início, meio e fim, sem dar ouvidos a opiniões alheias de que não devia encerrar a série mesmo com o crescimento absurdo de audiência que ela tinha a cada final de temporada.

Yeah! Science bitch!

Se você ainda não sabe do que se trata esse fenômeno mega aclamado chamado "Breaking Bad" (sem traduzir pra "A Química do Mal" por favor). A série criada por Vince Gilligan que por anos escreveu a série "X-Files" para Fox, gira em torno do genial, porém um pacato e tedioso professor de química Walter White (Bryan Cranston) que com sua família composta por um filho adolescente e "bocudo" com paralisia cerebral Walter Junior (RJ Mitte) e por sua esposa grávida e talentosa contadora Skyler White (Anna Gunn), vivem tranquilamente em na cidade de Alburquerque no Novo México.

Ao menos pra família de Walter, o salário de professor não dá pra muita coisa mesmo no Estados Unidos. Portanto o professor de química depois de lecionar, trabalha num lava a jato com o fim de aumentar a grana para a sua família que vislumbra a chegada de mais um membro, e como a maiora das pacatas famílias norte-americanas passa por dificuldades financeiras constantes; nada de "american way of life" aqui. Como o fundo do poço tem um porão, Walter logo após de completar seu 50º aniversário, descobre que está com um câncer no pulmão em estado avançado.

Desesperado e vislumbrando a morte e a ruína de sua família cada vez mais perto, Walter inspirado pelo trabalhos de seu cunhado Hank Schrader (Dean Norris) policial da parte de Narcóticos, acaba por ter uma ideia meio ortodoxa para fazer um pé de meia para sua família: entrar para o ramo das drogas. Walter decide usar sua mente brilhante e seu talento nato para a química afim de produzir a melhor e mais pura metanfetamina que o mercado já viu.

Como ele é um cara certinho e careta que obviamente não teria aquela malandragem para entrar no mundo do tráfico assim, ele chama um de seus ex-alunos Jesse Pinkman (Aaron Paul) que é um viciado em metanfetamina para ajuda-lo nos negócios. Um produz e outro vende, certo? Apesar de Jesse ser um traficantezinho mequetrefe, ele já serve como porta de entrada para um mundo que Walter nada sabe.

Jesse não só introduz e apresenta seus amigos de tráfico "Combo", "Badger" e "Skinny Pete". Mais tarde Jesse apresenta a Walter o terceiro membro da sociedade: o advogado de porta de cadeia Saul Goodman. Famoso por seus comerciais sensacionalistas e feitos para vender a ideia de queele fará qualquer coisa para inocentar mesmo o criminoso mais perverso. Saul funciona para Walter e Jesse, não só como um enrolador que abocanha grande parte dos lucros prestando serviços para as eventuais prisões e problemas federais que possam acontecer, mas como um advogado que é cheio de contatos para qualquer eventualidade, desde conseguir outra identidade, até o cara que é amigo do cara. Assim Walter e Jesse conhecem grandes "peixes" como Tuco Salamandra (Raymond Cruz) e Gus Fring (Giancarlo Esposito), como o assassino de aluguel e investigador particular Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks).

Vou parar por aqui senão avanço muito na história, mas esses são alguns personagens importantes que mereciam serem citados.

A curva ascendente de Jesse e Walter

O desespero pelo que Walter White passa é compreensível a todos nós e é simples se por no lugar do que ele poderia fazer. Claro que não produziria metanfetamina. Mas pense no seguinte: como arrumar dinheiro rápido e fácil? Roubar? Aposto que Walter pensou que produzir drogas seria um crime mais digno do que simplesmente roubar um banco.

As tais "curvas ascendentes" são conhecidas por fazerem um personagem se tornar melhor no fim. Em outras palavras é como na vida, nos tornamos pessoas mais sábias e mais responsáveis, e em qualquer mídia, como ficção, é quase que responsabilidade passar um tipo de lição de moral ao seu telespectador. Em Breaking Bad não acontece isso. Walter White começa como um professor de química pacato, e pouco-a-pouco, a cada morte, a cada passo em direção ao topo, Walter acaba se tornando um verdadeiro mestre do crime cada vez mais manipulador e sedento por dinheiro, perdendo assim qualquer moral que tinha. Se você tiver assistido a série inteira, até sua voz muda, assim como suas vestimentas que se tornaram mais pálidas em cores pastéis. Pra mim Walter ter adotado a careca e o cavanhaque foi aonde começou toda a ascensão para se tornar o grande Heinsenberg.

Ainda torcemos por ele, o envolvimento pelo drama do personagem é grande demais para ignorar-mos. Mas apesar disso, sabemos que a humanidade de Walter e essa sendo a causa pela qual nos envolvemos com ele, se perdeu em algum momento da história. Depois disso, assistimos a série para ver até onde o grande Heinsenberg vai, e isso fica claro na quinta temporada, onde sua derrocada moral chega a seu ápicc, assim como sua sede por vingança causada pelas más decisões que vinham sendo tomadas desde quando ele decidiu a começar a "cozinhar".

Já Jesse Pinkman foi pela direção contrária. Jesse originalmente era aquele típico adolescente perdido e sem objetivo algum na vida. Perdido nas drogas e rejeitado pela família, Jesse fracassava em qualquer rumo que queria seguir. Como no amor, em que ele viu sua vizinha se tornar sua namorada e morrer após uma recaída na metanfetamina que ele mesmo provocou.

Por esses fatos, Jesse sempre foi massacrado e subestimado por Walter, que não só chegava ao ponto de ignorá-lo completamente ao dividir os lucros, como debochava de tudo o que Jesse fazia num ato de puro orgulho, ainda mais quando ele aprendeu a receita da produção de Walter. A velha hierarquia de professor e aluno ainda permanecia.

Porém a medida que Walter cada vez mais abria mão da moral com o objetivo de aumentar seu controle, Jesse a cada morte sofria e se questionava se essas mortes eram mesmas necessárias.  Mesmo que Jesse seja imprevisível e perturbado até certo ponto, cada atitude que Jesse tem, por mais violenta que seja, é guiada pelo coração, o que com o tempo só ajudou Jesse a crescer, amadurecer e encarar uma moralidade que ele não tinha. O maior exemplo é o tal menino Brock que citei e a morte do menino na bicicleta na quita temporada, e que não vou falar muito mais para não dar algum "spoiler", mas esses fatos e a manipulação de Walter são os maiores motivos para Jesse passar a querer a morte dele.

Say My Name!

O grande mérito de Breaking Bad, é que não só cada episódio tem uma importância fundamental a história, mas em que mesmo quando nada parece que irá acontecer, de repente surge uma reviravolta ou uma atitude que levará a uma grande consequência no episódio seguinte. Como deixei a entender, esse formato econômico das temporadas que na média tinham 13 episódios no total de 62, só serviu para reforçar a qualidade da série em si. Não há aqueles famosos episódios para encher linguiça, servindo apenas de ligação entre um acontecimento e outro e nada mais. Digamos que Breaking Bad é como aquela namorada honesta, ela prende o espectador pelas suas ações, e não pelas promessas.

Vince Gilligan conseguiu roteirizar algo tão consistente, que as tais lições morais que citei no tópico anterior passam completamente despercebidas. Isso porque nada é mastigadinho e evidente, é tão quanto natural quanto necessário adquirir um evolvimento emocional com o personagem para entender o porque de ele estar fazendo aquilo, ao ponto de que cada morte não é só uma morte, mas é uma boa ou má decisão, interpretativa a você. Gus Fring por exemplo é uma pessoa admirável, não só por sua genialidade em diversos termos, mas porque entendemos que não se criou assim, mas ele se tornou assim e tomou certas decisões com a própria vida que afetam diretamente no seu trabalho.

O elenco aqui como você pode notar pelos elogios é afiadíssimo e só aumenta ainda mais a marca de qualidade de Breaking Bad. Sem exageros, mas o envolvimento e a interpretação de Bryan Cranston como Walter White/Heinsenberg e de Aaron Paul como Jesse Pinkman roubam a cena de qualquer outra interpretação de alguma série dramática que se vê por aí. Cada ângulo de câmera, cada corte, cada cena te passa a verdadeira sensação do momento, além de termos diversos elementos cômicos e patéticos: como a cena da quinta temporada em que Walter empurra um barril pelo deserto.

"Breaking Bad" com toda certeza já está na história como a série mais bem roteirizada de todos os tempos, e elevou a exigência por qualidade em outras produções e interpretações num nível infinitamente absurdo. Você pode até não gostar, e já vi muita gente que não viu nada demais na série, mas é inquestionável sua importância na teledramaturgia não só na televisão até como no próprio cinema. Se você não assistiu, assista. Se você não gostou, para de ser chato e achar que todo que tem "hype" é ruim, dê mais uma chance a série e chute a preguiça de lado.

Curiosidades

- Em uma entrevista Vince Gilligan explicou que o termo “breaking bad” é uma expressão do sul dos EUA, similar à “to raise hell”. Para nós brasileiros, seria algo próximo a “chutar o pau da barraca” ou “ligar o f#$@-se”. 

- A série é exibida em Portugal como "Ruptura Total". Achou pior ou melhor que "A Química do Mal"? Batalha díficil.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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