O choque de realidade causado pelo AC/DC

Vai fazer falta esse baixinho sempre do lado esquerdo do palco
Costumo pensar que o Rock que conhecemos não é só um estilo musical, mas sim um culto. Ao contrário de diversos outros estilos musicais que modas vem e vão, o Rock tem em sua raiz a capacidade de sobreviver graças a idolatria pelo seu próprio passado. No Rock passa-se o bastão, ensina-se. Não se adere a modas, se gosta. No Rock como em outros estilos musicais, a música em si é mais valorizada do que o próprio estilo, não se aceita algo mal tocado. Se aceita aquilo que os gigantes do rock que vimos e vemos caminhar sobre a Terra nos ensinaram a gostar, é uma idolatria instantânea aliada a nostalgia do passado que nos faz aplaudir de pé. Em detrimento a modernidade que nos parece atraente, nada substitui os simples acordes, vulgo o power-trio (guitarra baixo e bateria); assim como o velho ato da mídia física ou enviar cartas tem o sentimento intimista que a modernidade não têm e nunca terá.

Ontem foram confirmados rumores de que o guitarrista do AC/DC Malcolm Young está doente. Ao contrário do que outro rumores diziam, a banda não irá se aposentar, por mais que na ideia de Angus tocar sem seu irmão e braço direito ao lado seja o suficiente para provocar o fim da banda. É uma peça da engrenagem faltando. Segundo o vocalista Brian Johnson, na sua turnê comemorativa de seus 40 anos o AC/DC entrará em estúdio e fará uma turnê com 40 shows, e ao final deles encerrará seu ciclo (será?).

As poucas e misteriosas notícias que surgiam da volta da banda a alguns meses impedida por uma doença de um de seus integrante,s não davam a real noção de algo tão sérío acontecia com Malcolm. Li em uma notícia trazida de uma fonte próxima a família Young que o reservado guitarrista sofre com uma doença degenerativa, como Alzheimer ou mesmo de um AVC. Em outras palavras só temos a lamentar e a torcer, pois com 61 anos ele "ainda é novo" como diria minha avó.

Nos acostumamos a ver nossos ídolos passarem dessa pra melhor cedo. Como Keith Moon e Elvis por overdose e mais cedo ainda o quarteto Hendrix, Joplin, Morrison e Cobain. Vimos Steve Ray Vaughan falecer num acidente, e Lennon e Dimebag (mais cedo ainda) assassinados. Por essa "fama", acidentalmente acabamos esquecendo que os gigantes que sobreviveram não nos acompanharão até o final de nossas vidas. Os integrantes do AC/DC, Motorhead e Iron Maiden estão com seus 60, Deep Purple e Black Sabbath estão lá chegando aos 70, e Paul McCartney e Rolling Stones já passaram disso. Peter Towsend está surdo a 30 anos e sofre de dores nas costas constantes, motivando ele a anunciar o fim do The Who no ano que vem com Roger Daltrey (bisavô) apoiando a decisão. Sem contar Phil Collins, que com problemas nas suas cordas vocais e com perda da audição latente resolveu anunciar o final de sua carreira em 2011 pra se dedicar a literatura (coisa que ele disse que é a única que consegue fazer). Lemmy Kilmister e Tony Iommi estão doentes. Caras como esses deveriam serem imortais.

Que diria então um senhor chamado B.B King que com seus 88 anos não tem mais nenhuma obrigação de tocar em lugar algum? escolhe agraciar seus fãs com seu blues por puro prazer. Deveríamos é agradecer que ele ainda toca. Eric Clapton chocou os fãs ao anunciar que não tocaria mais no Japão. Porque? Como ele declarou: "Quando ficar de pé se torna um suplício após 40 minutos, é sinal de que é hora de tomar alguma providência. As 25 anos as providências têm menos impacto do que aos 65″, disse em uma nota publicada em seu site pessoal.

Tenho como principal lema de que o nascimento e a morte são os únicos dois momentos que igualam qualquer ser humano, logo igualando tais ídolos e gigantes ao mesmo nível que nós que nos julgamos meros mortais. Gabriel Garcia Marques falecido hoje aos 86 anos pensaria assim. No Rock é quase que obrigatório se ensinar aos novos integrantes da "seita", quais são aqueles que fizeram os estilo ser o que é. Assim cresci e assim aprendi, passei a admirá-los e adotá-los como partes da minha vida. A morte de Ronnie James Dio (o maior vocalista do estilo em todos os tempos) em 2011 foi um choque de realidade para pessoas como eu que o tinham como ídolo máximo do gênero. Nos acostumamos a ver gigantes como ele lançando seu zilhonésimo CD, sempre com algum projeto, em turnês desgastantes e recompensadoras para ele que tinha os seus fãs como filhos, mas o câncer o acometeu e de repente o levou. Talvez viver intensamente assim tenha sido o seu maior legado. 

Aos poucos iremos ver o que julgamos "clássico" ciclicamente ir embora para dar lugar a um novo "clássico". A principal dúvida que há e sempre haverá, é como o gênero irá renovar-se suficientemente para criar novos ídolos para contarmos aos nossos filhos. Apesar da ideia (que julgo correta) de que os downloads democratizaram a música, por outro lado essa democratizacão "matou" a criação de novos gigantes. Se antes tínhamos grandes artistas bem definidos em cada gênero, em cada época; hoje o que vemos é uma limitação disso. Por causa da democratização, a "raspa da laranja" acaba aparecendo igualmente com os grandes artistas, consequentemente diminuindo sua evidência e aumentando a "moda" em si. Hoje pouco fica e muito se vai. Morreu? Baixe a discografia! Nunca o ato de se tornar fã ficou tão banalizado. 

Talento é talento em qualquer época, mas cada vez mais isso diminui em detrimento de uma paixão descaracterizada, em outras palavras: vale a pena aparecer. Com o MP3, muitos que pensam como eu e enxergam essa democratização de dois lados distintos, buscam instantaneamente os personagens que fizeram o que o Rock é e se apaixonarão por esses personagens, e como eu, chegarão ao triste pensamento de que eles irão embora e só deixarão sua rica obra para download. 

Pode parecer pessimista o texto, mas é apenas um choque de mortalidade.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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