Resenha Livro: O Oceano no Fim do Caminho (Neil Gaiman)

O inglês Neil Gaiman é um dos autores mais interessantes dos tempos. O autor da série de HQs Sandman que durou de 1988 a 1996, impulsionado pelo apelo dos fãs pelas HQ com temática mais adulta da mais alta qualidade, tem um espaço a parte na história conquistando fãs em todo mundo. Autor também de diversos outros trabalhos conceituados como "Orquídea Negra" e "Sinal & Ruído", Gaiman chegou a trabalhar em conjunto com a Marvel na série "1602". Mas essa faceta como autor de quadrinhos não é a única. Gaiman também é autor de diversos romances fantásticos como "Deuses Americanos", "Coraline", "Lugar Nenhum" e dos contos "Coisas Frágeis".

Com a sensibilidade e talento de poucos, Gaiman consegue com seus profundos personagens de forma sensível transitar tranquilamente entre fantasia e horror, incorporando diversos temas como mitologia, aventura e até política, sempre com um senso crítico nos mergulhando em breves reflexões sobre o que somos e vivemos. Em seu livro mais recente "O Oceano no Fim do Caminho", Gaiman deixa um pouco de lado os temas mais adultos de seus romances e nos entrega uma fábula tocante e gostosa de se ler.

O ponto forte dessa fábula e o que a torna tão deliciosa de se ler, é a forma de como os personagens lidam com seus sentimentos. Em nenhum momento citando o nome de seus personagens, Gaiman apenas nos faz focar na história e na ligação que adquirimos vivenciando as memórias de um quarentão que volta a sua antiga casa reencontrando suas estranhas lembranças da infância de quando tinha apenas 7 anos

O enredo é simples e já o adiantei um pouco: no livro vivenciamos experiências de um garoto de 7 anos narrados por ele mesmo mais velho. A deixa é quando um desconhecido inquilino africano misteriosamente acaba se suicidando na pequena cidade que recentemente recebeu o garoto e seus pais. Rodeado por acontecimentos estranhos após essa morte, ele é levado a conhecer a família Hempstock, pessoas mais antigas aos olhos do mundo do que você pode imaginar, numa batalha contra os próprios sentimentos e medos, abordando simples sentimentos como a mais pura confiança e amizade.

Em "O Oceano no Fim do Caminho" Gaiman deixa as crianças serem protagonistas, e ao olhar delas, não nos perguntarmos em nenhum momento o como e o porque de tais lembranças serem relembradas dessa forma: elas simplesmente são assim. Os porquês estão guardados na relação pai e filho, assim como em relação a o que é ser adulto. Em um trecho: “Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas“. Na sua falácia, por mais que nós adultos sempre dizemos que sabemos o que fazer, ao lidar com o desconhecido e desconfortável voltamos aos nossos sentimentos de criança.

No velho "cuidado com o que deseja" Gaiman quase que imperceptivelmente na inocência de seu personagem, revela uma simples crítica aos desejos humanos mais primitivos: o sexo e o dinheiro. E quando isso se realiza, acaba trazendo resultados catastróficos personificados por um monstro, como nas mais simples fantasias e devaneios que temos ao sonharmos acordados. Nessa fábula tudo pode ser verdade, como tudo pode ser fruto de uma imaginação fértil.

Nesse mundo fantasioso de realidade lúdica, como disse, as crianças são as protagonistas, as divindades tem seu espaço próprio diante dos homens, e o Universo tem a figura de um lago que se torna um Oceano a aqueles que os veem adiante, como a menina Lettie Hempstock que na sua deliciosa e inocente sabedoria nos explica da imensidão do seu lago, tal qual o céu é um um mar de estrelas. Como diria Carl Sagan: "Somos apenas um ponto na imensidão do espaço", e a fazenda da família Hempstock era justamente isso.

Como está na capa do livro: "Uma fábula que nos lembra como nossa vida é ditada pelas experiências da infância. O que ganhamos com elas, e o preço que pagamos".

"O Oceano no Fim do Caminho" é um livro curto de pouco mais de 200 páginas e de capa belíssima, mas tão fantástico e marcante quanto eu poderia esperar. É a típica história que Neil Gaiman apenas fez para nos entreter e para entreter até a ele próprio, já que nessa fábula onde imaginação e realidade se misturam em muitos momentos é até fácil de se afirmar se não é o próprio Gaiman o protagonista.

O menino é introspectivo, questionador e um assíduo leitor que devorava livros em apenas um dia, eu imagino se Gaiman era mesmo esse tipo de garoto. Jeito que até me identifiquei um pouco (exceto o assíduo leitor, pois só no fim da adolescência tive interesse por isso), mas essa identificação aconteceu no momento em que li essa passagem: "Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu. As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo."

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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