Resenha Série: The Walking Dead (4ª temporada)

quarta-feira, abril 02, 2014

Ao passar dos dias ensolarados que nem o inferno, a decisão minha de no hiato da mid-season de The Walking Dead de começar a assistir (quase que a empurrões morais) Breaking Bad, foi uma das mais sensatas decisões que tive na minha vida.

Rasgar elogios a Breaking Bad é algo tão clichê quanto dizer que os elogios só se fazem a entender para quem compreende a carga dramática da série do químico Walter White, e ponto. Ao terminar de assistir as cinco temporadas da série, e talvez durante ela, aumentei consideravelmente minha capacidade crítica a tantas outras obras televisivas e até cinematográficas. Entre outros exemplos que poderia dar, vou me atentar para o caso específico de The Walking Dead.

A série não ficou ruim após vivenciar BB (e essa é a palavra certa), não vou chegar ao ponto de dizer isso, mas é inegável de que o enredo extremamente bem amarrado e arquitetado de BB colocou qualquer outra série num patamar abaixo, ainda mais TWD. Sendo assim, depois da "ressaca moral" de ter visto uma boa história, penei para voltar a assistir o resto da quarta temporada da série, que se encerrou na última terça aqui no Brasil. Penei porque percebi que estava assistindo-a sempre esperando alguma coisa, o que na saga de Walter White nunca aconteceu, pois em cada episódio sempre tinha algo relevante ao desfecho final da história. No TWD, os fatos que faziam diferença no enredo (exceto a primeira temporada curtissima) se sucediam muito lentamente. Vide a segunda temporada que foi um pé no cu até o final, com o povo lá na fazenda (especialmente Rick e Shane) lavando roupa e discutindo sobre a vida e sobre o que era justo. 

Entendo perfeitamente que The Walking Dead se trata de uma espécie de "novela zumbi", o enredo se desenrola assim. Entretanto até essa quarta temporada, o que mais vimos foram episódios de calmaria, aliadas a alguns zumbis mortos, e um tiroteio descerebrado no final. Não tinham uma constante. Rick descia as bolas cada vez mais, Carl vivia assustado por detrás da máscara durona e até Glenn tentou assumir o comando, enquanto personagens pela-saco como Shane (na fazenda) e irritantes como Lori (na prisão) morriam. 

Felizmente chegou a quarta temporada, e ela finalmente conseguiu equilibrar a ação com o drama sem parecer forçado. Depois de um lenga-lenga sem fim no início com aquela doença misteriosa que não matava ninguém, Hershel finalmente morre nas mãos do Governador, que morre também logo depois. 

No episódio da morte do bom velhinho ficamos chocados, e pela relação moral que tivemos com ele, quase que entramos em parafuso junto com Rick. Mas na minha visão, a medida que a prisão entra em colapso logo após a batalha final contra o Governador e o grupo acaba se separando, percebe-se que o Hershel nunca teve nem uma noção de ideia da pica grossa que o mundo acabou se tornando. E sua relação com o grupo acabou por baixar as bolas do Rick na ilusão de que ali na prisão estava tudo bem. E não estava, Carl sabia disso. Suas atitudes reclusas sempre se preparando para o pior e seus acessos de raiva que ele tinha com seu pai - coisa que preocupava Hershel até pela figura paterna que ele tinha - evidenciavam o quanto Rick tinha se cegado na aparente tranquilidade. Até Carol era mais hardcore!

Um ponto de crítica da temporada, é que podemos questionar que talvez a história do Governador foi por demais abreviada, principalmente porque Brian Blake não é um vilão tradicional de HQ, mas as consequências do apocalipse e decepções seguintes o tornaram assim (leiam o livro para mais detalhes). Porém na minha visão ele já andava desgastado, pois Woodbury já havia sido destruída e nada mais lhe restava do que a vingança.

Uma coisa que acho engraçado na série como um todo é quando os criadores dizem que "ninguém está a salvo", mas ninguém morre nessa porra! Prestem atenção que só personagens fracos, vilões e inúteis acabaram morrendo, poucos pelas dentadas de zumbis - esses que na série se transformaram em meras "ameaças de papel". Humanos matam humanos, essa acaba sendo a verdadeira ameaça. Acho que essa é a verdadeira e compreensível premissa da história, mas que seria bom ver que os zumbis acabaram tendo algum tipo de mutação estranha, seria bacana.

Na quarta temporada após um lenga-lenga na prisão que citei, o Governador mata Hershel e a mid-season se encerrou assim, no seu ápice. O que achei previsível, mas inteligente, pois as mortes de dois personagens importantes aguçaram a curiosidade de uma temporada que vinha se arrastando. Logo após isso, a série se desenrola em episódios que se alternavam mostrando os pequenos grupos que se formaram, sendo que o da Carol, Tyreese, as meninas Lizzie e Mika, e a bebê Judith foi a que trouxe mais revelações e mais dilemas morais (até porque Carol carrega isso consigo), e a apresentação de um grupo novo: Rosita, Abraham e Eugene - que alega saber o que provocou esse apocalipse zumbi - e que acabam salvando Glenn e Tara no seu caminho para Washington. No final, todos resolvem ir para a misteriosa Terminus, e naturalmente aí ocorre uma treta doida que só veremos o desfecho na temporada seguinte.

Não vou mais a fundo para não dar mais spoilers, mas o louvável nesse dezesseis episódios, é que apesar de The Walking Dead continuar com seus altos e baixos, os produtores e roteiristas nessa temporada finalmente conseguiram equilibrar bem a ação e o drama. Não temos aqui tiroteios descerebrados, e nem dramalhões que abaixavam as bolas de Rick, mas com a dissolução do grupo e com a ameaça constante, acabaram por revelar pequenas relações e crises entre os personagens, algo que não se desenvolvia no marasmo da prisão.

Justamente saindo desse marasmo Rick acordou pra vida (apesar que depois da treta final com o Governador, era mais que compreensível ele estar uma merda). O critiquei tanto aqui, mas é de bater palmas para a sua pintudice enfrentando os perigos no caminho para a Terminus. E lá, aonde ele proferiu uma frase até mais impactante do que a "isso não é mais uma democracia" no final da segunda temporada. Será que a sacola que ele escondeu na floresta terá alguma relação na quinta temporada? 

Para a quinta temporada é quase óbvio que após a Terminus, o povo convencido por Eugene acaba indo para Washington e lá acaba descobrindo mais uma enganação ou algo do tipo. E em relação as mortes aposto que personagens como Bob e Sasha deixem o grupo, e talvez Carol pela sua personalidade durona e protetora, e Daryl porque...depois da morte de Merle ele acabou meio que sendo apenas o braço direito de Rick, acabem perecendo. Outra ponto, é que será que Rick finalmente perderá sua mão? Originalmente nas HQs o Governador que faz esse trabalho, inclusive matando a Lori e estuprando Maggie (sentiu o drama?). Mas gancho para isso temos nesse final de temporada.

Tento fugir disso, mas sempre me lembro de dois casos específicos de séries que eram legais, entretinham em altos e baixos também, mas que se estenderam demais: Supernatural e Smallville. A primeira dos caçadores de demônios está lá pela sua nona temporada e caminhando, e a série do jovem Superman acabou viajando legal e terminou na décima temporada. Sinceramente, torço mesmo para que TWD não acabe seguindo pelo mesmo caminho. Talvez esse seja um reflexo de Breaking Bad e suas cinco temporadas fechadas em 62 episódios, mas seria bom ver a série sobre humanos e zumbis não seguindo apenas os índices de audiência e se focando mais na história em si, que num olhar crítico, depois da primeira temporada se tornou mais ou menos, mas que na quarta cresceu e muito de qualidade. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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