Resenha Cinema: Godzilla

sexta-feira, maio 23, 2014

Nessa indústria de hollywood de sequências, remakes, reboots e aquelas sequências de filmes de 20 anos atrás (como o Blade Runner), quando soube que iriam tentar novamente fazer uma versão ocidental do Godzilla, me animei. Com uma pulga atrás da orelha, claro, afinal a mesma Hollywood já tinha proporcionado uma experiência vergonhosa em 1998, saída das mãos do diretor catastrofista Roland Emmerich. Um monstro poderoso que virou um lagarto gigante tosco pegando carona no sucesso do Jurassic Park.

Felizmente nessa versão de 2014 dirigida por Gareth Edwards temos um Godzilla que é um Godzilla. Fiel a versão japonesa, temos aqui um mostro, grande de enorme, escamoso e assustador. Outro aspecto que todos estavam curiosos de ver era o urro. Bom, ouça aqui a delicia:






Sinopse

Nessa nova tentativa de Hollywood de fazer uma homenagem justa ao monstro, Joe Brody (Bryan Cranston) é um cientista que numa pesquisa para desvendar misteriosos abalos sísmicos; e em uma dessas pesquisas, Joe perde sua mulher, Elie Brody (Elizabeth Olsen) num acidente no dia de seu aniversário. 15 anos depois do acontecido, seu filho Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson) já casado e com um filho, é um tenente condecorado e parte do esquadrão anti-bombas, mas assim que ele volta pra sua casa sua mulher atende uma ligação informando que seu pai fora preso no Japão. Ford viaja para lá pagar a fiança e vê, contra sua vontade, que o pai ainda continua atrás de desvendar o mistério daquele dia da morte da sua mãe. 

Entre desavenças, Ford é convencido pelo seu pai a retornar a casa que eles moravam em Janjira, a cidade interditada supostamente por ainda conter níveis letais de radiação. Mas quando os dois são presos novamente pela invasão, eles são levados a região da usina que Joe trabalhava a 15 anos atrás, reconstruída pelo governo japonês por debaixo dos panos. Porém ali se esconde muito mais que eles esperam. Lá Dr. Ichiro Serizawa (Ken Watanabe) e a Dra. Wates (Sally Hawkins), estudam um casulo de uma criatura desconhecida que surgiu na usina nuclear que Joe trabalhava, e era a causa de tais abalos sísmicos que mataram sua mulher.

Godzilla não é um dinossauro!

Dessa vez temos um diretor desconhecido chamado Gareth Edwards. Sem muito alarde, fiquei sabendo que esse diretor era um fã dos filmes e de tudo que cercava a criação do Godzilla, ou melhor, o Gojira como chamam os japoneses que criaram o monstrengo. E isso me animou bastante, pois tinha alguém por trás das câmeras que manjava o conceito e o que o Godzilla é, não um espetaculoso monstro gigante que destrói tudo o que vê e come gente. O que foi que aconteceu.

O Godzilla (Gojira) foi criado no Japão em 1953 pelo produtor Tomoyuki Tanaka e dirigido por Ishiro Honda, e desde então o monstro ganhou diversas adaptações, não só no cinema, mas em séries, dos quadrinhos publicados pela Marvel, e até virou desenho animado pela Hanna-Barbera. 

A ideia por trás do bichão era muito mais do que pura e simplesmente aterrorizar a civilização, ele era a personificação do medo das armas nucleares. O país ainda sofria com as bombas jogadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki 8 anos antes, e o monstro foi criado a partir dessa ideia. Seu tamanho, força e destruição evoca a fúria da natureza sobre o homem, em outras palavras, das bombas jogadas sobre o território japonês na época. Mas ao longo dos anos, o Gojira se tornou uma personificação da própria cultura japonesa, de batalhas na cidade de Tóquio que causavam destruição e terror, e com uma aura que às vezes era vilanesca e outras vezes heróica.

Sendo assim, ele é um monstro que não aparecia só pra destruir a cidade, ele tinha um conceito. E nessa veia ambientalista, os japoneses já alertavam de uma forma crítica para a ignorância do homem em achar que controla a natureza e faz o que bem entender dela, inclusive jogando todo e qualquer lixo na superfície, de bombas a... lixo mesmo. Como as bombas nucleares que deram origem ao Gojira, e que o Dr Ichiro Serizawa (Ken Watanabe) deixa a entender quando cita o acontecimento

Os MUTOs - aqueles monstros que lutam com o Godzilla - apresentados na história, se alimentam de bombas e lixo nuclear, então nada mais é do uma forma sutil de alertar para os perigos que essa tecnologia produz. Quando o Dr. Serizawa diz que o plano é deixar os monstros lutarem, foi entendendo que o Godzilla, símbolo da destruição e do medo, era essa arma, esse predador. Tal qual o sapo come a mosca.

Essa basicamente é a premissa de Gareth com o filme, fazer uma justa homenagem ao conceito japonês que muitos não conhecem a fundo. Angariando críticas com aqueles que esperavam uma simples luta cheia de efeitos entre os monstros gigantes, algo que a história do Godzilla, em seu coração, não se trata. 

Problemas e soluções

Aqui Gareth focou basicamente no esquema que vemos hoje em dia na série The Walking Dead, ou naquela versão recente do filme Guerra dos Mundos (que ficou bem legal): o drama do lado humano no meio da catástrofe. No caso da série e do filme que citei, os zumbis e os aliens respectivamente. Mas o que achei uma decisão acertada, é aonde morou o problema. Gareth acabou focando mais no suspense e no drama que no próprio Godzilla. A estrela maior era ele carai! 

O drama na verdade é a velha mecânica de expectativa que o diretor criou com o espectador. Vendo o filme me perguntei várias vezes: a que horas o Godzilla vai aparecer? Gareth usa esse suspense a seu favor, justamente para desenvolver o foco no drama humano que os MUTOs provocaram pelo mundo. Pois é, o Gojira aparece bem no final, e na verdade o clímax está ali na pancadaria entre eles. Era o momento que todos esperavam. 

E se formos analisar o filme num sentido mais tradicional, a trama do filme é bem simples e ao longo dele é fácil perceber que todos os clichês de gênero estão ali: o pai que perde sua esposa num acidente, o filho que acha as teorias de seu pai paranóicas, o pai que não consegue esquecer o passado e o filho que quer esquecer o passado, a parte que o pai praticamente diz "eu avisei", os desencontros de família... e blá blá blá. O que achei válido, afinal, que atire a primeira pedra o longa hollywoodiano que não abusa dos clichês? Difícil. No entanto, o lado bom é que nenhuma relação ficou piegas no longa, temos seriedade em todo momento.

Chato também é que com tantos atores renomados e premiados, principalmente a dupla Bryan Cranston e Ken Watanabe, tivemos atuações que apesar de funcionarem, foram medianas pro que poderiam se tornar com a proposta do filme. Nem com o personagem principal, Ford Brody, interpretado pelo Aaron Taylor-Johnson alguém teve um pouco de... "compaixão". Lógico, a estrela é o Godzilla, mas se a proposta era equilibrar o drama humano com o clímax da pancadaria, creio que esses dois lados poderiam ser mais bem aproveitados no final das contas.

Apesar do resultado criticável nesses aspectos, na minha visão esse "equilíbrio" era o que deveria ser feito para não transformar o longa em mais um daqueles filmes espetaculosos de explosões - algo que geraria outra decepção como em 1998. Algo que o Godzilla não poderia ser.

Conclusão

Curti muito Godzilla e vale a pena você ir ao cinema ver também, mas tenho a consciência de que o filme não é inesquecível, em outras palavras, gera sensações dúbias. Por um lado temos um filme decepcionante, tanto nas atuações como na pancadaria. Mas por outro lado, Gareth teve uma decisão acertada na visão com o andamento do filme, e no sentimento que tal acontecimento traria a humanidade. 

É um filme que acertadamente faz reverência a sua inspiração japonesa (dando espaço a eles), e sendo fiel ao conceito original da criação. Algo que repito, consequentemente não agrada a todos que esperavam ver mais o Godzilla em ação. Nem a mim, naquele sentimento mais "animalesco" de ver a pancadaria correr solta.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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