Resenha CD: Titãs - Nheengatu

Indo direto ao ponto o novo álbum do Titãs, o de nome complicado, "Nheengatu", é o melhor álbum do Titãs em quase duas décadas. 

"Nheengatu" não só é um nome complicado de se falar e escrever, mas tem um conceito interessantíssimo por trás. 

A pintura da capa, A Torre de Babel, foi uma construção mítica que tinha como objetivo levar o homem aos céus e que foi destruída por Deus decepcionado com a pretensão de seus filhos, causando o desentendimento de seus povos para todo o sempre. Em outras palavras, nessa parábola nasceram os idiomas. Inversamente, "nheengatu" é também uma língua artificial criada por jesuítas no Brasil Colonial para "unificar" os idiomas indígenas com o português, facilitando a compreensão entre todos no Brasil. 

Em suma, "nheengatu" é um nome que sugere a compreensão, mas gravado em uma imagem que lembra a incompreensão. Ou, nas palavras da própria banda: "É uma tentativa de fazer uma foto instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapondo: uma palavra (uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento."

O agora quarteto formado por Paulo Miklos (voz e guitarra), Branco Mello (voz e baixo), Sérgio Britto (voz e teclados) e Tony Bellotto (guitarra) juntamente com o baterista contratado desde a saída de Charles Gavin, Mário Fabre, resolveram deixar de lado a pegada pop que vinha ditando o ritmo desde o Acústico MTV (quando ainda eram oito integrantes) para revistar um pouco daquele espírito mais anárquico pelo qual os Titãs fizeram seu nome.

Vale esclarecer que não tenho nada a essa pegada mais pop, isso não significou dizer que o Titãs se tornou uma banda ruim, apenas ficou com menos brilho, mais comum e menos reconhecível no gênero que se criou. Tente fazer um mais jovem comparar músicas como "Epitáfio" ou "Quando Houver Sol" à "Nome aos Bois" e "Tô Cansado" (nessa ordem), certamente ele vai perguntar: "ficaram velhos?". 

Talvez esse questionamento tenha passado pela cabeça dos quatro integrantes remanescentes tornando "Nheengatu" um "cala a boca" para tais críticos. O instrumental aqui reflete diretamente um espírito "punk" de ser. 

Por agora ser um quarteto, o Titãs não apela a nada mais que voz, guitarra, baixo, bateria e teclado, o que funciona muito, mas muito bem; apesar de Miklos e Branco não serem "músicos" na guitarra e no baixo, o que contribuiu diretamente pra essa pegada que vemos em "Nheengatu". Sérgio Britto dá as caras com seu teclado somente de forma precisa quando é requisitado, como na genial "Canalha", e sem rodeios o baterista Mário Fabre preenche muito bem a vaga de Charles Gavin. Várias das letras em "Nheengatu" seguem também esse caminho mais simplista e direto, só que isso também pode ser ruim para fãs mais antigos que podem comparar as composições de "Nheengatu" a trabalhos mais clássicos. 

Em músicas como a abertura com "Fardado", feita para estar na boca do povo e praticamente uma segunda versão de "Polícia": "Você é também explorado, fardado! Você também é explorado, aqui!", e na inspirada "Mensageiro da Desgraça" que também é referência aos protestos atuais: "Cansei da fome, do crack, da miséria e da cachaça. Cansei de ser humilhado. Sou o mensageiro da desgraça". Essa abertura corta fora qualquer dúvida e descrença que se tinha da banda de compor novamente músicas tão legais assim.

Numa levada mais descontraída na guitarra temos a "República dos Bananas", criando personagens encarnados em uma crítica direta a alienação do povo: "Calúnias sociais, seus tipos bacanas. Bundas e caras da República dos Bananas!", outros bons momentos nessa levada mais descontraída são "Fala, Renata" e "Cadáver Sobre Cadáver". Mas os grandes momentos de "Nheengatu" pra mim estão guardados nas fantásticas, principalmente nos instrumentais: "Canalha" e "Pedofilia", essa segunda fazendo referência a um assunto polêmico e infelizmente em evidência no Brasil: "Não sonho mais em mim, não sonho mais, só sou nojo de mim, só sou esquecimento".

No meu conceito é sacanagem forçar uma banda a ser exatamente o que era no passado, mas infelizmente se formos escutar a trinca dos anos 80: "Cabeça Dinossauro", "Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas" e "O Blésq Blom" dá pra notar uma "ferrugem" na qualidade das letras e até composições, o que foi crítica de muitos. Entretanto faça um exercício: se ater a isso é muito injusto. Os Titãs foram reduzidos a quatro, e logicamente temos que pensar em uma banda diferente, com as cabeças que faziam parte a décadas atrás mas sem aquelas que contrapunham tais ideias. Nando Reis e Arnaldo Antunes são ex-Titãs ótimos exemplos de excelentes compositores que a banda sente muita falta, para mim os "cabeças" da geração. 

O espírito pode se passar, mas o espírito se conserva. O que fica mais claro nesse último trabalho é que quatro podem valer por oito, e que sim, a influência de "Cabeça Dinossauro" é latente, certamente trazida pela aura que a turnê em comemoração dos 30 anos do álbum trouxeram pro quarteto.

E o que mais importa é que o tempo passa muito bem. Mais de 30 anos depois o Titãs ainda faz rock de muita qualidade e é com muita felicidade que vejo uma banda renascer a muitos que a julgaram como ultrapassada, se propor com conteúdo a dar uma opinião - mesmo que talvez não seja com a acidez que podia-se esperar - numa terra de calados e "pasteurizados" que hoje é o rock nacional de... quem mesmo? Parece que o passado tem que fazer o presente também!

Viva aos Titãs, e tomara que essa pegada que fez "Nheengatu" virar notícia em tantos sites e ouvidos, como não era visto a anos, continue firme e forte.

Tracklist:

1. Fardado
2. Mensageiro Da Desgraça
3. República Dos Bananas
4. Fala, Renata
5. Cadáver Sobre Cadáver
6. Canalha
7. Pedofilia
8. Chegada Ao Brasil (Terra À Vista)
9. Eu Me Sinto Bem
10. Flores Pra ela
11. Não Pode
12. Senhor
13. Baião De Dois
14. Quem São Os Animais?



Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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