O que podemos levar da vida de Robin Williams?

quarta-feira, agosto 13, 2014


Acho que todo mundo ouviu essa frase por aí: "Por trás de todo palhaço se esconde uma tristeza"

Por trás de letras positivas e de luta que Chorão difundiu através do Charlie Brown Jr, do deboche e molecagem de um Fausto Fanti no Hermes & Renato, e agora do gênio Robin Williams, ator como Heather Ledger, se escondia a mesma doença: depressão.

Não faltam em sites de notícias aqueles comentaristas de oportunidade debochando e se aproveitando da hipocrisia religiosa para dizerem no alto de sua razão e humor: "cheirados e pecadores".

Eleita como mal do século pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a depressão é uma doença silenciosa que tem o pior tratamento que possa ter: o livre-arbítrio. Basta parar pra pensar que é comum passar dias e semanas tentando convencer uma pessoa a passar no médico para uma tal tosse que não passa, então imaginemos tentar convencer uma pessoa da sua condição de "suposta tristeza" que passou dos limites a tempos, e mais, tentando convencer uma pessoa de uma estado que é invisível aos olhos exteriores. Podemos identificar uma suposta depressão, mas o diagnóstico, como para outros sentimentos, não passa de uma pergunta, bastando apenas a pessoa negar esse estado, até a si mesma. Então o que diríamos de pessoas como Fausto e Robin?

Nunca ter tido esse problema, não significa de forma alguma ter uma suposta autoridade sobre alguém que o tem, afinal não podemos dizer nem a nós mesmos "como sermos felizes". Qualquer sentimento é muito individual e por isso a depressão é tão silenciosa e tão grave.

Contando um caso pessoal, perdi minha avó para a depressão. Não lembro em que idade, mas ela anos antes de completar 60 anos, teve um derrame que afetou os movimentos da parte direita do corpo, incluindo a fala, a perda de 20 quilos, e dificultando a sua capacidade de digerir alimentos sólidos. Ela era o tipo daquela pessoa dócil e que reclamava diariamente de seu trabalho de dona de casa, como qualquer avó acredito eu, mas que adorava mimar seu filhos e seu querido neto (eu) fazendo comidas deliciosas e as demais tarefas cotidianas de casa.

Mas então ela teve esse AVC e a consequência disso foi fatal, já que sua alegria em poder reclamar e fazer suas "coisinhas" foi seriamente prejudicada, perdendo capacidades motoras que fariam qualquer um sofrer. Tinha cerca de 10 anos na época e até hoje me lembro dos momentos de tristeza que me cercavam, desde encarar minha família tentando de todas as formas ajudar uma pessoa que se via abalada por aos 60 anos não ter capacidade de fazer quase nada sozinha, até eu sozinho em casa evitando uma tentativa de suicídio dela. Na época por ser criança, ainda não entendia e gritava com ela na época como se aquilo fosse reversível só pela vontade dela, afinal ela estava fazendo fisioterapia e daí na minha concepção, qualquer um poderia se recuperar dessa "tristeza". Mas não era assim. E assim ela foi se negando a vida aos poucos já que impedi seu suicídio meses antes, e que possivelmente não teria ido muito longe, se tratando de um produto de limpeza que numa ida ao hospital seria desintoxicado, mas bastaria para uma tentativa em ficar presa em uma cama, que era o que ela queria.

Meses se passaram e até ela ensaiou uma leve melhora, mas com o desgosto pela vida cotidiana, pelas pessoas, e pelas alternativas que lhes davam, no inverno ela meio que forçou uma pneumonia e daí sua situação de saúde piorou de tal forma que numa tarde ela foi levada de ambulância do prédio em que morava e essa foi a última vez que a vi viva. Num domingo ensolarado no primeiro dia de maio ela faleceu, não estou lembrado das causas da sua morte, mas mais do que qualquer coisa ela desistiu de viver.

A dor que senti e sinto até hoje é grande, e apesar de ela ter decidido pela desistência, qualquer um da minha família que teve um envolvimento próximo com ela, e principalmente eu que na incapacidade de compreender a gravidade da situação na época. Há um sentimento de arrependimento até hoje pelas coisas ditas e não ditas, pelas coisas que poderiam terem sido feitas. Mais do que isso, a falta do que uma pessoa amada faz e a dor da perda de uma pessoa que escolheu ir dessa forma. Suicídio ou não, a depressão é a mesma com o mesmo resultado final, a única diferença é o tempo.

Mesmo que tenham-se doenças em vida, é difícil quantificar e explicar o porque uma pessoa desiste da vida. Procurar paz, se livrar do vício, fugir da angústia. Como disse, não podemos entender os motivos que fazem uma pessoa chegar a esse ponto, mas a única coisa que se pede para tentar entender tais dores que assolam alguém que amamos é não julgar. E antes de criticar, fechar os olhos e se colocar no lugar de uma pessoa que ficou. Que tem que trabalhar, estudar, ou simplesmente sorrir depois de ver uma pessoa amada dar tchau de uma forma tão melancólica como foi com minha avó ou da forma tão abrupta que foi com Robin, Fausto e Chorão, antes de ameaçar tirar a própria vida por causa de qualquer decepção cotidiana.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia:

"Esse é o pior dos mundos possíveis. Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinado o sofrimento como condição humana: VIVER É SOFRER".

Robin Williams nunca escondeu seus problemas com cocaína e o alcoolismo nos anos 80, e recentemente após anos de sobriedade Robin teve uma recaída, o que o fez voluntariamente entrar para uma clínica de reabilitação. Trabalhar era seu principal escape, há 4 filmes agendados com o ator, entre eles Uma Noite No Museu 3 que logo estreará. Porém ele sofria de uma depressão aguda e a três semanas não aparecia em público, e supostamente, dado aos sorrisos de suas atuações, ele estava bem.

O ator e comediante era conhecido pela sua versatilidade, de no puro improviso e talento conseguir transpassar credibilidade em papéis distintos. O palhaço Robin era conhecido por ser uma pessoa socialmente dócil e gentil na sua vizinhança, sempre simpático e fazendo brincadeiras capazes de melhorar o humor de qualquer um, foi um choque para quem o conhecia de perto vê-lo ir de uma forma tão abrupta, sem dizer adeus.

Fecham-se as cortinas.

E talvez essa sua existência tenha sido um retrato de sua obra: comédia e drama. Perdi hoje mais uma parte da minha infância, mas que felizmente testemunhei em vida um dos atores mais completos de sua geração. Uma Babá Quase Perfeita, Gênio Indomável, Bom Dia Vietnã, Sociedade dos Poetas Mortos, Retratos de Uma Obsessão... suas atuações nos entregavam uma capacidade ímpar em nos emocionar e nos fazer sorrir (levante a mão quem chorou no Homem Bicentenário). Diante de tantos filmes marcantes, vale muito a pena baixar a filmografia dele, então que tal fazer uma sessão pipoca em sua homenagem?

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários