Resenha Filme: A Outra História Americana

O episódio de racismo (mais um) contra o goleiro Aranha no jogo de ontem Grêmio x Santos válido pela Copa do Brasil, é apenas uma triste constatação da nossa sociedade, uma sociedade preconceituosa, mal-educada e carregada de crenças extremamente arraigadas, ironicamente numa população tão pluralista como a brasileira.

Como infelizmente testemunhamos num mundo globalizado, o racismo é cada vez mais evidente por uma suposta paixão clubística em que tantos jogadores são ofendidos pela sua cor da pele em pleno século 21. O preconceito é enraizado principalmente naqueles que praticam aquela cultura do "nada contra, mas...". Desde a mulher que não pode entender de futebol, passando pelo racismo, até aquele cara que sempre dá um jeitinho para se dar melhor diante aos outros; e o mais grave e talvez mais risível: ontem foi filmado um negro ofendendo o goleiro também negro. Pois é. Porque nós humanos temos essa necessidade de nos sentirmos superiores à qualquer maneira?

Na II Guerra Mundial foram mortos cerca de 70 milhões de judeus, a ideia deturpada e fanática de Hitler da raça ariana marcou a história, mudou um país e mesmo com a justa demonização do ocorrido, ainda há defensores e adeptos a ideia de supremacia (já até ouvi gente que acredita que não houve o holocausto...). Contudo, a guerra maior se constrói dia-a-dia, como nesse caso que aconteceu ontem num mero jogo de futebol de torcedores doentios. Esse episódio só é mais um em uma dura e cruel realidade ainda viva em nosso meio, mesmo com tantos defensores da igualdade ao longo da história moderna. A verdade é que "brancos" odeiam "negros" ao que fizeram em sua sociedade "limpinha", homens odeiam mulheres que se "infiltram" em seu "clube", e os dois sexos odeiam as pessoas que fazem a opção pelo terceiro (homossexualismo), afinal, a cena de dois homens se beijando destroi familias e a falta de caráter não. E assim seguimos nessa guerra cada vez mais preconceituosa sem ao menos saber o porque ela começou.

No longa de 1998 de Tony Kaye, "A Outra História Americana", somos convidados a uma reflexão profunda sobre esse assunto que continua atual.

Derek Vinyard (Edward Norton) é o filho mais velho de uma família americana de classe alta, que teve quando jovem seu pai assassinado por negros enquanto ele lutava contra um incêndio no bairro deles, e isso foi o estopim para Derek se rebelar e colocar para fora toda sua ira contra as pessoas que - no que ele acredita - só causaram desajustes sociais roubando direitos de um país "justo e limpo" como o americano. Derek assim se torna um líder de uma gangue racista seguidora dos princípios neonazistas e que tem como objetivo livrar seu bairro de tais "parasitas", os negros e latinos que buscam um lugar para ter uma vida melhor mas acabam tirando a oportunidade de pessoas merecedoras como ele. Assim não demorou para Derek se tornar uma referência para jovens perdidos e excluídos de seu bairro que veem na sua pregação uma saída para a sua angústia e frustração.

O filme começa na cena que desencadeia toda a história sendo o divisor de águas na vida de Derek. Seu irmão Danny Vinyard (Edward Furlong, o eterno John Connor de Terminator 2), ouvindo seu irmão transar no quarto ao lado e com os gritos acaba acordando no meio da noite. Não sei com o que ele se sente mais incomodado, mas o fato é que ele deitado na cama e tentando dormir, acaba avistando e avisando a Derek que dois negros estão a roubar o carro dele. Derek sai correndo para fora com uma arma e absolutamente transtornado, mas sabendo exatamente o que ia fazer: matá-los.

Mas o filme não se trata a apologia ao nazismo, claro que não, o filme se foca na longa reabilitação de Derek. Pego pela polícia, preso e condenado, Derek se vê num "mundo" em que todos são iguais e todos estão sujeitos a violência, até mesmo os seus semelhantes. Após três anos na prisão, Derek percebe que em todos esses anos que defendeu essa ideologia só serviram para piorar sua vida, e que o ódio não tem razão de existir. Assim, Derek sai totalmente mudado, e disposto a recomeçar sua vida e a salvar seu irmão que trilha exatamente o mesmo caminho que ele, prestes a assumir o posto de líder na gangue neonazista da qual ele pertencia.

A narração é feita por Danny e o roteiro segue uma fórmula não-linear com "flashbacks", mas muito distante de confundir o espectador, tanto que os planos em preto e branco e em cores servem precisamente para separar o que é lembrança e tempo presente, e não só para isso, servindo como uma espécie de simbologia representando o passado sombrio que Derek tanto luta para esquecer.

Com uma bela fotografia e planos em câmera lenta que serviram pra aumentar a carga de dramaticidade da cena, como a fatídica cena da calçada e logo depois com a prisão, em que Derek sorri com a sensação de vitória mesmo sendo preso após matar dois negros. Talvez não há cena tão enfática como essa para traduzir essa guerra silenciosa: a vitória. Tudo se resume a isso.

O sorriso da vitória
Inegavelmente num filme tão profundo com um tema tão delicado, a exigência por uma grande e convincente atuação é natural. O narrador e irmão de Derek, Edward Furlong, apesar de passar uma aparência "chapada" por todo o longa, dosa muito bem sua atuação, e nos entrega uma atuação talentosa e que por ela é capaz de nos fazer facilmente entender sua verdade em cada sentimento. Mas é no grande Edward Norton que recaem os principais elogios. Desde o jovem e inocente Derek até o líder da gangue neonazista da qual ele se tornou, Edward traduz perfeitamente a intensidade e sensibilidade por trás de cada momento, e não são poucas as vezes que nos impressionamos por isso.

"A Outra História Americana" é grandioso em sua proposta de nos mostrar como o racismo nasce e como ele invade a vida das pessoas, tornando-as cegas, insensíveis e propensas a violência. Filmes contra o preconceito tem vários, mas Tony Kaye assumiu essa missão com maestria retratando fortemente a ascenção da violência por causa da xenofobia, conseguindo comover e sensibilizar o público em um assunto que deve ser refletido diariamente, inclusive mostrando o poder da influência que as pessoas que amamos tem sobre nós. E como um país que se julga "a terra da oportunidade", tem ainda tão arraigada em sua cultura um preconceito extremamente hipócrita e violento em que resta só a reflexão de cada um para mudar isso.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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