Resenha Filme: A Outra História Americana

sexta-feira, agosto 29, 2014

O episódio de racismo (mais um) contra o goleiro Aranha no jogo de ontem Grêmio x Santos válido pela Copa do Brasil, é apenas uma triste constatação da nossa sociedade, uma sociedade preconceituosa, mal-educada e carregada de crenças extremamente arraigadas, ironicamente numa população tão pluralista como a brasileira.

Como infelizmente testemunhamos num mundo globalizado, o racismo é cada vez mais evidente por uma suposta paixão clubística em que tantos jogadores são ofendidos pela sua cor da pele em pleno século 21. O preconceito é enraizado principalmente naqueles que praticam aquela cultura do "nada contra, mas...". Desde a mulher que não pode entender de futebol, passando pelo racismo, até aquele cara que sempre dá um jeitinho para se dar melhor diante aos outros; e o mais grave e talvez mais risível: ontem foi filmado um negro ofendendo o goleiro também negro. Pois é. Porque nós humanos temos essa necessidade de nos sentirmos superiores à qualquer maneira?

Na II Guerra Mundial foram mortos cerca de 70 milhões de judeus, a ideia deturpada e fanática de Hitler da raça ariana marcou a história, mudou um país e mesmo com a justa demonização do ocorrido, ainda há defensores e adeptos a ideia de supremacia (já até ouvi gente que acredita que não houve o holocausto...). Contudo, a guerra maior se constrói dia-a-dia, como nesse caso que aconteceu ontem num mero jogo de futebol de torcedores doentios. Esse episódio só é mais um em uma dura e cruel realidade ainda viva em nosso meio, mesmo com tantos defensores da igualdade ao longo da história moderna. A verdade é que "brancos" odeiam "negros" ao que fizeram em sua sociedade "limpinha", homens odeiam mulheres que se "infiltram" em seu "clube", e os dois sexos odeiam as pessoas que fazem a opção pelo terceiro (homossexualismo), afinal, a cena de dois homens se beijando destroi familias e a falta de caráter não. E assim seguimos nessa guerra cada vez mais preconceituosa sem ao menos saber o porque ela começou.

No longa de 1998 de Tony Kaye, "A Outra História Americana", somos convidados a uma reflexão profunda sobre esse assunto que continua atual.

Derek Vinyard (Edward Norton) é o filho mais velho de uma família americana de classe alta, que teve quando jovem seu pai assassinado por negros enquanto ele lutava contra um incêndio no bairro deles, e isso foi o estopim para Derek se rebelar e colocar para fora toda sua ira contra as pessoas que - no que ele acredita - só causaram desajustes sociais roubando direitos de um país "justo e limpo" como o americano. Derek assim se torna um líder de uma gangue racista seguidora dos princípios neonazistas e que tem como objetivo livrar seu bairro de tais "parasitas", os negros e latinos que buscam um lugar para ter uma vida melhor mas acabam tirando a oportunidade de pessoas merecedoras como ele. Assim não demorou para Derek se tornar uma referência para jovens perdidos e excluídos de seu bairro que veem na sua pregação uma saída para a sua angústia e frustração.

O filme começa na cena que desencadeia toda a história sendo o divisor de águas na vida de Derek. Seu irmão Danny Vinyard (Edward Furlong, o eterno John Connor de Terminator 2), ouvindo seu irmão transar no quarto ao lado e com os gritos acaba acordando no meio da noite. Não sei com o que ele se sente mais incomodado, mas o fato é que ele deitado na cama e tentando dormir, acaba avistando e avisando a Derek que dois negros estão a roubar o carro dele. Derek sai correndo para fora com uma arma e absolutamente transtornado, mas sabendo exatamente o que ia fazer: matá-los.

Mas o filme não se trata a apologia ao nazismo, claro que não, o filme se foca na longa reabilitação de Derek. Pego pela polícia, preso e condenado, Derek se vê num "mundo" em que todos são iguais e todos estão sujeitos a violência, até mesmo os seus semelhantes. Após três anos na prisão, Derek percebe que em todos esses anos que defendeu essa ideologia só serviram para piorar sua vida, e que o ódio não tem razão de existir. Assim, Derek sai totalmente mudado, e disposto a recomeçar sua vida e a salvar seu irmão que trilha exatamente o mesmo caminho que ele, prestes a assumir o posto de líder na gangue neonazista da qual ele pertencia.

A narração é feita por Danny e o roteiro segue uma fórmula não-linear com "flashbacks", mas muito distante de confundir o espectador, tanto que os planos em preto e branco e em cores servem precisamente para separar o que é lembrança e tempo presente, e não só para isso, servindo como uma espécie de simbologia representando o passado sombrio que Derek tanto luta para esquecer.

Com uma bela fotografia e planos em câmera lenta que serviram pra aumentar a carga de dramaticidade da cena, como a fatídica cena da calçada e logo depois com a prisão, em que Derek sorri com a sensação de vitória mesmo sendo preso após matar dois negros. Talvez não há cena tão enfática como essa para traduzir essa guerra silenciosa: a vitória. Tudo se resume a isso.

O sorriso da vitória
Inegavelmente num filme tão profundo com um tema tão delicado, a exigência por uma grande e convincente atuação é natural. O narrador e irmão de Derek, Edward Furlong, apesar de passar uma aparência "chapada" por todo o longa, dosa muito bem sua atuação, e nos entrega uma atuação talentosa e que por ela é capaz de nos fazer facilmente entender sua verdade em cada sentimento. Mas é no grande Edward Norton que recaem os principais elogios. Desde o jovem e inocente Derek até o líder da gangue neonazista da qual ele se tornou, Edward traduz perfeitamente a intensidade e sensibilidade por trás de cada momento, e não são poucas as vezes que nos impressionamos por isso.

"A Outra História Americana" é grandioso em sua proposta de nos mostrar como o racismo nasce e como ele invade a vida das pessoas, tornando-as cegas, insensíveis e propensas a violência. Filmes contra o preconceito tem vários, mas Tony Kaye assumiu essa missão com maestria retratando fortemente a ascenção da violência por causa da xenofobia, conseguindo comover e sensibilizar o público em um assunto que deve ser refletido diariamente, inclusive mostrando o poder da influência que as pessoas que amamos tem sobre nós. E como um país que se julga "a terra da oportunidade", tem ainda tão arraigada em sua cultura um preconceito extremamente hipócrita e violento em que resta só a reflexão de cada um para mudar isso.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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