Resenha Série: True Detective (1ª Temporada)

sábado, agosto 16, 2014

Menos é sempre mais.

Não vou falar do enredo da primeira temporada de True Detective, afinal, até pelo título e a trama recorrer a formação clássica de uma dupla de detetives, torna desnecessário o trabalho de expor uma sinopse. Contudo, essa exploração desses clichês policias apoiados numa trama suficientemente forte e original, fundamenta o grande trunfo da série.

Tendo três épocas distintas de narrativa, em 1985, em 2002 após a briga resultando na dissolução da dupla, e 10 anos depois em 2012 para a conclusão da investigação de algo muito maior que nenhum dos dois imaginavam a quase 20 anos atrás, o telespectador nas mãos de Nic Pizzolato é apresentado a uma narrativa forte e densa onde ele próprio sabe o que vai acontecer a cada desfecho da trama resumido na luta simples entre a luz e a escuridão.

A série começa logo no interrogatório da dupla, em 2012, onde os detetives Martin Hart e Rust Cohle são interrogados sobre os desfechos da investigação que corria alheia a polícia de Louisiana e da causa dos dois terem rompido a parceria dez anos antes. Consequentemente somos apresentados através dos depoimentos, à investigação que resultou na descoberta de uma seita ritualística em 1985 resultando na morte brutal de dois suspeitos.

O foco em três pólos narrativos dá alicerces suficientes a Pizzolato para explorar brilhantemente a curiosidade do telespectador e manejar a história para si apresentando somente o que ele queria mostrar. Ao mesmo tempo em que através da forte narrativa usando o artifício das lembranças, em um gênero policial que por si só é imutável e cheio de clichês, numa exploração quase que pessoal através da profissão de detetive.

Pizzolato dá força a sua narrativa usando principalmente três pontos para fundamentar sua história a quem assiste: os crimes brutais, a violência a mulher e principalmente as crianças, e os objetos e adereços encontrados por toda a investigação denotando uma seita. A sensação ao assistir a série é de estranheza e choque. Ficamos em dúvida dizendo a nós mesmos: o que é isso? Deixando impossível não ter o contato quase que pessoal diante a trama.

Logo no início da divulgação de True Detective uma frase chama a atenção: "o homem é a mais cruel das criaturas".

Acompanhamos Martin "Marty" Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey), na formação típica da dupla de detetives que se contrapõem entre si. Marty é o detetive mais comum, aquele que trabalha durante horas para no final do dia comer sua cota de rosquinhas, usa sua religião como pilar moral, e ao chegar em casa vive um casamento rotineiro com duas filhas. Mas é em cima de Rust que se constrói o principal pilar da trama. Misterioso e niilista, Rust tem uma visão extremamente racional de mundo, com problemas com álcool e drogas, e de maneira lacunar, revela-se um homem que sofre até hoje pelo acidente fatal da sua filha e pela dissolução de seu casamento.

Marty, sempre deu prioridade aos próprios prazeres carnais como se ele como homem e chefe da casa, merecesse somente isso após um dia duro de trabalho, causando a insatisfação da sua esposa Maggie. Sendo assim, Marty "pula a cerca" com casos extra-conjugais, cercados por ciumes e violência por causa da bebida, o que inevitavelmente destruiu seu casamento. Já Rust, não expõe de forma clara, mas dado a seus problemas com álcool e drogas, é possível que ele mesmo tenha destruído também sua família. Fato que dói a ele mesmo, em seu orgulho, admitir aos outros.

A seita e os crimes brutais causadas por ela, no estado de Lousiana e em Carcosa, lugar de adoração em que residem mortos sacrificados com a figura central de troncos de árvores com caveiras humanas e manto amarelo, causam um choque, é a realidade. H. P. Lovecraft é conhecido por suas histórias marcadas pelo mistério, terror e sombras, mas que principalmente expunham o próprio homem como seu maior inimigo numa explicação sobrenatural inexistente a não ser pela própria natureza humana. Essa é a realidade.

Ao final de um labirinto onde se encontra o mal, residido no homem. Homens contra homens. Rust com a arma em punho olha para cima e vê um céu estrelado, a luz e a escuridão. A dupla ferida gravemente pega o molestador (ou seja o que for) revelando uma rede de pedófilos. No hospital Rust diz a Marty que ele não deveria estar ali. De primeira e é fato, a investigação não terminou e ele deveria ser capaz de tomar a parte de tudo isso. Marty diz que o que importa é que o molestador foi morto e apesar da dimensão muito maior que a investigação revelou, não ia se conseguir pegar todos. A justiça humana é falha, mas omite. Billy Lee Tuttle, senador, foi descoberto como envolvido. Porém, a política o protege. E ao ver o desfecho no jornal, Rust na cama do hospital se indigna e ali vemos de uma vez por todas que seu senso de justiça sempre será maior que sua concepção e compreensão sobre a hipocrisia humana.

Rust Cohle ao sair do hospital, pela primeira vez revela a Marty o porque que ele não deveria estar ali, e se abre pela primeira vez a Marty e ao público encarando seus dogmas pela primeira vez. Marty, que faz parte do romantismo investigativo, diz olhar para céu estrelado e vislumbrar que no final das contas, a escuridão é sempre maior que a luz, uma das lições da série quando diz que o homem é a mais cruel das criaturas. No final em que tudo acaba bem, vencer a escuridão é a maior luta de todas e resume tudo o que aconteceu na trama. Assim Rust, numa visão otimista, diz crer que a luz há muito da escuridão.

É uma série em que é preciso assistir ao invés de tentar saber através de alguém sobre o que se trata, ligada a uma visão muito particular do espectador. Isso sem contar o fato de (mais uma vez) atores consagrados no cinema como Matthew McConaughey (revelado um exímio ator) e Woody Harrelson e do próprio Nic Pizzolato como diretor, buscarem na TV um espaço criativo e liberdade que o cinema no momento, é incapaz de produzir.

Acreditando no seu próprio padrão de qualidade, a HBO, famosa por temporadas curtas e série que fogem do padrão comum, teve em True Detective o sucesso absoluto em não ser o mais do mesmo, e de ter mais uma vez alcançado um padrão de qualidade e narrativa muito própria se diferenciando de qualquer outro caso de extremo sucesso como foi Breaking Bad por exemplo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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