Resenha Série: True Detective (1ª Temporada)

Menos é sempre mais.

Não vou falar do enredo da primeira temporada de True Detective, afinal, até pelo título e a trama recorrer a formação clássica de uma dupla de detetives, torna desnecessário o trabalho de expor uma sinopse. Contudo, essa exploração desses clichês policias apoiados numa trama suficientemente forte e original, fundamenta o grande trunfo da série.

Tendo três épocas distintas de narrativa, em 1985, em 2002 após a briga resultando na dissolução da dupla, e 10 anos depois em 2012 para a conclusão da investigação de algo muito maior que nenhum dos dois imaginavam a quase 20 anos atrás, o telespectador nas mãos de Nic Pizzolato é apresentado a uma narrativa forte e densa onde ele próprio sabe o que vai acontecer a cada desfecho da trama resumido na luta simples entre a luz e a escuridão.

A série começa logo no interrogatório da dupla, em 2012, onde os detetives Martin Hart e Rust Cohle são interrogados sobre os desfechos da investigação que corria alheia a polícia de Louisiana e da causa dos dois terem rompido a parceria dez anos antes. Consequentemente somos apresentados através dos depoimentos, à investigação que resultou na descoberta de uma seita ritualística em 1985 resultando na morte brutal de dois suspeitos.

O foco em três pólos narrativos dá alicerces suficientes a Pizzolato para explorar brilhantemente a curiosidade do telespectador e manejar a história para si apresentando somente o que ele queria mostrar. Ao mesmo tempo em que através da forte narrativa usando o artifício das lembranças, em um gênero policial que por si só é imutável e cheio de clichês, numa exploração quase que pessoal através da profissão de detetive.

Pizzolato dá força a sua narrativa usando principalmente três pontos para fundamentar sua história a quem assiste: os crimes brutais, a violência a mulher e principalmente as crianças, e os objetos e adereços encontrados por toda a investigação denotando uma seita. A sensação ao assistir a série é de estranheza e choque. Ficamos em dúvida dizendo a nós mesmos: o que é isso? Deixando impossível não ter o contato quase que pessoal diante a trama.

Logo no início da divulgação de True Detective uma frase chama a atenção: "o homem é a mais cruel das criaturas".

Acompanhamos Martin "Marty" Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey), na formação típica da dupla de detetives que se contrapõem entre si. Marty é o detetive mais comum, aquele que trabalha durante horas para no final do dia comer sua cota de rosquinhas, usa sua religião como pilar moral, e ao chegar em casa vive um casamento rotineiro com duas filhas. Mas é em cima de Rust que se constrói o principal pilar da trama. Misterioso e niilista, Rust tem uma visão extremamente racional de mundo, com problemas com álcool e drogas, e de maneira lacunar, revela-se um homem que sofre até hoje pelo acidente fatal da sua filha e pela dissolução de seu casamento.

Marty, sempre deu prioridade aos próprios prazeres carnais como se ele como homem e chefe da casa, merecesse somente isso após um dia duro de trabalho, causando a insatisfação da sua esposa Maggie. Sendo assim, Marty "pula a cerca" com casos extra-conjugais, cercados por ciumes e violência por causa da bebida, o que inevitavelmente destruiu seu casamento. Já Rust, não expõe de forma clara, mas dado a seus problemas com álcool e drogas, é possível que ele mesmo tenha destruído também sua família. Fato que dói a ele mesmo, em seu orgulho, admitir aos outros.

A seita e os crimes brutais causadas por ela, no estado de Lousiana e em Carcosa, lugar de adoração em que residem mortos sacrificados com a figura central de troncos de árvores com caveiras humanas e manto amarelo, causam um choque, é a realidade. H. P. Lovecraft é conhecido por suas histórias marcadas pelo mistério, terror e sombras, mas que principalmente expunham o próprio homem como seu maior inimigo numa explicação sobrenatural inexistente a não ser pela própria natureza humana. Essa é a realidade.

Ao final de um labirinto onde se encontra o mal, residido no homem. Homens contra homens. Rust com a arma em punho olha para cima e vê um céu estrelado, a luz e a escuridão. A dupla ferida gravemente pega o molestador (ou seja o que for) revelando uma rede de pedófilos. No hospital Rust diz a Marty que ele não deveria estar ali. De primeira e é fato, a investigação não terminou e ele deveria ser capaz de tomar a parte de tudo isso. Marty diz que o que importa é que o molestador foi morto e apesar da dimensão muito maior que a investigação revelou, não ia se conseguir pegar todos. A justiça humana é falha, mas omite. Billy Lee Tuttle, senador, foi descoberto como envolvido. Porém, a política o protege. E ao ver o desfecho no jornal, Rust na cama do hospital se indigna e ali vemos de uma vez por todas que seu senso de justiça sempre será maior que sua concepção e compreensão sobre a hipocrisia humana.

Rust Cohle ao sair do hospital, pela primeira vez revela a Marty o porque que ele não deveria estar ali, e se abre pela primeira vez a Marty e ao público encarando seus dogmas pela primeira vez. Marty, que faz parte do romantismo investigativo, diz olhar para céu estrelado e vislumbrar que no final das contas, a escuridão é sempre maior que a luz, uma das lições da série quando diz que o homem é a mais cruel das criaturas. No final em que tudo acaba bem, vencer a escuridão é a maior luta de todas e resume tudo o que aconteceu na trama. Assim Rust, numa visão otimista, diz crer que a luz há muito da escuridão.

É uma série em que é preciso assistir ao invés de tentar saber através de alguém sobre o que se trata, ligada a uma visão muito particular do espectador. Isso sem contar o fato de (mais uma vez) atores consagrados no cinema como Matthew McConaughey (revelado um exímio ator) e Woody Harrelson e do próprio Nic Pizzolato como diretor, buscarem na TV um espaço criativo e liberdade que o cinema no momento, é incapaz de produzir.

Acreditando no seu próprio padrão de qualidade, a HBO, famosa por temporadas curtas e série que fogem do padrão comum, teve em True Detective o sucesso absoluto em não ser o mais do mesmo, e de ter mais uma vez alcançado um padrão de qualidade e narrativa muito própria se diferenciando de qualquer outro caso de extremo sucesso como foi Breaking Bad por exemplo.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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