Resenha Livro: A Menina Que Roubava Livros (Markus Zusak)

quarta-feira, outubro 01, 2014

Em andanças pelo centro de São Paulo, acho que em 2009, eu vi esse livro em destaque numa daquelas banquinhas literárias. Eu lembro que era um dia de sol e eu lembro que na época estava desempregado. Eu lembro que na época ainda não era tão apegado a leitura, aliás desenvolvi esse apego tardiamente bem depois de ter terminado o ensino médio, comecei por curiosidade mesmo e por entretenimento, ao contrário do que penso que deveria ser o correto: um costume construído desde cedo. Enfim, naquele ano (não posso precisar) estava começando a ler uns livrinhos emprestados de um e de outro e aproveitei a oportunidade pra desenvolver minha pequena "biblioteca".

Como um best-seller da época e por um bom preço, resolvi comprá-lo. Uma coisa que não me dei conta na época é como o título do livro casa com aquele momento. Não, eu não roubava livros, mas "A Menina Que Roubava Livros" vai além desse título, ele se trata de palavras, de como elas tem importância na nossa vida para moldar um mundo que na realidade não vivemos. Isso é algo que você vai entender ao longo da resenha.

O nazismo hoje em dia é um tema tão recorrente quanto a importância das minhas calças, não é nada raro você ir a uma banca de jornal e dar de cara com uma revista ou derivado tratando do tema com o título: mistérios nunca revelados. Bom, cá entre nós que os nazismo por si só era uma organização tão nefasta que segredos sempre virão à tona e que o cabeça Hitler é uma figura tanto quanto enigmática quanto desprezível. Na literatura não faltam livros com esse tema, aliás um dos melhores livros que já li "O Fortim", tem essa época como pano de fundo; mas voltando ao assunto, o nazismo e o fato de Morte ser a narradora da história são grandes chamarizes a qualquer pessoa, e comigo não foi diferente.

O livro do australiano Markus Zusak é delicadamente direto ao ponto. Na Alemanha afligida pelo nazismo somos apresentados a Liesel Meminger, uma menina de uma família pobre, que foi deixada pela mãe sem condição para criar os filhos. Assim, sem família, Liesel e seu irmão foram levados para outros pais, só que muito em virtude da época que o país atravessava, eram igualmente pobres. No caminho para a casa dos Hubermann, Liesel e a Morte tiveram seu primeiro contato. foi quando seu irmão morreu ao seu lado. No seu enterro do único membro da sua família, o coveiro deixa cair um livro chamado "O Manual do Coveiro" e Liesel pega para ela. Assim começa a história da menina que roubava livros.

Os Humbermann eram bons pais e Liesel os admirava. A mãe adotiva, Rosa, se mostrava rabugenta, mas por trás de xingamentos e ofensas, era observadora e amorosa. Da mesma forma que Liesel, o sentimento do leitor começa na antipatia e termina no afeto, Rosa era uma boa mãe. Seu pai adotivo, Hans, era pintor desempregado que nas horas vagas tocava seu acordão para Liesel. Carinhoso e atencioso, Hans era um pai admirável, foi quem ensinou pacientemente Liesel a ler.

Para ser mais preciso nessa época não havia eclodido a Segunda Guerra Mundial, e Liesel passou por períodos que pode curtir sua breve infância. Fez amizade com as crianças vizinhas, criou um amor pelo atrevido e cativante Rudy Steiner ("que tal um beijo Saumensch?"), brincou de bola e se sujava com seus amigos na rua, foi à escola, e trabalhou auxiliando a mãe (forçadamente) a entregar as roupas lavadas e passadas as famílias ricas do bairro; única fonte de renda dos Hubermann na época.

Entre idas e vindas da vida, livros lidos e roubados, a iminência da Guerra sobrevoava as mentes de todos os habitantes da Alemanha e não era diferente na Rua Himmel. Liesel foi apresentada à dor da perda desde muito cedo, e infelizmente não foi só com a perda trágica do seu irmão. Liesel passa a ver a Guerra de prismas diferentes, lidar com a dor, tanto material quanto emocional.

Algo que ela pode sentir intensamente em relação ao judeu Max Vanderburg, amigo de Hans que o resolve esconder no próprio porão... Bom, leiam o livro para saber dele,.. É comovente. É aí que engata a história.

Encostado na minha estante por um longo tempo - muito por eu ter comprado e lido diversos livros durante esse tempo -, coube a minha atual namorada a tarefa de resgatá-lo de lá. Depois da leitura, entre sentimentos, amizade e dureza do nazismo contada mais uma vez, ela o me recomendou fortemente a fazer o mesmo, e cá estou eu aqui agora. Não sei se a falta de expectativas (isso claro, se deixar de lado toda empolgação dela) acabou por causar uma impressão tão boa e afetuosa com o livro. A história de Liesel Meminger, seus pais adotivos, seus amigos, sua paixão pela leitura e a tristeza do nazismo me cativaram como em poucas vezes pude sentir.

"A Menina Que Roubava Livros" não é um romance sobre o nazismo, isso é apenas um chamariz, é um romance sobre as palavras e a quantidade de poder que elas tem de mudar uma realidade. Hitler as usou para exaltar sua raça e oprimir um povo, Liesel as usou como refúgio. Lidando com a perda desde muito cedo, ela tinha em seu "Manual do Coveiro" a única relação com seu passado, e nos livros roubados em seguida, a única relação que verdadeiramente conseguia melhorar não só o seu poder de lidar com todo o sofrimento, mas algo que aplacava o sofrimento de seu pai e Max.

Após viver a história, se passa a entender perfeitamente a frase da contra-capa: "Quando a morte conta uma história você tem que parar pra ouvi-la". Não é um livro macabro, ledo engano quem comprou por isso. Mais do que a Liesel Meminger, a atenção daqui vai pra Dona Morte, esse livro é seu diário, Em seu trabalho árduo ela dizia: "Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Pra mim, a guerra é como aquele novo chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: “Apronte logo isso, apronte logo isso.” E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Pede mais.”

Contado com ternura e suavidade, entre pequenas alegrias e grandes tristezas, utilizando da forma mais tocante as agruras da Guerra, temos uma história contada sem ordem definida. Antes o final sabemos quem vai morrer. Sem flashbacks aparentes, a narração passa a forma exata de que essas são as tristes lembranças da Dona Morte. No inicio de um capítulo intitulado “Diário da Morte: 1942” ela disse: “Foi um ano para ficar na história, como 79 ou 1346, para citar apenas alguns. Esqueça a foice, diabos, eu precisava era de uma vassoura ou um rodo. Eu precisava de férias.”. 

Impecável, Markus Zusak soube mexer com os sentimentos mais profundos do leitor, e suficientemente para que esse leitor tenha esse livro com o mesmo carinho que Liesel tinha com os seus. Usando os chamarizes mais tradicionais e até desgastados à segunda vista, Zusak com esse romance belíssimo me fez esquecer tudo isso e refletir no que realmente nos importa. Em suma, sermos felizes com pouco,

PS: Acho lamentável alterarem capas de livros por jogada de marketing. Com o lançamento de seu filme, uma nova tiragem do romance naturalmente é lançada às livrarias, no entanto, a nova tiragem altera a capa original do livro pelo poster do longa baseado nele. Ok, que relacionar um com o outro é importantíssimo, principalmente para quem se interessou pelo livro graças ao filme. Comunicação visual é tudo. Mas a capa original é belíssima e representa exatamente o que o livro representa, então o mesmo acaba perdendo um pouco de sua essência sem a capa que originalmente trazia. Funciona como um conjunto. Sobre isso, acho que uma solução inteligente seriam aquelas capas removíveis, saca? Então seria da simples escolha do leitor ficar com a capa original ou com a atual, não prejudicaria ninguém. Dica pra Intrínseca e para outras editoras!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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