Resenha CD: Foo Fighters - Sonic Highways

segunda-feira, novembro 17, 2014

Dave Grohl, ao contrário de muitos, não ficou vivendo às custas das sombras de sua ex-banda, o Nirvana - aliás, quem lembra efetivamente que ele foi o ex-baterista do Nirvana?. Dave foi lá, deu a cara a bater e construiu sua carreira e sua história. Tanto que hoje ele é mais reconhecido como líder do Foo Fighters do que o quarto baterista na preferência de Kurt Cobain.

Mais do que isso, Dave é um atual expoente do rock n' roll, do bom e velho faça você mesmo e do bom e velho som de garagem. Nesses tempos que a gente conta nos dedos as boas bandas de rock radiofônicas, principalmente americanas, Dave e o Foo Fighters são realmente exceções, não só em carisma e talento, mas em pregar a diminuição de todas as "maquiagens" feitas na música, de reality shows e auto-tunes, que muitas vezes renegam o próprio talento a segundo plano diminuindo brutalmente a qualidade musical apresentada nas rádios em favor do lucro. E ele tem razão, o rock de raíz em si vem sofrendo nos EUA.

O excelente "Wasting Light" lançado em 2011 deu aquele empurrãozinho final na carreira da banda. Gravado na garagem de Dave e sem frescuras, como maquiagens sonoras que deixam o som mais cristalino e que corrigem certos defeitinhos que possam surgir. A música não é isso, é talento. "Wasting Light" foi aquele bom e velho rock n' roll verdadeiro e esquecido, com qualidade altíssima de execução. Mas apesar de tudo, senti que faltava algo a mais que não sabia o que era.

No dia 10 desse mês finalmente saiu o aguardadíssimo "Sonic Highways" após muitos conta-gotas de faixas pipocando na net, e com ele, trouxe um documentário do mesmo nome veiculado pelo canal HBO, onde a banda elegeria oito faixas e para cada uma delas a banda passaria por uma cidade dos EUA (Austin, Chicago, Los Angeles, Nashville, Nova Orleans, Nova Iorque, Seattle e Washington) absorvendo as suas influências musicais próprias afim de tornar o álbum diverso e conceitual. Logo, "Sonic Highways" convenientemente seria como "rodovias sônicas", traduzindo de forma livre.

O resultado de todo esse ambicioso projeto? Diria que foi muito bom, mas com ressalvas. A ideia foi boa, mas a execução falhou em alguns momentos. Um ecletismo que se assemelha um pouco a "Echoes, Patience, Silence & Grace" de 2007.

"Sonic Highways" tem oito faixas e é o oitavo disco da banda, e como disse, cada uma delas foi como uma tradução de cada uma das oito cidades americanas que a banda passou (quanto número oito!). Se você espera hits na pegada de "My Hero", "Everlong", "The Pretender" e etc, somente a segunda (e destoante) faixa "The Feast and The Famine" pode satisfazer a ouvidos mais simplistas; no mais vi um Foo Fighters que amadureceu e que absorveu dignamente toda a viagem musical que se propôs. O single "Something From Nothing" é do jeito que gosto, balanceada e divertida do jeito certo, inovando sem deixar o estilo Foo Fighters de ser - acho que nela está presente o único momento que ouvi Dave berrar.

Com altos e baixos, agitado no começo e mais melancólico no final, o conceito pregado de "Sonic Highways" aparece mais fortemente nas maravilhosa "Congregation" com aquele sabor de Nashville, e na "What Did To You?/God as My Withness" que faz brilhar os olhos. "Outside" com um raro destaque ao baixo é outro bom momento, juntamente com a mediana e grudenta rock n'roll "In The Clear" que promete fazer a alegria das rádios. Diria que os pontos baixos ficam para as duas faixas finais do álbum: a chata "Subterranean" e a balada comovente "I Am The River" que pecam na duração e até na pegada. Com quase sete minutos cada uma, na minha opinião as duas talvez com dois minutos a menos funcionariam melhor.

A "megalomania" de um álbum super-produzido e conceitual vir com um documentário ainda na sua cola, vai contra tudo aquilo que acostumamos em ver com o Foo Fighters ao longo dos anos, tanto em som como em conceito. Mas após muitos berros e peso que consagraram um estilo Foo Fighters de ser, o que me parece ao ouvir "Sonic Highways" é que a banda sabia muito bem que já tinha um estilo que todos sabiam qual eram e daí resolveu arriscar, seguir além. O alternativo deu lugar aos anos 70 e a guitarras mais animalescas deram lugar a um som mais trabalhado. "Wasting Light" já foi por esse caminho, mas levemente, afinal era um registro mais cru e orgânico se assemelhando ao passado recente da banda. Em "Sonic Highways", que traz o som que se renovou com as três guitarras da formação, seguiu por outro caminho: o da serenidade e aprendizado. Coisas que a estrada trouxeram.

"Sonic Highways" não te conquistará na primeira audição com toda certeza, o álbum num todo é melancólico e com uma calmaria muito maior do que estamos acostumados a ouvir da banda, e não seria exagero dizer que ele entrega menos do que eu esperava ouvir dado a tanta expectativa que se criou. Contudo, as críticas de "Sonic Highways" cabem mais a uma "chatice" maior. Curtindo o álbum de forma mais descompromissada e livre, temos um saldo final positivo que atesta aquilo que eu e você achamos: que o Foo Fighters é uma das maiores bandas de rock na última década.  

Tracklist:

1. "Something from Nothing" 4:49
2. "The Feast and the Famine" 3:50
3. "Congregation" 5:12
4. "What Did I Do?/God as My Witness" 5:44
5. "Outside" 5:15
6. "In the Clear" 4:04
7. "Subterranean" 6:08
8. "I Am a River" 7:09

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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