Resenha Game: The Last of Us (Playstation 3)

Lembram-se da Naughty Dog, aquele mesmo "cachorro safado" que iluminou nossa infância com a divertidíssima trilogia "Crash Bandicoot" no Playstation 1? Pois é, atualmente essa empresa, uma das raríssimas que ainda tem fidelidade com somente uma publisher (Sony), tem somente a trilogia "Uncharted" e "The Last of Us" exclusivos para o Playstation 3, mas foram o suficiente para marcarem minha vida e mostrarem que nada supera a dupla: boa história e jogabilidade.

As histórias de apocalipses se dão basicamente pela mutação de um vírus que é capaz de alterar brutalmente a consciência de um infectado. No caso do apocalipse zumbi de "The Last of Us", esse é causado pela mutação do fungo Cordyceps, mas antes de continuar a história, é preciso que você entenda que aí é que se nota o primeiro cuidado dos roteiristas em fazer uma história crível.

Explicando o Cordyceps

O fungo realmente existe, mas calma, ele não é capaz de atingir os humanos (ainda). Ele é capaz de atacar cerca de centenas de espécies de insetos e é capaz de alterar brutalmente o comportamento dos mesmos. Quando a vítima é invadida, geralmente os tecidos delas são substituídos, mas em outros casos ocorre o que chamamos de "zumbificação", fazendo os insetos sentirem uma vontade incontrolável de procurarem alguma planta para subir e morrer. Isso acontece para que o fungo tenha um ambiente propício de proliferação com condições ideais de temperatura e umidade, fazendo com que a quantidade de esporos que "brotam" do inseto morto seja maior, um poder que é capaz de infectar um formigueiro inteiro. 

Curiosamente esse cogumelo é usado medicinalmente pelo povo tibetano, e provavelmente o pessoal da Naughty Dog tenha se inspirado nele pra moldar o apocalipse do jogo. Afinal, se esse fungo sofre uma mutação e atinge os humanos... Vixe. 

Bom, antes que você corra para as colinas, é muito importante que você jogue "The Last of Us", então vamos a sua história:

Sinopse

Após toda a confusão da contaminação, a história de Joel se passa numa zona de quarentena em Boston, vinte anos após o ocorrido. Joel é um traficante e contrabandista (profissão que convenhamos é a mais lucrativa nesse lance de apocalipse) e cabe a ele transportar armas do mercado negro para dentro da zona de quarentena. Em uma de suas missões, Joel e Tess tem suas mercadorias roubadas por Marlene, lider dos grupo de rebeldes Vaga-Lumes. Como condição para Joel e Tess recuperarem toda sua mercadoria, Marlene impõe que eles levem a adolescente Ellie para o prédio do congresso na capital. Ellie é uma esperta adolescente de apenas 14 anos que não sabe como foi o mundo antes do apocalipse, e apesar da mordida no seu braço, não sofreu a transformação. O lance é que ela aparentemente tem uma mutação que impediu a propagação do fungo em seu corpo, e acabou se transformou em esperança para uma cura.

Jogabilidade

"The Last of Us" tem uma mecânica já vista em outros jogos, sendo muito parecida com o que vimos em "Uncharted", Joel tem diversas armas a disposição como revólveres, pistolas, espingardas e flechas; e naturalmente tem as que são de corpo-a-corpo, como tacos de beisebol, pés de cabra, machados e marretas, e cada uma delas com sua quantidade específicas de golpes antes de precisar ser descartada. Pelo cenário são encontrados diversos itens de sobrevivência como fitas, gaze, pó de açúcar, pólvora e tesouras que auxiliam na criação de outros itens, como os de cura, coquetéis molotov e bombas de fumaça ou pregos. Tudo é confeccionável, tesouras dão um toque mais brutal aos tacos de beisebol aumentando sua capacidade de combate.

O combate corpo-a-corpo nunca é uma opção, principalmente contra os humanos e os "clickers", e esse último merece uma explicação especial. Lembra do fungo Cordyceps? Mesmo após de seu ápice, o fungo continua crescendo dentro do hospedeiro, causando deformações na cabeça e muitas vezes no corpo inteiro do inseto. E como esse jogo é pautado nele, a contaminação segue exatamente o processo que o Cordyceps real atinge, 

Os "clickers" são os seres que foram contaminados a mais tempo, logo, o fungo atingiu as proporções de deformação na área da cabeça. Eles não tem a visão, somente a audição, então o stealth do jogo nesses momentos tem sua parte mais fundamental. Para você atrair a atenção deles, você tem a disposição tijolos e garrafas que ajudam bastante nas horas mais tensas do jogo. Como na parte do metrô quando você é obrigado a passar por uma dezena deles sem ser percebido. A única possibilidade de matá-los é com um tiro na cabeça e uma faca, mas lembrando que a munição é escassa e provavelmente não valha a pena tentar tal façanha. Tanto que até a faca é produzida artesenalmente com um pedaço de tesoura e uma silver-tape.

Já se tratando dos humanos, claro que você pode partir para o confronto direto, mas não recomendo. Não só porque a munição é escassa e você precisa valorizar da forma correta cada item que você carrega, mas ainda sim é uma opção. O jogo não foi vendido como um survival horror, mas se comporta como um em inúmeros momentos, então é importante ser cuidadoso nos seus passos pois muitas surpresas ocorrerão. "The Last of Us" felizmente dá ao jogador a liberdade de agir como melhor lhe convém.

Como um bom humano nessa situação, é preciso ser cuidadoso em cada passo nesse nesse jogo e nessa época de "heróis" capazes de fugir de balas, isso é muito bem vindo. Joel é um sobrevivente, e como um simples pai de família que nesses últimos vinte anos foi obrigado a literalmente "se virar" pra se defender dos perigos. Muitos criticaram a imprecisão da mira de Joel, mas é justamente isso que ajuda a tornar o personagem mais crível, afinal, ele é um cara comum como eu e você, não o Nathan Drake da vida né? O que chega a ser frustrante em muitos momentos, ele acaba por ser totalmente compreensível. A mira de Joel e o poder de velocidade de cura e a polêmica audição de raio-x, podem ser aprimorados com pílulas que são encontradas no cenário e auxiliam bastante na jornada, então vasculhe bastante o cenário. A ação mais furtiva é a que escolhi, pois quanto mais "The Last of Us" aperta, mais você é obrigado a deixar os seus tiros em segundo plano. O silêncio é a melhor estratégia.

Outro ponto que o lado real toca diretamente, diferindo "The Last of Us" de um lado de ação que poderia ter ou mesmo de outros jogos de sobrevivência que se assemelham a mecânica do jogo, são nos usos de itens de cura e trocas de armas são feitas em meio aos combates. Com a dose de realidade necessária, Joel enrola gaze em seu braço para aumentar sua vitalidade e coloca sua mochila no chão na hora de trocar as armas, o que só reforça esse instinto de sobrevivência que temos que ter. Rapidez e esperteza são fundamentais em "The Last of Us".

A singeleza de The Last of Us

O brilho de "The Last of Us" é sua narração extremamente dramática e carregada de emoção e envolvimento, fazendo muito filme de Hollywood ficar no chinelo e até seu mesmo seu "primo" próximo The Walking Dead ficar bem para trás nesse quesito. Detalhes são marcantes, e implicitamente, são eles que nos chamam a atenção suficientemente para lembramos deles por um, cinco, até dez anos. Um dos vários detalhes cuidadosos se escondem nos gráficos. A ambientação do jogo é perfeita, e tão quanto ela claramente se inspira em outros cenários pós-apocalípticos como "Eu Sou a Lenda" ou "The Walking Dead", ela conseguiu se tornar singular e capaz de transmitir a sensação de calmaria e perigo a cada momento da história.

Construções abandonadas, e casas em ruínas mostram um mundo que antes de tudo acontecer, vivia ali e sofreu ali as consequências do terror que aconteceu. Os cenários pelas quais passamos, como universidades abandonadas, usinas hidroelétricas, esgotos e a própria natureza do lugar que toma conta da civilização que já tivemos, são ricamente detalhadas. Cada uma com uma personalidade e história bem peculiar, Parece que Joel em diálogos com Ellie, anda lentamente justamente para vislumbrar esse cenário belo que os cerca.

Esse sentimento comovente também está imerso logo na tela de press start, na janela ensolarada com a cortina balançando ao vento retratam perfeitamente o espírito do jogo. Ou na tela de loading logo após, que somente mostra os esporos viajando enquanto o longo carregamento inicial do jogo acontece.


Algo que a trilha sonora singela e marcante só reforça:


O forte de "The Last of Us" é sua construção do mundo pós-apocalítico e como Joel foi obrigado a se render as práticas mais selvagens com o intuito da sobrevivência, como Ellie cresceu em um mundo assim e estranha como os seres humanos antes do apocalipse eram tão... fúteis. Em um diálogo que chama a atenção Ellie entra no quarto de uma adolescente como ela e nota diversas roupas, perfumes e revistas de fofoca que estavam ali e pergunta: "porque elas precisavam dessas coisas?". Um pouco de reflexão revela a uma certa crítica a nossa sociedade moderna. Aliás esse mundo pré-apocalítico, reduzido a sobrevivência e poucos momentos de entretenimento e relações, propiciam a valorização extrema dos mesmos. É só ver a alegria da Ellie em ver e acariciar uma girafa caminhando numa das partes mais belas do enredo e de todos os cenários. O mundo acabou, mas você realmente viverá a melancolia desse final. 

Os tais colecionáveis que muitas vezes passam desapercebidos e ignorados, aqui ganharam um tom de valor e sentido. Cada caderno de anotação, gravadores, recortes de jornal só dão enriquecem a experiência do jogador, dando informações e transportando o medo e a dor de cada um das pessoas que o fizeram. Deixando tudo mais autêntico e verdadeiro e ajudando a contar um pouco do caos que aconteceu a vinte anos atrás. O que normalmente muito pouco faz diferença ao enredo, aqui o torna mais rico.

Família

Falando em personalidade, o jeitão ríspido e amargurado de Joel e o jeitão carismático e esperto de Ellie são dignos dos mais belos roteiros cinematográficos. Em cada passo que damos em "The Last of Us", o relacionamento de Joel e Ellie floresce e amadurece; e a cada passo que eles dão em meio a breve calmaria entre um perigo e outro, brotam breves conversas e até brincadeiras, dando um sentimento de apreço familiar que Joel e Ellie, por motivos diferentes, não tem. Sempre cantarolando e (tentando) assobiar, Ellie dá uma visão otimista do mundo tao melancólico que vimos no jogo, dando a Joel um sentimento de apreço e um carinho real que ele não tinha a muito tempo, revivendo a chama da humanidade que ele ainda carrega mesmo a um tempo tão cruel que ele viveu e vive.

Como Elizabeth no jogo "Bioshock Infinite", Ellie tem sua personalidade própria e ela não mede esforços em ajudar Joel nas mais perigosas situações. Oras, nos tempos passados de fases com coadjuvantes quase inexistentes que só atrapalham o andamento da fase, era um sonho ver Ellies e Elizabetes realmente nos ajudando nas situações difíceis e até tendo suas partes próprias no enredo, e isso ocorre com "The Last of Us" em uma das partes mais carregadas de stealth quando apenas uma faca é a garantia de sobrevivência de Ellie. A única coisa que estranhei é quando Ellie e Joel estão em modo stealth combatendo os "clickers", onde inúmeras vezes, enquanto estamos tomando todo cuidado do mundo pra não chamar atenção deles, Ellie passa na frente dos inimigos completamente desapercebida.

O jogo definitivo dessa geração

Contamos nos dedos os jogos que marcaram nossas vidas, um número menor nessa geração tridimensional, tanto que a minha geração que tem lá seus quase 30 anos, lembra até mais saudosamente aquela época 16 e 32 bits de seus Mario's, Sonic's e Resident Evil's do que jogos da geração atual. Com o poder gráfico cada vez maior dos consoles, deixando a realidade cada vez mais próxima em nossas vistas de portas HDMI e Full HD, o que se pode fazer é aprimorar; e quem chama a atenção do exigente mercado é quem alia o sabor da "invenção" juntamente com a narrativa cada vez mais cinematográfica que vemos nos consoles atuais.

Apesar da simples história de "The Last of Us" e da jogabilidade que se baseou bastante em outros jogos, o jogo prova que nada supera o ato de contar boas histórias e bem. O segredo é que tudo aqui é primorosamente bem executado, não dando vazão a ínfimas críticas que possam surgir de nós mesmos ao game.

As mais de 14 horas de campanha se tornaram uma experiência valiosíssima para mim, comecei esse jogo emprestado de um colega de um amigo meu e fiz questão de comprá-lo para terminar o que comecei. Cada machadada e paulada, cada sangue jorrado na tela, cada impacto do esforço de Joel em nocautear um inimigo, cada tiro e desmembramento que o jogo mostra (e isso é lindo) valeram a pena pra mim. E nesse tempo em que joguei "The Last of Us" me senti como parte de Joel e Ellie, acordando para ver o que me esperava, 

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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