Resenha Filme: Festa No Céu

terça-feira, janeiro 27, 2015

Lidar com a finitude inevitável da vida é um assunto delicado, mas é exercício de caráter passar a ter a visão de que a morte é nada mais que um combustível da vida. O fim de uma história é o que nos move a tentar escrevê-la da melhor forma. Religiões tem em seu principal alicerce a morte, afinal, se a vida deixar de ser finita, não temos porque acreditar em "um lugar melhor" (ou pior) para nós mesmos e nossos entes queridos. Para muitos a morte é um descanso, para outros uma porta de entrada para outra vida.

Ter animações lidando com esse assunto delicado é algo raríssimo. "Up" da Pixar é o único que me vem a mente, e como ele, "Festa No Céu" produzido por Guillermo Del Toro tem a mesma sabedoria e delicadeza em tratar o assunto como ele realmente merece. Acredito que a morte seja uma celebração da vida e o título original que é "Book of Life" traduz melhor essa ideia.

"Festa no Céu" começa quando um grupo de crianças bagunceiras é encaminhado a uma visita ao museu como “punição” pelo mau comportamento. Lá, uma guia um tanto quanto diferente, resolve percorrer um caminho alternativo e os apresenta ao “Livro da Vida“. A mais simbólica das histórias contidas no livro é baseada nas tradições mexicanas e envolve três mundos: o Mundo dos Vivos, o Mundo dos Lembrados e o Mundo dos Esquecidos.

Catrina/La Muerte é governante da Terra dos Lembrados, uma adorada deusa ancestral ex-mulher de Xibalba, este que é governante da Terra dos Esquecidos - bastante semelhante ao gênio de Ades nas animações de Hércules vale pontuar. Em uma visita a Terra dos Vivos eles fazem uma aposta, se a jovem e bela Maria casará com com o emotivo violinista Manolo ou com o corajoso e arrogante Joaquim. Se Catrina ganhar, Xibalba não poderá mais interferir no mundo dos vivos. Se Xibalba ganhasse, ele seria o novo governante da Terra dos Lembrados e Catrina governaria a fria Terra dos Esquecidos.

Não é de hoje que cultura mexicana desperta a curiosidade de todos. Tanto a gastronomia deliciosamente apimentada, a música tradicional tocada pelos mariachis vestidos com famosos sombreros, a "Lucha Libre" que inspirou até desenho na Cartoon Network. Mas talvez o que exprima melhor o tratamento do povo a morte sejam as famosas caveiras altamente estilizadas, não tem que olhe e não veja beleza naquilo. Se você ama elas, aqui você terá motivos pra cuspir arco-íris.

Além de tudo ser muito colorido aqui, o estilo dos bonecos é lindo, parecendo que todos foram talhados em madeira e à mão com todo carinho, só reforçando a ideia de uma história contada a nós; como a guia do museu deixa claro entre os flashbacks, segurando os bonequinhos representando os personagens. Creio que "Festa no Céu" teve tanto cuidado em representar a rica cultura mexicana que inaugurou um estilo bem próprio de caracterização de personagens, incapaz de se desgrudar de si.

Um ponto que vale a pena citar e que é bem pessoal, é a dublagem. O que temos visto ultimamente são dublagens cada vez melhores, mas em "Festa No Céu" tivemos Thiago Lacerda encarregado de Joaquim e ele destoa de todos os outros na questão da qualidade da dublagem. Pode ser uma chatice minha, mas em muitos momentos eu percebia que ele não tinha "manha" nenhuma pra isso. Pena. Porque de resto é tudo perfeito.
O drama Shakesperiano levemente baseado em Romeu & Julieta que é "Festa No Céu", comove e cativa qualquer criança e adulto, pai e filho. A sensação que tive ao término do filme foi que além de uma excelente animação, foi de uma lição de vida e de alegria, principalmente para quem ainda não lidou com a perda de um ente querido ou de um grande amor. Aprendemos que o Dia dos Mortos é isso: uma celebração. Bem longe do que o Dia dos Finados representa aqui,

Del Toro sabia que faltava um grande trabalho da sua autoria para Hollywood ser capaz de mostrar mais a beleza cultural de seu país ao mundo. Tudo em "Festa No Céu" é extremamente colorido e vivo (o cenário 3D da Terra dos Mortos é de cair o queixo), mesmo quando a morte dá as caras. A dor e desamparo que o fim da vida pode trazer é coberto por um teor quase que inocente, dando conforto a um assunto tão delicado, e sem viradas, exageros ou lições de moral exagerados na trama. Resumindo, tudo aqui é muito leve e sensível como Manolo faria.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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