Pra que serve o Oscar?: O preconceito que gira em torno dos heróis


Quando eu disse no post "Pra Que Serve o Oscar?" de que a Hollywood está falida e que ela sofre de ausência crônica de criatividade, é um fato. Sao reboots, remakes, sequências... e na maioria dos casos, desnecessários, cansando e frustrando qualquer espectador, mesmo aquele que só procura diversão. Entretanto, quando citei ali os filmes de super-heróis, dias depois da postagem bateu o sentimento de que não me expressei corretamente sobre isso e que no final das contas acabei os colocando nesse mesmo bolo da tal "falta de criatividade" crônica que Hollywood sofre, além de acidentalmente o rotular como gênero, o que num olhar mais profundo é uma visão simplista e preconceituosa. E é exatamente a partir desse olhar mais profundo que falaremos e veremos o quão sintomática é a hipocrisia que o glamour do Oscar insiste eternamente em ostentar.

A festa do Oscar desse ano foi marcada não só pelos discursos politizados e pela duração longa (quase 3h30) e tediosa que fizeram o apresentador Neil Patrick Harris a pessoa mais sem graça do planeta, mas a questão é que lá tivemos várias apresentações satirizando os tais "filmes de super-heróis", principalmente na abertura com o musical com o próprio Neil Patrick, Jack Black e Will Farrel onde eles cantam uma música dando a entender que hoje "só é filme de super isso e super aquilo, homem isso e homem aquilo", e também aonde Dan Gilroy (roteirista premiado por "O Abutre") dizer que os participantes do Oscar "sobreviveram ao tsunami dos filmes de super-heróis".

Pode ter sido sarro, em tom de deboche, mas toda brincadeirinha tem seu fundo de verdade. Engraçado é que só para melhor ator e melhor ator coadjuvante que o Oscar adora paparicar, tivemos cinco de dez indicados que já trabalharam para filmes de super-heróis, além de tantos outros que subiram ao palco. Edward Norton foi o Hulk, Micheal Keaton foi o Batman, Mark Ruffalo foi o Hulk em "Os Vingadores" e Benedict Cumberbatch será o Doutor Estranho por exemplo.

O Oscar adora falar de si mesmo como o expoente da sétima arte, talvez teimando em viver os momentos de décadas atrás de quando os filmes ainda eram em preto e branco e os homens andavam de chapéu na rua -, mas o ponto é que os anos são outros e a indústria é outra, algo que a própria premiação teima em negar. Ele tem e terá um frisson todo ano capaz de nos fazer debater a justiça de sua premiação e de dar vitrine a filmes que não tão facilmente saberíamos que existem, porém, é crescente na mesma medida a insatisfação sobre as escolhas e o "mundo" que o Oscar cria em torno de si mesmo, e a mostra disso é que são crescentes os baixos índices de audiência da festa. E tal qual a hipocrisia da Meryl Streep que deixei claro na outra postagem, a entrega do prêmio de melhor filme para "Birdman" é uma mostra latente da hipocrisia que também cerca o Oscar, e talvez a anos.

Saca a reclamação dos jornalistas sobre premiação de melhor do mundo de que esse prêmio só vai para o futebol europeu, independentemente de quanto um jogador "coma a bola" enquanto estiver no Brasil? Tipo Romário ou Edmundo? Talvez esse mesmo exemplo se aplique ao Oscar. Oras bolas, é necessário fazer filme independente para ganhar premiação, como se isso fosse o expoente maior de criatividade e arte? Vejamos, "O Jogo da Imitação" e "A Teoria de Tudo" são adaptações de biografias e só são independentes porque os grandes estúdios se negaram a financiar, não por causa artística no melhor estilo comunista,

"Birdman - A Inesperada Virtude da Ignorância" (outro filme independente) é um filme protagonizado por Micheal Keaton (indicado como melhor ator) e dirigido por Alejandro González Iñarritu (vencedor como melhor diretor) aonde narra a história de um homem (Keaton) que por anos interpretou o Birdman, um personagem que se tornou um expoente cultural da época. No entanto, o personagem sofreu com o declínio de público, e Keaton desde então busca a fama perdida e luta através de reconhecimento com seu projeto de dirigir e roteirizar uma adaptação para ao Broadway. Bom, o lance do filme de Iñarritu aqui (e o que imagino que por isso ele ganhou o Oscar) foi a forma como ele foi filmado sequencialmente, sem cortes, e a sua crítica em metalinguagem sobre a indústria atual de Hollywood.

No post em que pergunto "Pra Que Serve o Oscar?" deixo claro que a premiação de "Birdman" como melhor filme é uma auto-crítica do Oscar. Oras, é um filme mostrando a possível decadência da indústria atual que sustenta o próprio Oscar e que é independente só porque grandes estúdios endinheirados se recusaram a financia-lo - soa até engraçado o círculo que se criou entre Hollywood e esse tipo de cinema. No entanto, partindo daí dá para fazer a segunda crítica e mais pertinente: se o Oscar premia a sétima arte, vulgo cinema, porque então os velhos entendidos de cinema insistem em considerar o que é cinema e não é? Se o filme é considerado blockbuster automaticamente não é cinema, vulgo "arte".

Iñarritu em seu discurso disse que "foi uma vitória dele e da sétima arte", e daí pergunto a ele: os diretores dos filmes de super-heróis não tem o mesmo ou maior amor pelo o que fazem do que ele diz ter? James Gunn foi muito feliz e preciso no discurso logo após o Oscar em seu perfil no Facebook:

"Qualquer que seja o caso, a verdade é que a produção popular, em qualquer meio, sempre foi esnobada pela autodenominada elite. Ganhei mais prêmios do que esperava por Guardiões. O que me incomoda um pouco é que muitas pessoas assumem que se você faz filmes grandes, você trabalha com menos amor, cuidado e atenção do que as pessoas que fazem filmes independentes ou que fazem o que são considerados filmes mais sérios em Hollywood.

Já fiz filmes B, filmes independentes, filmes para crianças, filmes de horror e espetáculos gigantescos. Há muitas pessoas por aí fazendo filmes por um dólar ou para alimentar o próprio ego. E há pessoas que fazem o que fazem pois amam contar histórias, amam o cinema e querem retribuir ao mundo um pouco da mágica que eles aprenderam com o trabalho de outros. Honestamente, eu não encontro uma diferença significante na porcentagem de pessoas com e sem integridade em qualquer desses campos do cinema.

Se você acha que as pessoas que fazem filmes de super-heróis são burras, saia e diga que somos burros. Mas se você, enquanto cineasta independente ou um cineasta 'sério', acha que tem mais amor pelos seus personagens do que os irmãos Russo pelo Capitão América, ou Joss Whedon pelo Hulk, ou eu por um guaxinim falante, você está simplesmente enganado".


Esse foi um verdadeiro "tapa na cara da sociedade" amigos!

Hollywood tem modas, a música tem, até a literatura através de seus best-sellers. Os filmes de ficção científica, os de terror, os policiais e os de aventura, tiveram suas épocas respectivas, e agora é a vez dos tais filmes de super-heróis e das adaptações de livros que são justamente os blockbusters que o Oscar teima em criticar, em outras palavras, os executivos buscam o que dá resultado e vivem por dar o que o público quer, e o que queremos é filmes de nossos heróis prediletos. É o que se discute! Na verdade penso que o Oscar devia deixar esse ar de superioridade de lado e dar valor a sua própria indústria e o que alimenta ela, em vez de horas e outras atores e diretores virem com a história de que "filmes de heróis são idiotas e para crianças",

Outra coisa é que é triste ver que filmes de super-heróis virarem um gênero, como o grunge também virou (que raios é grunge?) a décadas atrás. Quer dizer, temos filmes, e no caso do grunge bandas, bem diferentes umas das outras, mas que são insistentemente colocadas no mesmo saco por fazerem parte de um mesmo movimento num curto espaço de tempo. Não faz sentido.

"Capitão América 2" é um ótimo thriller de espionagem, "Guardiões da Galáxia" é uma divertida aventura espacial que não se via a anos, "Sin City" é um drama totalmente noir, "Thor" é um filme de fantasia, "Blade" tem seu lado terror, "Watchmen" é um drama com diversas críticas políticas, "Homem de Ferro" é um filme de ação, e o próprio "Homem-Aranha" é um filme de aventura. Entende o que quero dizer? Esses quadrinhos trouxeram suas histórias e roteiros de cunhos bem diferentes entre si para a tela do cinema enriquecendo a diversidade do mesmo, e em muitos casos errando tanto quanto outros filmes independentes erram. O lance é que a produção desses tipos de filmes só aumentou, porque a tecnologia para que eles sejam realizados aumentou também. Dizem que nos anos 80 o cinema era melhor e bla bla bla, mas nos anos 80 não tinha a tecnologia visual que temos hoje né zequinha?

Os personagens de ação e das aventuras espaciais ou não, apenas foram trocados para caras com fantasia, o que não significa de maneira nenhuma que o roteiro desse filme seja melhor ou pior do que muitos filmes independentes com atores trajados apenas com camisetas, viu seu Oscar coxinha? Mas felizmente existem diversas premiações por aí e que olham para o cinema com a pluralidade que ele e a sociedade merecem, então que bom que o mundo não gira através daquela festa.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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