Domingo eu não vou porque...

sábado, março 14, 2015


Sempre quando vejo que um protesto na Paulista ou pelo Brasil me pergunto: será que essas pessoas sabem realmente porque estão protestando, ou o mais importante, se essas pessoas estão realmente com um sentimento de mudança ao invés de comparecer por aquela opinião que nem sabem bem o que é?

Eis que chegou 2015, e os ônibus aumentaram para 3,50. Pois é, não era pelos 20 centavos? Cadê o tal Movimento do Passe Livre nessa história? Duvido que muitos se perguntaram pra que prestaram os protestos de 2013. Bom, os protestos de junho de 2013, os famosos "não são pelos 20 centavos", juntaram milhões de pessoas em torno de um pensamento só que reacendeu e fez o pessoal acreditar que sim, é legitimo protestar, e que sim, é assim que se exerce a democracia - mesmo que se tome borrachada. Logo realmente não eram pelos 20 centavos.

Enfim, o que no início proporcionou imagens lindas a esse país que jamais foram vistas como a "invasão" da rampa do Congresso e da tomada da Praça da Sé, após isso passamos a conhecer o que significam "black blocks", um movimento desconhecido de grande parte do povo até então. Obviamente, não se faz revolução sem violência, não existe, tanto pela necessidade de querer incomodar e tanto por causa do status de poder num todo em que os políticos adoram serem igualados a um deus. Mas é fato que essa mesma violência que misturou selvageria a ativismo anárquico, tal qual ela nos afasta de muita coisa por aí, apagou a chama dos protestos e fez o Brasil dormir de novo em berço esplêndido.

Em janeiro Dilma tomou posse para mais quatro anos da eleição mais disputada da história e que polarizou o Brasil. Agora dia 15 o povo acordou novamente e tomará de novo as ruas em favor de um tal de impeachment de Dilma. Uma palavra engraçada e que pouquíssimos sabem escrever. E alguns pontos de uma pura hipocrisia e falta de conhecimento do brasileiro me chamam a atenção e me fazem ter absolutamente nenhuma vontade de participar de nenhum dia 15.

Creio que absolutamente nada resolveria o impeachment da Dilma, não só porque nada (por enquanto) foi provado contra ela, o santo dela é forte e a democracia que a elegeu é mais forte do que ela mesmo, portanto não causaria nenhuma ruptura política e nem deposição. A economia de 2015 é bem diferente do caos que se instituiu na época de Collor e pouco se assemelha no país que vivemos hoje, o país era outro e era a primeira eleição direta que faríamos, é apenas fazermos um exercício de memória para chegarmos a essa conclusão. Para mim os protestos passam pelo susto do descontrole da economia e pela incompetência assustadora da presidenta, é só mexer no bolso que o brasileiro acorda. E dessa vez não foi só por 20 centavos!

Porém, tanto quanto há realmente pessoas que queiram e sabem as consequências do porque elas estão protestando, há também aquele mero sentimento de estar acolhido em um grupo, estar numa "onda", ir atrás do que está acontecendo; coisa que ocorreu de monte nos protestos de 2013 e que transformou a ideia numa grande reunião de amigos, até cerveja apareceu por ali. Só mais ridículo que isso é quem apoia a volta da ditadura como remédio de todos os problemas, como se a própria liberdade de expressão que dá o direito de eles expressarem essa opinião não estivesse ligada ao benefícios do fim da ditadura... Essa falta de noção passa diretamente pelo interesse do povo em se informar sobre as decisões que podem influir no próprio futuro.

Não morro de amores pela Dilma, muito pelo contrário, e se ela sofresse o impeachment acharia até justo pois o nível de cagadas no trono supera de longe o de acertos e o último pronunciamento dela só aumentou a constatação de fraqueza extrema. Chega a ser insuportável. Entretanto, por mais que os protestos sejam justos e legítimos, a Dilma bem ou mal foi eleita da forma democrática e é preciso aceitar que essa democracia é intrinsecamente ligada a aguentarmos coisas que não nos agradam.

Dizem que o Congresso é a casa do povo, pois bem, muito deles tem ou tiveram algum envolvimento na falcatrua toda e são eleitos novamente como se nada tivesse acontecido, como Collor que como um fantasma ressurgiu nos noticiários. A culpa é do povo que inocentemente os elege acreditando em contos da carochinha e se aproveita mal do próprio sistema democrático que foi conquistado. Não adianta ficar deslumbrado com as páginas de jornais como se a corrupção tivesse aumentado, não, ela sempre existiu. Não é de hoje que deveriam vir os protestos. Não é ser partidário, mas se era pra eleger alguém, tivemos a chance e jogamos fora.

O impeachment causaria um abalo no sistema presidencialista brasileiro e o povo daria um recado direto sobre a sua insatisfação, mas esses protestos mostram que o Brasil está cada vez mais rachado, e a intolerância presente de norte a sul sobre aqueles que votaram na Dilma ou no Aécio como um time de futebol, nos ensina que o país não sabe viver muito bem com a democracia e muitos menos com ideologias. É "coxinha" ou "comuna", é direita ou esquerda, é Dilma ou Aécio, é Sul e Norte, é Palmeiras ou Corinthians. Os protestos se polarizam mais do que deveriam. Portanto penso que além deles perderem muito do sentido de melhoria em troca de um sentimento de "guerra", é fundamental que mudemos por dentro diversas coisas e passemos a praticar atos que mudem as atitudes de nós mesmos diante a política e a sociedade. Oras, não foi só no Nordeste que a Dilma ganhou seus votos, concorda? É ignorância pura agir como se somente paulistas e cariocas prestassem e nordestinos não.

E outra, domingo é dia de dormir até mais tarde.

Lembra do que eu falei no começo do texto sobre a falta de conhecimento pelo que se está protestando? A consequência direta da deposição de Dilma do cargo seria que o vice assumisse seu cargo Michel Temer. Se ele for deposto também, seria chamado ao cargo Eduardo Cunha, e em último caso Renan Calheiros seria o presidente. Nananina não, nada de Aécio Neves ou novas eleições ao contrário que muitos pensam.

Só pra informar o tipo de pessoas que estão na fila.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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