Resenha Filme: Garota Exemplar

terça-feira, março 10, 2015

Ao final de "Garota Exemplar" temos a absoluta certeza de que a figura de Rosamund Pike encarnando a escritora sociopata Amy "Exemplar" Dunne é precisa. A escolha de David Fincher pela atriz, ao invés de Reese Witherspoon (mais conhecida como a caricata Bridget Jones) - que tinha os diretos a adaptação mas ficou somente como produtora - não iria se encaixar como a figura poderosa, sinistra, doce e misteriosa que a personagem Amy Dunne tem em si e que é fundamental para a história.

Sem enrolação, a adaptação do best-seller auto-intitulado conta a história de Nick Dunne (Ben Affleck) que em seu quinto aniversário de casamento ao voltar pra casa constata que sua esposa Amy simplesmente desapareceu.

Entre os flashbacks muito bem encaixados e a fotografia com a cara e a voz de David Fincher (algo que quem viu Clube da Luta entende muito bem), o longa conta como eles se conheceram, se apaixonaram, casaram e resolveram sair de Nova York para viver juntos no Missouri. Contudo, aquela época não trazia boas notícias. A mãe de Nick foi diagnosticada com câncer e pouco antes os dois perderam seus empregos entre a Grande Depressão que assolava os EUA na época, o que pouco a pouco foi ruindo o casamento de duas pessoas que se julgavam almas gêmeas. Dunne ficava casa vez mais relaxado e distante, e as brigas entre o casal eram cada vez mais constantes e violentas desabrochando um lado que Amy sempre teve com seus parceiros: a sociopatia.

Voltando ao ínicio do filme, no frenesi do acontecimento, Dunne logo contata a delegacia de polícia e a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens) sobre o desaparecimento da esposa. Porém, nas investigações (tendo sempre aquele parceiro policial pentelho que adora soltar mandados de prisão a torto e a direito), a cada passo Rhonda descobre fortes indícios para incriminar Nick Dunne do acontecido. Entre mentiras e acobertações de até casos extra-conjugais, a detetive desvenda um casamento só de aparências e que esconde diversos absurdos, e Dunne está cada vez mais enrascado para sair dessa situação.

Entre os focos principais do livro de Gillian Flynn, temos os principais pontos críticos do casamento na sociedade: a desonestidade, o dinheiro, e as aparências; mas um especial no caso de "Garota Exemplar": a mídia manipuladora (huahua).

Amy Elliot é uma escritora de renome e seu suposto desaparecimento comoveu a cidade, portanto não demorou muito para noticiarios sensacionalistas logo caírem em cima do acontecido, vulgo, o entretenimento barato ao inves do jornalismo que faz a irmã de Dunne, Margo (Carrie Coon), em ser uma potencial parceira sexual dele por eles serem "próximos demais", e aparências que as televisões focam e transformam a frieza de Dunne em suportar a tragédia que ocorreu, em suposta indiferença que o transforma em assassino. Tudo no filme se foca em aparências se você perceber. Principalmente quando Dunne aparece em rede nacional e se desculpa de tudo perante todos e tem seu ódio transformado em aceitação.

O best-seller de Gillian Flynn justifica perfeitamente a escolha de David Fincher em adaptá-lo, pois a imagem da mulher com um ser forte em seus filmes, se encaixa perfeitamente com o livro "Garota Exemplar". Entendo que o compromisso é inerente a honestidade e isso vai além do "amor" para sustentar qualquer relação, mas Amy tem em sua mente que os fins justificam os meios e sente um prazer na vingança. E essa é a chave para a virada espetacular na trama que bagunça qualquer ideia que tinhamos pré-concebida até ali.

Dizem que para aproveitarmos a ideia de um filme que adapta um livro, temos que assistir ao filme primeiro para somente depois ler o livro, pois quando fazemos ao contrário só aumenta a possibilidade de decepção e apreciação da "liberdade criativa" que o cineasta tomou. Contudo ao terminar de ver "Garota Exemplar" não me senti vazio em nenhum momento ou com dúvidas acerca de tais "buracos de roteiro" e perguntas mal respondidas que poderiam existir, ou se o livro valeria mais a pena que o filme, entende o que quero dizer?

Sinceramente, não li o livro de Gillian Flynn, e isso é algo que desabilita qualquer opinião que eu possa dar sobre o sucesso da adaptação de David Fincher, no entanto, o fato de "Garota Exemplar" não ter um final que toma a linha tradicional e que resolve apelar mais para a afirmação de uma (exagerada) crítica social ao inves de uma simples resolução, dá a adaptação de Fincher a certeza dos elogios. Creio que a adaptação é tão acima da média comparada a tantas outras, que torna o best-seller um complemento e não uma obrigação de leitura. E é para isso que se devem todas as palmas ao diretor.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários