Black Veil Brides e Rock In Rio: Metaleiro não gosta do que não é Metal

terça-feira, abril 28, 2015


Na última edição do Monsters of Rock que aconteceu esse fim de semana, "surpreendentemente" uma banda foi vaiada no festival. A banda americana de hard rock Black Veil Brides após trocas de xingamentos e dedos do meio em riste, abandonou o palco com pouco mais de meia hora de show debaixo de gritos de "Motorhead! Motorhead!" que como por um "castigo" aos mal educados, acabou nem subindo ao palco devido a problemas de saúde do vocalista Lemmy Kilmister (aliás, vida longa ao rei, mas infelizmente ele está definhando cada vez mais). =(

Ok, dado a explicação em torno de quem ainda não soube o que aconteceu vamos aos fatos principais, quer dizer, relembrando tais fatos: grande parte do povo "metaleiro" é o público mais cabeça dura que existe.

E vou ampliar a discussão...

Obviamente ter Metallica, Iron Maiden, Kiss e Motorhead em qualquer festival aumenta a chance de sucesso do mesmo. contudo, os mesmos festivais tem pro obrigação dar espaço ao novo sangue que tem por aí no rock e metal ou em apresentar certas bandas que não são muito conhecidas aonde o festival vai acontecer, certo? Foi o que aconteceu com o Monsters of Rock ao apostar em Coal Chamber, Steel Panther, Rival Sons, De La Tierra e no próprio Black Veil Brides, e o que acontecerá no Rock In Rio com Royal Blood, Deftones e Halestorm e o próprio De La Tierra. 

Mas o engraçado é que a rivalidade de uma sobre a outra nas redes sociais daqueles que vão/foram ao Monsters sobre o povo do Rock In Rio, são sustentadas pela frase de que o Monsters é o "festival de rock de verdade" por ter sido composto só de bandas de rock, mesmo que o Rock In Rio traga um line-up recheado de bandas que eles mesmos admiram também, como Faith No More, Metallica e Slipknot. Tal eterna revolta se mede porque o Rock In Rio não é "só um festival de rock" e que o nome o faz ser obrigado a trazer somente bandas do gênero em seu line-up. Aí você me diz: "Porra, tem Rihanna, Katy Perry e One Direction lá, como ele pode ser considerado um festival de rock ainda? Vá tomar no cu Medina!". 

Primeiramente é bom explicar que o Rock In Rio nunca foi um festival somente de rock e que o rock que ele traz no nome é porque o festival tem como carro-chefe o próprio gênero, fora que desde que o mundo é mundo, o Rock In Rio tem dias específicos para cada estilo. O festival cresceu e abraçou outros públicos, e por mais que isso tenha sido por negócios fazendo-o "traindo o movimento do rock n' roll", o festival, dado a seu tamanho, tem por obrigação de dar oportunidade para outros públicos poderem curtir seus artistas prediletos, assim como o próprio festival deu pro rock lá no início e continua dando. Queira ou não, o Rock In Rio abriu portas para os medalhões colocarem de vez o Brasil na rota de suas turnês. Esse é meu entendimento e ter ele me fez curtir mais e melhor o festival que posso assistir em meu país. Contudo, os tais fãs cabeçudos do metal se recusam a colocar o RIR no seu calendário por causa das bandas pop que "invadiram" o festival, mesmo que, como disse, três dias sejam dedicados ao rock e metal. Esse é um bom exemplo sobre a incapacidade de aceitar a pluralidade e a incapacidade de ignorar, parecendo que Rihanna está no mesmo dia que Metallica ou que você é obrigado a comprar ingresso para todos os dias do festival.

E quando isso atinge o próprio rock como no caso do Black Veil Brides, Ghost e Glória? É quando vem a ideia de que esse povo vai a um festival só para ouvir o que ele quer, como se fosse a sua playlist ao vivo do iPod.

Dizem por aí que público brasileiro é um público diferente, a paixão latina e especialmente brasileira pelo metal é algo desmedido se formos quantificar a fidelidade. Cantamos música por música e somos fãs que pulam e batem uns nos outros, provocando hematomas e ao mesmo tempo transformando a experiência que ali estamos tendo a melhor possível. E por isso e outras coisas tantas e tantas bandas fazem questão em retornar para cá em cada turnê, transformando o Brasil em rota obrigatória. É o que vem ocorrendo.

É vinda dessa emoção que o público brasileiro não hesita em vaiar e protestar quando ocorre algo que não lhe está agradando, é como nos estádios de futebol por exemplo. Basta o lateral-direito errar três ou quatro jogadas para a torcida o vaiar o jogo inteiro, mesmo se esse tiver feito o cruzamento pro gol no mesmo jogo. Quando são postas na mesa discussões sobre qual banda é melhor ou sobre se foi impedimento ou não, cada um puxa a sardinha pro seu lado e a paixão sobressai sobre a razão. Aí vem o ponto sobre as vaias ao Black Veil Brides.

Nem vou entrar no mérito de se a banda é boa ou ruim, e para falar a verdade, só fiquei conhecendo mais a respeito da banda graças a visita ingrata deles ao Brasil, mas as vaias proferidas, como aquelas ao Glória no Rock In Rio de 2011 e ao Ghost no mesmo evento em 2013, só fazem perceber o quanto o público metaleiro aqui do Brasil é extremamente ligado as raízes e reluta em conhecer o que não conhece ou mesmo respeitar o que não lhe convém. Claro que num show desse tamanho, não dá para simplesmente virar as costas, mas um festival de música não é um evento que vaiando a banda que não curte, tem o poder de colocar a banda que quer pra tocar. Entende?

Quando o Glória tocou no Rock In Rio daquele ano logo xinguei e fiz piadinha dizendo "que lugar de Glória é na igreja", porém, como o som da banda não estava me agradando apenas mudei de canal e fui ver outra coisa esperando o show do Motorhead mais tarde (se não me falha a memória), porém em nenhum momento xinguei até a quarta geração do organizador do Rock In Rio e deixei de reconhecer que a banda não merecia as vaias ali pois, apesar de tudo, faziam um som esforçado e competente. O baterista foda do Sepultura Eloy Casagrande saiu dessa banda, e aí? Vai dizer que não existia algum talento ali.

Quando vou em shows covers, se não curto alguma banda do cast, como Iron Maiden por exemplo (sim, não curto eles, e daí?), apenas me viro as costas e vou fazer outra coisa qualquer, ou vou embora mesmo. Acredito que o mesmo tipo de educação sirva para o caso do Black Veil Brides.

Veja o exemplo do Glória, as vaias terminaram quando eles tocaram dois covers do Pantera "Walk" e Domination", o que exemplifica também que o público metaleiro, mesmo que esteja em um festival, quer ouvir o que quer ouvir e o que é consagrado, mesmo que seja cover; e não simplesmente respeitar em silêncio o som da banda que está ali se esforçando para agradar o público daquele tamanho no festival que foi o sonho deles por uma vida inteira. Imagino daqui o sentimento dos caras do Black Veil Brides. Eles não foram vaiados por fazerem um show deplorável e sim porque não estavam tocando o som que o público dali queria. 

Aí vem a memória o show do idolatrado Angra no Rock In Rio de 2011, aquele em que o Glória foi vaiado, e que teve o apoio pleno do público mesmo com a banda apresentando um show fraco, displicente e cheio de falhas. Se as vaias são para algo que não está lhe agradando, então porque não as houve naquele caso? Será que o pessoal do Angra foram pra lá sabendo que o jogo estava ganho com o público e que podiam fazer um show qualquer? É o tal endeusamento que faz inexistir qualquer questionamento? E se fosse o Black Veil Brides nessa situação? Na verdade nem quero imaginar o que ocorreria, mas tornaria bem mais justo as vaias e dedos em riste a banda. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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