Resenha Filme: Poltergeist (1982)

Tenho 26 anos. Pela minha idade, não pertenço a geração que pôde vivenciar os anos 80 e se queixar com ainda mais fervorosidade da geração atual, mas entendo bem o sentimento que eles têm. Sou dos anos 90, sou da época que viveu a transição da tecnologia e adentrou o século 21.

No mar de facilidades em que vivemos, perdeu-se um pouco do apego e valorização que de certa forma tínhamos pelas pequenas coisas. Bom, quando tinha 6 anos nem sonhava em ter um celular, nem tinha um vídeo-game, nem sabia o que era um computador e me conformava muito bem em brincar com meus carrinhos. Nem tinha um estilo para falar a verdade! Hoje tudo é numa tal velocidade que é fundamental digerir o máximo de coisas possíveis em o menor tempo possível, quer dizer, a informação se sobrepôs a compreensão.

É muito mais simples ler um best-seller de fácil leitura do que um livro que te faça ligar o senso crítico ou a imaginação mais apurada, ou um filme em que os efeitos especiais se sobreponham a importância e um roteiro (oi Transformers), como os games, em que as produtoras fazem muito mais questão de entregar um jogo graficamente perfeito na foto e no produto final nos vemos diante de um game de mecânica travada e cheio de bugs. Entende o que quero dizer?

Claro, falamos de 1982, data de quando o filme "Poltergeist" foi lançado e quando os vídeo-games eram apenas enormes pixels. Tudo naquela década era novidade. Foi quando o roteiro de um filme se aliou a computação que engatinhava naquela década, onde na qual passamos a ver filmes com cifras astronômicas (pra época também). Hoje temos inúmeras trilogias, e foi nessa década que entendo que esse modo de fazer filmes e lucrar muito com isso começou a aparecer com força, é só ver o número de trilogias cultuadas Star Wars, Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, e o grande número de filmes de terror que começava em Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Horror em Amityville e Halloween só num exercício rápido de memória. 

Sendo novidade, era fácil impressionar o espectador, logicamente. Contudo, o que quero dizer que muito do que vemos e sentimos sobre os filmes que vamos ao cinema assistir, principalmente aqueles de terror, é que o fator imaginação se perdeu. E no filme de Tobe Hooper, escrito e produzido por Steven Spielberg, que não pôde dirigir o filme por estar em outra produção ao mesmo tempo (E.T.) somos instigados a todo tempo a isso.

"Poltergeist" é notoriamente uma crítica ao estilo american way of life apresentada de forma suave e bem humorada travestida de terror e suspense. Steven soube não só tratar com o devido respeito o mote sobrenatural sem parecer tosco ou apelativo, como soube também usar com maestria o principal eletrodoméstico da casa para aterrorizar, vencendo todos os paradigmas de que a família unida é capaz de vencer qualquer coisa, afinal, é impossível escapar da sua presença. 

A televisão diz tudo que uma criança quer ouvir, na verdade tudo o que queremos ouvir, e o verdadeiro terror se dá pela sua beleza que é capaz de nos fazer esquecer quase que por hipnose nossas mazelas sociais. Oras, quem nunca se assustou de sair correndo ao ver uma televisão ligada em um canal sem sinal quando era criança? Eu mesmo fui uma dessas pessoas apenas por ter visto a cena mais famosa do filme! Pois é, o terror de "Poltergeist" se dá nisso, em termos a televisão tão próxima a nós, e querendo ou não, em todas as casas e em praticamente todos os lugares.

- Ele mente para ela. Diz coisas que somente uma criança pode entender. Para ela é apenas outra criança. Para nós é a Besta.

Usando a frase acima da saudosa sensitiva Tangina, a televisão foi usada pelos espíritos não para aterrorizar, mas para seduzir, como se os espíritos protagonizassem um programa de televisão. As cenas da garotinha angelical Carol Anne conversando em frente a tela chuviscante em que mostra claramente isso. Os espíritos se aproveitaram do principal canal de comunicação da casa e da inocência de uma garotinha para tomar de volta o que eram deles.

Mas partindo daí já é spoiler...

Entre seus efeitos especiais altamente elogiáveis, principalmente pela época, e seu terror e suspense bem dosado em todo seu andamento, "Poltergeist" mostra que não é preciso de sustos para assustar, como não é preciso muitos ovos para se fazer uma omelete. O susto aterrorizado só vai ser verdadeiro se houver um clímax pra isso, e apesar de não termos nenhum susto aqui, transformar em vilão o aparelho de televisão foi uma jogada genial.

Claro que estou falando de 1982, época em que os recursos eram bem escassos e forçadamente você tinha que ter um bom roteiro na mão e talento para dirigir para o filme ser um sucesso, mas boa parte do terror está aí nos que os efeitos especiais castram demais hoje em dia: a imaginação; e isso é bem o que quero demonstrar pelo o que escrevi na primeira parte da resenha.

Hoje se vê muitos filmes do gênero sem orçamento entregando sustos baratos de cinema pipoca sem proporcionar a tensão que o roteiro tem que dar a situação, e aproveitando a estreia do remake de "Poltergeist", vi a oportunidade perfeita de demonstrar isso pois são grandes as chances de isso acontecer. Sabe "liberdade poética"? Sabe criar um portal detalhado na cena do guarda-roupa ou incrementar a cena do palhaço? Não precisa.

Agora imagina os espíritos entrarem pelos celulares... >.<

Curiosidades mórbidas:
- O filme é envolto em muito mistério e morbidez após seu lançamento por tragédias acompanharem a história desse filme, como por exemplo a atriz que interpretou a filha mais velha, Dominique Dunne, ter sido morta ao ser estrangulada pelo namorado, e Heather O'Rourke, a garotinha loira, ter morrido de parada cardíaca com apenas 12 anos no mesmo ano em que seria lançada a segunda continuação deste filme.

Cruzes!

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Voltando
Next Post »
Comentários
0 Comentários