Hoje foi dado um grande passo em favor da humanidade


Eu sou alguém que nunca tive uma família muito próxima, família que costumam dizer: pai e mãe. Minha mãe nunca foi muito próxima como mãe, me teve jovem, se matou de trabalhar, e fez escolhas erradas na vida fazendo uma faculdade que não lhe rendeu nenhum fruto imediato - e até me incluo friamente como "engano", já que fui uma gravidez indesejada e fruto de um namoro. A rigor, fui criado pelos meus avós, e como amigo, o irmão dela se prontificou para esse trato. E sobre meu pai, o conheci somente quando tinha lá meus 15 anos, graças a uma operação de "ocultamento" de fatos típico de novela das oito que minha avó, mãe da minha mãe, preferiu fazer, já que meu pai na época era meu vizinho.

Minha avó, minha verdadeira mãe, faleceu quando tinha 10 anos, meu tio seguiu sua vida e meu avô faleceu a 4 anos; e assim com uma família pequenininha só sobrou minha mãe e vi que era o momento para praticar tudo o que aprendi e o que não aprendi saindo das asas dela. Na verdade, sou alguém que desde o começo aprendi o que aprendi graças a vida e graças aos bons amigos que passam ou passaram pela minha vida, desde as corridas sem rumo e as quedas e sujeiras naturais de uma criança do "prézinho", até o conhecimento social que adquiri na minha adolescência no ensino médio.

Hoje moro com amigos, não tenho religião e apoio a igualdade. Penso que o caráter vale muito mais do que qualquer tipo de crença ou ensinamento fundamentado que pai e mãe possa lhe dar. Na verdade, aprendi que família são aquelas pessoas que te amam e que demonstram isso melhor forma. Podem ser pais, avós, tios, amigos. Sangue não vale nada a não ser dizer de quem você veio biologicamente e que moralmente o sangue representa aquelas almas da qual você se identifica, o que é muito mais importante - tal qual uma crença não dignifica e nem ensina ninguém a uma vida melhor, pelo contrário, é somente um ditado que ensinam que serve para reprimir os desejos e a verdadeira personalidade da maioria. Bom, mas o assunto aqui não é isso.

Mas como você vê por si só, a "fundação familiar tradicional" que pregam por aí como salvação da sociedade moderna caiu por terra desde o começo da minha vida, já que não tive um pai presente e minha mãe não foi uma das pessoas mais responsáveis que tinha que ser. Fora que sou alguém ensinado "pelas ruas". Ensinado a tratar todos com o máximo respeito, independente de seu gosto, acreditando que na sociedade cabem todas as cores e crenças e que cada um tem seu espaço. Então o ponto aonde quero chegar é que acabei sendo ensinado assim pelo amor das pessoas que me cercaram, e não pela fundação da família ou alguma crença. Caráter não se constrói com preceitos lidos em um livro.

Provavelmente se eu contar essa história em uma mesa de bar com um Feliciano da vida, seja glorificado a Jesus Cristo por ter sido de alguma forma "salvo" da criminalidade e dotado de pudor, ou algo assim.

Hoje nos EUA após uma votação apertada foi legalizado o casamento gay em todo seu território, e essa repercussão gigantesca não é a toa. Hoje, independente da vontade de qualquer pessoa e qualquer estado americano, se torna lei federal a total igualdade HUMANA independente de crença, cor e sexo de se poder celebrar o amor através do casamento.

Nos anos 60, os EUA foram fundamentais para o fim da segregação racial e avanço das ideias progressistas em favor da igualdade de dois humanos poderem sentar no mesmo banco de praça, no mesmo banco de ônibus, beber no mesmo bebedouro, ou poderem se casar legalmente sem pré-julgamentos ou proibição. Usando uma frase de um senador republicano (um partido que é muito religioso) que na apertada votação favorável disse mais ou menos assim: "O casamento promove e celebra uma união tão forte que ninguém pode ir contra ao que ele realmente significa: o amor". Me desculpem Irlanda, Holanda e Brasil, os EUA fazem - muitas vezes de forma benéfica - os outros países "pagarem pau", abrindo portas para que quem sabe um dia uma haja uma sociedade menos ignorante.

Obviamente aquela geração americana do branco e preto dos anos 60 viu esse progressismo de negros e brancos com maus olhos, afinal, costumes são dificílimos de serem quebrados. É algo que leva muito tempo. Costumes se quebram, evoluem e se constroem, e as leis estão aí justamente para isso: punir os ignorantes que insistem em quebrá-las e nivelar a sociedade perante ela (por mais que a prática seja bem diferente aqui); e tal qual como os negros (guardadas as devidas proporções), hoje os gays conquistaram esse direito de igualdade na terra do Tio Sam.

A partir de hoje essa decisão proporcionará as gerações seguintes uma visão muito mais libertária e cordial a respeito do que nos tempos atuais, fazendo com que o preconceito realmente seja enterrado no passado - onde ele merece -, e quem sabe fazendo até com que congressos de outros países tomem coragem de tomar partido favorável, sem ideias tolas como ser gay é ter "falta de respeito".

Bom, especialmente para os congressistas brasileiros, falta de respeito é roubar com a cueca e matar gente inocente. Isso independe de "fundação familiar", é safadeza mesmo. Tal qual a doença não escolhe cor e nem crença, a doença mór da sociedade também não escolhe.

E não Levy Fidélix, a população não diminuirá por causa do casamento gay - pelo contrário, já que muitas crianças recusadas por casais héteros são adotadas por casais homossexuais e são potenciais héteros que farão seus filhos com alguma mulher. O que diminuirá, é a sua população com o tempo. Felizmente.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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