Resenha Filme: O Que Fazer? (O último filme de Robin Williams)

terça-feira, junho 16, 2015

Temos dias que literalmente acordamos com o pé esquerdo e do lado errado da cama (como se não fosse suficiente). Calçando o chinelo com o pé errado, derrubando sal na mesa na hora do café, e quebramos um espelho quando fomos arrumar nossa cara amassada (e nos caso das mulheres quando elas foram se maquiar). Saindo de casa um gato preto (ount) cruza o caminho querendo carinho, e desviando, acabamos passando embaixo de uma escada perto de casa quando o cara da companhia elétrica veio consertar a cagada do vizinho, e chegando no trabalho um amigo dando parabéns adiantado quando o seu aniversário é só semana que vem... Ufa!

Bom, dizem que cada uma desses acontecimentos desse dia apocaliptico para os supersticiosos dão azar, mas não acredito nisso, não sou supersticioso e nem o filme cuja resenha está sendo escrita se trata disso. O caso aqui é que o advogado Henry Altmann (Robin Williams) é um típico norte-americano, na verdade um pouco de todos nós, que já experimentou a felicidade em certo momento da vida mas hoje goza de um mau humor quase que incurável. Para ele o sorriso de um Nova Iorquino passa longe de um bom dia, todos os dias de um mundo que ruma para a destruição iminente são desprezíveis e tudo é motivo para irritação, todos os dias. Ninguém trabalha direito, ninguém cala a boca e faz sua obrigação de bom cidadão.

Ok, tem horas que isso é verdade...

Em um desses dias estressantes, Henry vai a um hospital para uma consulta de rotina com seu neurocirurgião e lá ele recebe a péssima notícia de que ele não poderá atendê-lo. A encarregada do triste fardo é a Dra. Sharon Gill (Mila Kunis) - que está passando um dia tão horrível quanto o dele. Na consulta Henry recebe a notícia de que tem um aneurisma cerebral e que é imprescindível que ele se interne em um hospital especializado, mas preciso dizer que isso é motivo para mais um monólogo de ódio de Henry? Pressionada por Henry que quer saber quanto tempo de vida lhe resta, a doutora num engano lhe dá apenas 90 minutos. A seguir o que vemos é uma busca de Henry em fazer as pazes com tudo que faz mal em sua vida, e uma busca da Dra. Sharon por toda a Nova Iorque em achá-lo para dar o diagnóstico correto.

"The Angriest Man In Brooklyn" (algo como "O Homem Raivoso do Brooklyn" em tradução livre) ou simplesmente "O Que Fazer?" (em mais uma tradução que não faz nenhum sentido com o título original) é o último filme do saudoso Robin Williams protagonizado por ele no cinema antes de seu suicídio em 2014 e que pude interpretar como uma carta de despedida a seus fãs, tornando o filme mais triste quanto ele deveria ser.

Conversando com minha namorada sobre essa questão, ela me disse que é somente um personagem. E sim, é verdade. Mas acredito que em certa altura da carreira de muitos atores como Robin Williams, a escolha dos papeis interpretados são também um atestado de como eles se encontram emocionalmente nas suas próprias vidas. É como quando a gente escuta música, tem músicas para vários momentos; tem dias que queremos agitar, tem dias que estamos para ouvir algo mais viajante e tem dias que nem queremos ouvir nada. Bom, olhando na Wikipédia "O Que Fazer?" foi lançado em maio e o suicídio de Robin foi em agosto, o que faz bastante sentido se formos comparar sua aura depressiva daquele momento com o personagem odioso e cretino chamado Henry Altmann. A raiva daquele personagem poderia ser um refúgio para a sua tristeza. Ele não entendia mais o mundo e aquele mundo estressado e cinzento que Henry vivia, não era o mundo que Robin queria viver.

No curto filme de pouco mais de uma hora e meia, na busca de Henry por tentar rever toda a sua vida e na sua busca de fazer valer os 90 minutos em dizer que ama a quem realmente ama, lá no fundo, descobrimos que Henry fez da sua raiva um refúgio para a dor que sentia. Talvez a vida imite a arte de certa forma. Henry tem sua tentativa de suicídio frustrada, mas seu aneurisma que está em estágio incurável não deixa Henry viver muito mais do que alguns dias. Mas essa despedida lhe fez entender de que na vida o que realmente importa é a nossa família e sua raiva nada mais fez do que afastar aqueles que ainda o amavam e poderiam fazer sua dor diminuir.

O filme é fraco, é simples, e mostra um Robin cansado, longe de suas interpretações em seus brilhantes filmes que aliavam o drama a comédia; mas quando ligamos a arte com a vida as coisas parecem se tornar mais importantes. Pode ser que Henry era apenas um personagem, e sempre continuará sendo, mas Robin poderia ficar em sua casa tratando sua depressão em vez de trabalhar em esse filme. Tal como o "carpe diem" dito em "Sociedade dos Poetas Mortos", eu entendi sua mensagem, mais uma vez.

Pena que Robin não quis mais viver para contar sua história e nos fazer rir e chorar mais um pouco. Talvez ele tenha percebido que sua obra ficaria em nossos corações para sempre e nos faria esquecer de que esse fato aconteceu.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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