Resenha Cinema: Divertidamente

A verdade é que como seres humanos, somos seres muito acomodados e confusos. Detestamos mudanças por mais que reclamamos da rotina e somos seres tão inseguros socialmente quanto um prego mantém-se fincado na areia. Detestamos quando mudamos de namorada, quando forçadamente mudamos de trabalho, quando nossos amigos mudam, quando o produto que sempre compramos deixa de existir, quando há o apocalipse zumbi (ok, exceto isso); só não odiamos aumento de salário. No entanto, a vida é recheada de mudanças, boas e ruins, e são essas mudanças que nos ajudam a amadurecer e a superar nossos próprios preconceitos e medos. Mas dentre todas as mudanças há uma pior: a mudança de lar.

Somos medrosos, e tudo isso se potencializa quando sua vida social é abalada por uma mudança de ares na vida. E não, não vale dizer que isso é sempre bom. Deixando a hipocrisia de lado, poucos de nós são aventureiros e adoram ter seus cabelos ao vento. Somos inseguros e gostamos da certeza de algo na vida - já que a vida por si só é muito incerta. Então precisamos saber aonde comprar nosso pão, saber aonde cortar o cabelo e saber aonde fica a casa de seu melhor amigo... Só de imaginar perder tudo isso dá medo quando você é adolescente.

Todo mundo já passou por essa idade e em alguma época, mesmo na mudança simples de escola porque você deixou de cursar a 1ª e 4ª série e agora faz parte dos descolados (e cabeças de vento) da 5ª e 8ª, você ficou triste e inseguro de seus melhores amiguinhos não estarem na mesma classe que você naquela lista de começo de ano. Então imagina quem muda de cidade... Eu tive a sorte de nunca passar por isso e só tenho o exemplo que citei acima, mas pegando alguém que assistiu o filme comigo e que pensei que se identificou tanto quanto eu com as abruptas mudanças que a garotinha Riley sofreu, foi a minha namorada. 

Sem entrar muito em detalhes, ela mais ou menos aos 11 anos, idade de Riley no filme, viveu em Manaus, Fortaleza, São Paulo e agora em Guarulhos. É difícil quantificar o prejuízo que essas mudanças causaram na vida social dela e que a impossibilitaram de ter amigos duradouros na vida (pelo menos por enquanto). A gente se vira e se adapta nas outras áreas cotidianas, mas relações sociais são fracas e se perdem; ainda mais nessa idade adolescente que a gente nem sabe muito bem quem é, quais amigos são verdadeiros amigos e o que a gente gosta. Dizem que amigos são como meias, eles ficam velhos e precisam serem trocados, mas nem tudo é simples assim. Com muitas mudanças a insegurança se faz presente, e como disse lá atrás, são poucos de nós que são aventureiros por natureza.

Bom, assim que Riley deu adeus a sua vida feliz em Minnesota acompanhando seus pais para São Francisco, pela primeira vez teve que confrontar seus medos e receios diante da adversidade social que estava diante a ela. E em "Divertidamente" (é mais legal escrito tudo junto assim) somos convidados a visitar a gama de sentimentos que desde o início da sua vida se fizeram presente, numa lição típica da Pixar em como transformar algo tão complexo como a nossa mente em uma simples "brincadeira" colorida que todo mundo é capaz de entender. 

Quando Riley abriu os seus olhinhos a Alegria nasceu, quando ela chorou pela primeira vez, a Tristeza apareceu. Em um resumo bem inteligente do roteiro e com inteligentes tiradas bem humoradas, somos apresentados um a um aos outros sentimentos básicos que nos formam: Medo, Nojinho, e Raiva, e a tudo o que constrói a mente de Riley. 

Como se fosse uma espécie de "jogo das bolinhas" que você joga no celular, cada memória é representada por uma bolinha-de-gude e cada uma tem uma cor representando sua memória para aquele momento.Quando Riley cai no sono representa o final do dia e cada uma dessas bolinhas, rolando em trilhos de máquinas de pinball, são arquivadas em grandes estantes que ao passar do tempo são revistas e algumas delas diariamente são jogadas no "abismo do esquecimento", que como o nome diz, são as memórias que não são importantes a nós naquele momento ou que simplesmente fazemos questão de esquecer (mas que não esquecemos): ex-namoradas, amigos imaginários da infância ou o sorvete que você comeu a alguns anos atrás. A ligação entre esses "mundos" é feita por linhas férreas, trens que transportam tais memórias e que fazem o caminho entre os reinos e a torre de controle. E a Riley na sua cabeça tem cinco reinos básicos: o reino da bobeira, o reino da família, o reino da honestidade, o reino da amizade e o reino do hóquei (coloque aqui aquilo que na sua vida tem maior importância).

Assim que Riley se muda, a Alegria faz questão de deixá-la empolgada com a confusa mudança que ela passou, mas a vida mostra que as coisas são mais complicadas que parecem e a Tristeza inevitavelmente acaba tomando conta das memórias. Para salvar as memórias-base de Riley nessa confusão, as duas são jogadas para o arquivo de lembranças da sua mente numa aventura para não só voltar ao controle, mas para descobrir melhor o que realmente importa para ela. Nessa jornada os dois sentimentos descobrem que interior e exterior coexistem perfeitamente, o abstrato e o realístico, Conhecendo a caverna amedrontadora povoada pelos medos, o desejo cor-de-rosa feito de algodão doce e arco-íris, os sonhos produzidos através esquetes e o esquecimento que já falei representada pelas bolinhas de gude sem cor fadadas a virar pó. Foi tudo tão bem representado em uma gama de cores e sentimentos tão inteligentes e espertos, que é impossível de se achar alguma coisa que nos fez sorrir menos do que deveríamos nessa jornada pelo auto conhecimento. E no meu caso, uma jornada que me fez entender melhor o sofrimento da minha namorada nessa época.

É preciso se auto-conhecer para saber bem o que representam esses sentimentos em cada um de nós, e o mais importante, quando cada um deles é fundamental nos diversos momentos de nossas vidas. Acho que a grande lição que "Divertidamente" passa é que sem a Alegria é impossível de os outros sentimentos coexistirem, mas sem a Tristeza não percebemos o que realmente importa. Isso foi o que Alegria e a Tristeza aprenderam em sua jornada e foram fundamentais para Riley perceber através da saudade, o quanto de valor tinham suas decisões.
"Divertidamente" é o filme genuinamente mais engraçado que pude ver em anos. Em cada detalhe da história a Pixar soube retratar bem o nosso cotidiano, sem parecer uma piada forçada ou que se faz presente propositalmente. Sutilidade aplicada nas relações entre as emoções e estilos representados por elas, nas explicações simples e hilárias até para as músicas chicletes, ou nas tiradas espertas na discussão na mesa de jantar de Riley com seus pais. Bom, só vendo para entender o quanto isso foi hilário. =D 

O fato é que nos últimos anos a Pixar passou pela fase que qualquer pessoa passa: ócio criativo. Era uma sequência tão grande de histórias tão emocionantes e bem sucedidas como "Ratatouille", "Wall-E" e "Up" que é difícil manter o mesmo nível que reconhecidamente é difícil de se alcançar e de se manter em qualquer meio artístico. Aí vieram as sequências de "Toy Story 3", "Carros 2", "Universidade Monstros" e a aventura inédita "Valente" que apesar de ótimas (exceto "Carros" que nunca gostei), eram bem distantes daquilo que a Pixar nos entregava. E a própria Pixar reconhecia essa "crise de meia-idade" que ela passava. 

Naquele momento a Pixar trabalhava em "Newt" a história de duas salamandras raras que se odeiam mas que são a salvação do habitat em que vivem, conceito muito parecido que vimos em "Rio" e a Pixar sabia disso. Foi dessa da frustração que a própria produtora tinha com as suas ideias naquele momento que nasceu "Divertidamente". Os criadores Pete Docter e John Lasseter foram chamados pra salvar o projeto e começaram a brincar com algumas ideias, quando Docter sugeriu: "e se brincássemos com emoções?" buscando compreender sua filha pequena que era alegre e feliz e passou a ficar introspectiva. Baseando-se em algo tão simples e tocante a todos nós, a Pixar deu a volta por cima. 

Para mim no cinema só se tem dois caminhos para tornar uma projeção inesquecível a alguém: ou se conta uma excelente história, seja ela ficção ou real, ou se conta uma história que todos se identifiquem e que é capaz de emocionar a quem assiste. Ao final de "Divertidamente", na reflexão sabática que a Pixar passou nesses dois anos sem filmes, eles recuperaram exatamente tudo aquilo que nos conquistava: a emoção e a simplicidade que a muitos anos não se fazia presente e que fez a Pixar ser o que é pra mim e pra você.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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