Resenha Filme: Entre Abelhas


Logo de cara a primeira reação que tenho se tratando de um filme nacional é sua qualidade muitas vezes duvidosa, tanto de interpretação, como de humor.

Claro que posso estar aqui parado perdendo muito filme bom porque "não conheço devidamente a cena, é o que os metidos a "cults" falariam. Mas sinceramente é aquele pensamento muquirana e preguiçoso: "o cinema tá caro e não posso gastar minha energia e ânimo pra ver qualquer filme. Vou gastar a grana entupindo minhas artérias no Burger (bacon) King e saciando minha fome monstra, ou vou gastar meu precioso tempo vendo a Netflix". Talvez nem dando o ingresso de graça, faça as pessoas terem um verdadeiro afinco de sair de casa (ainda mais no frio).

E o que dirá de um filme estrelado por Fabio Porchat? Graças ao Porta dos Fundos o relacionamos diretamente com o humor, fora a sua exposição excessiva. Parece que de uma hora pra outra descobriram o cara e o procuraram colocar em todo tipo de comercial, propaganda, televisão, cinema.

Essa exposição naturalmente causa a antipatia a sua figura, e naturalmente também causa a rejeição para com o filme. Talvez pseudo-humoristas como Ingrid Guimarães, e humoristas Marcelo Adnet (apesar de o achar muito mais sem graça) e Leandro Hassum sofram do mesmo problema. O que é Global, não presta

Roteirizado por Ian SBF, com participações do pessoal do Porta dos Fundos e estrelado pela estrela principal do grupo, Fabio Porchat, "Entre Abelhas" a se julgar por isso, não seria um filme pra se levar a sério. Mas lembrando muito do caso do humorista Jim Carrey que estrelou ao lado de Kate Winslet o excelente drama "Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças", enganou-se quem duvidou do talento de Porchat em personificar alguém que não está sendo capaz de dar um sorriso durante quase uma hora e meia. E que como Carrey, acaba desconstruindo aquela nossa ideia que temos dele, de um cara que com caras e bocas tenta em cima de um palco nos fazer rir.

Aqui Porchat interpreta Bruno, um mero editor de vídeo que após de divorciar de sua mulher Regina (Giovanna Lancelotti) volta a morar com sua mãe protetora (Irene Ravache) e anda depressivo com o mundo que o rodeia, afinal, a perda de um amor sempre causa isso. Então cabe a seu melhor amigo Davi (Marcos Veras) a missão de tentar levantar o ânimo de Bruno ao estilo bem machista de leva-lo a noitadas cheias de bebida e mulheres. No entanto, saca aquela situação que na perda de um amor meio que se vão também as cores ao seu redor? Bruno se sente desanimado pra tudo e não vê outra relação amorosa e nem pessoal com mais ninguém naquele momento, muito menos no seu trabalho.

Então, solitário no meio da multidão, Bruno de repente passa a esbarrar em pessoas que não vê, se deparar com o ônibus que para no ponto e ele não vê ninguém descer, ou no taxista que simplesmente desaparece no meio da corrida que Bruno está como passageiro. Ao se dar conta da loucura que está acontecendo, Bruno também percebe que não só desconhecidos estão sumindo, mas pessoas que ele ama. E é aí que começa seu drama à la "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago.

O que você faria se as pessoas de seu cotidiano desaparecessem? Bom, por mais que digamos a nós mesmos que seria muito bom se as pessoas de fato virassem fumaça diante a nossos olhos, a realidade é que elas, mesmo os nossos inimigos, desapercebidamente são fundamentais pra nós percebemos que temos que seguir em frente independentemente da felicidade que não nos acomete. O que mais ouvimos nessa situações é "siga em frente", "tudo vai passar", mas as coisas não são simples assim. è como nossa avó diz: "temos que dar tempo ao tempo". Alheios a tapa nas costas e palavras de motivação das pessoas que nos amam, cabe a nós, que vendo a vida alheia de quem nós odiamos sempre parecer melhor que a nossas, de ter a coragem de dar um passo adiante e não fazer das outras pessoas seres invisíveis.

Uma boa analogia para a esse estado que Bruno se encontra é o atendente da lanchonete Nildo (Luis Lobianco) que pega três ônibus para voltar pra casa e por diversas vezes é um ser invisivel aos olhos de quem o trata apenas como um prestador de serviços, aceita a proposta um tanto esquisita da mãe de Bruno, e que se tornou fundamental para o fazer entender da sua real condição.

"Entre Abelhas" trata da depressão sem tratar diretamente da depressão e ao final nos traz um interessante questionamento: será mesmo que realmente enxergamos as pessoas ao nosso redor? Uma boa pergunta para uma época em que as pessoas vivem tão isoladas, ironicamente conectadas e com os rostos grudados ao seus smartphones sem ver direito quem está no seu caminho. Hoje mesmo uma mulher quase esbarrou em mim no hall do meu trabalho e nem me pediu desculpa pelo ocorrido. Acho que não é só falta de educação.

Bruno se fechou em seu casulo e as pessoas somem justamente porque nenhuma delas importa para ele, nem a sua mãe. Somente a Regina e a sua busca em reviver um presente que já se foi. É uma visão triste e diferente para o egoísmo que se revela somente na ocasião da perda. Como no caso da mãe de Bruno que também desaparece para ele.

Propositalmente feito para surpreender, afinal, o choque entre humor e drama é instantâneo. "Entre Abelhas" é um filme curto e tem um final abrupto que vai causar estranheza em quem está acostumado com desfechos que simplificam o roteiro, fazendo assim a compreensão imediata do filme ser meio confusa. Porém, está aí o brilho do filme, ele traz a reflexão à tona. Brincando com a linha tênue que separa o riso do choro, a dramédia de Porchat em toda sua brevidade, inteligentemente aborda a depressão e a solidão em uma forma bem simples e acessível a todos, se saindo bem em contar uma história cotidiana e identificável a todas sem parecer descartável ou esquecível, ou em outras palavras, com cara de filme nacional.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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