Resenha Filme: O Estranho Mundo de Jack


A imagem fofa e carismática de Jack está para onde dirigimos o olhar. Camisetas, bolsas, chaveiros, bonecos... a cabeça de Jack está em todo lugar. Mas por trás desse personagem infantil da saudosa animação que Tim Burton dirigiu em 1993, há um conceito bem interessante sobre o tédio e como todos sem exceção estamos fadados a ele.

Sempre há quem diga que a vida da geração passada era melhor aproveitada, quer dizer, hoje temos tanto acesso a informação o tempo todo e tantas tarefas o tempo todo que esquecemos da arte de apreciar os momentos. Como o ato de fotografar tudo pra postar no Instagram nessa necessidade de sempre mostrar o que está fazendo, em suma, olhar para a câmera e menos pro céu ou pra cara do seu amigo. Por mais que olhando por esse lado a razão fale alto, obviamente a principal missão da geração passada é minar a atual. Sempre "os nossos tempos" foram mais vívidos e mais divertidos em comparação com a geração atual, mas olhando para o outro lado sobriamente, tudo isso passa pela nossa acomodação e sensação nostálgica natural que temos pelos nossa infância. O que é bem natural.

Bom, não vou ser didático sobre um filme que quase todo mundo já sabe a história (e se você não sabe, o que tá esperando pra correr atrás de ver o filme?), então achei mais correto dar uma visão que se distancia da ideia comum, em detrimento de uma análise mais profunda sobre o que entendi do filme anos depois de vê-lo a primeira vez. Afinal, crescemos e amadurecemos, nossas compreensões e ideias também, por isso é tão gostoso reler um livro anos depois ou rever um filme como esse.

Primeiramente Tim Burton foi genial (como há muito tempo ele não é) em transformar um desenho infantil em uma peça tão profunda psicologicamente. Como lidar com a dor e o vazio que não sabemos como preencher?

Seja qual for a época, seja o que somos, e seja o que tínhamos e tenhamos a fazer, estamos entediados. Jack estava, mesmo com o título de "Rei do Halloween". Claro que todo o dia das bruxas na cidade do Halloween era a mesma coisa e a tarefa estafante de organizar todo o evento cabia a Jack, que já não sentia o mesmo apreço pelo que fazia a muito tempo. Mas a tarefa que o "Rei das Abóboras" tinha era ingrata, afinal, como lidar com toda a sua fama sem ter a satisfação de dar um sorriso orgulhoso de uma tarefa que lhe cabe todo o ano?

Em conflito com as ideias e com a própria vida, Jack sabia que no fundo tinha um senso de inquietação alheio ao seu tempo e seu reino, e certamente isso o afetava. Em crise existencial, à la Shakespeare nos melhores momentos do clássico "ser ou não ser", Jack olha pra sua própria cabeça e se pergunta qual o sentido de estar ali e o que ele é. “Since I'm dead, I can take off my head to recite Shakespearean quotations”. Em outras palavras, Jack não estava sentindo mais nada.

Jack não via mais sentido na sua vida, fazendo exatamente tudo de novo ano após ano. Era um deja vú eterno, uma rotina imperdoável que dentro dele e de nós mesmos acomete diversas vezes em poucos anos. Até parece uma boa piada ele ser um esqueleto e estar sentindo um vazio!

Jack em seu passeio pela floresta, acaba se encantando com uma árvore com um desenho em formato natalino e sendo sugado para ela passa a conhecer a "Cidade do Natal". Claro que voltando de lá e sentindo a empolgação latente percorrer seu pensamento, a execução da festa sai totalmente errada.

Naturalmente o seu povo não sabia reagir a ela dado a seu condicionamento anual de participar de uma festa modorrenta, algo que eles são por serem monstros. Só que Jack, nessa experiência atabalhoada, graças ao espírito do Natal (relegado a segundo plano pelo seu povo que não entendia o que significava esse sentimento) recupera seu vigor, entendendo que o seu lugar é ali e não deve tentar ser o que não é. Ele viu o porque ele é "O Rei do Halloween" e que ironicamente o motivo inicial de seu tédio, preencheria o vazio que ele sentia.

É comum nos sentirmos pouco importantes, pequenas peças que ninguém se importa; peças que estão paradas, e sentindo que a rotina é o defeito que nos faz sentirmos totalmente solitários num mundo lotado de gente e vazios numa vida em que temos tanto a se fazer.

Quem nunca quis pegar uma mala e sair pelo mundo ao melhor estilo "On The Road"? Mas antes de perguntar a Jack Kerouac o que ele sentiu, o outro Jack, o Skellington, em sua história nos ensina que o tédio que sentimos é passageiro, quase tudo na vida é (menos o motorista e cobrador), e que o fundamental é que nós passemos a dar maior valor a posição que temos, ao eterno aprendizado, e claro, a nós mesmos.

A pergunta não é o que preciso mudar, mas sim o que preciso aprimorar na vida pra entendê-la melhor. Precisamos disso para dizer se o lugar em que estamos é realmente o lugar em que precisamos estar.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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