Resenha Filme: O Jogo da Imitação

segunda-feira, julho 27, 2015


Talvez seja só eu que tenha essa impressão, mas quando se fala a palavra Oscar o seu nariz se torce um pouquinho, afinal, o tal conglomerado julgador formado por críticos blases que não vivem na mesma realidade que a nossa, quase nunca indicam aquele filme que você achou sensacional, quer dizer, por mais que um filme blockbuster seja bem feito, o dito cujo não é digno de ter alguma premiação porque não faz parte do rótulo "cult" de ser. Simples assim.

Bom, essa discussão vai longe, mas é fato que o Oscar, como tantas outras premiações de tapete vermelho e nariz empinado, nos apresentam filmes que NUNCA chamariam a nossa atenção em circunstâncias normais, seja por (muita) falta de divulgação ou por preferências mesmo. Ou você por acaso iria ao cinema ver "O Jogo da Imitação" simplesmente porque aquela é uma boa história? Duvido muito.

Levemente baseado na biografia "Alan Turing: The Enigma", o filme nos apresenta o lado B da Segunda Guerra Mundial num desafio bem além das lutas armadas e que parecia ser impossível de ser vencido. 

Enigma é o nome da máquina de criptografia usada pelos alemães responsável por transmitir mensagens de guerra codificados entre o exército alemão, quer dizer, mensagens que só quem enviasse e quem recebesse poderia entender. Supostamente indecifrável, o fato é que essa máquina por longos anos foi a responsável direta por deixar os alemães sempre um passo a frente dos Aliados na Segunda Guerra. Sua criptografia deveras complexa consistia num funcionamento contínuo em um curto espaço de tempo em dois horários, às 6h da manhã (quando a mensagem chegava) e a 24h (quando sua codificação mudava completamente) impossibilitando que a cabeça de gênios americanos, soviéticos e ingleses fossem capazes de compreender, já que a mensagem mudava em um curto espaço de tempo jogando fora horas de trabalho a fio de matemáticos e criptoanalistas de egos inflados da época. 

Sabendo que a vitória dependia de uma descodificação da Enigma, a Inglaterra resolveu criar o projeto Ultra, um projeto que consistia em justar as melhores mentes estudiosas da época para tentar vencer a máquina em uma tarefa hercúlea. É aí que Alan Turing (Benedict Cumberbatch) entra.

Matemático e criptoanalista, Turing é considerado o pai da computação e responsável direto pela criação do que chamamos de inteligência artificial. Em suma, é graças a ele que eu e você podemos estar por trás de um teclado hoje em dia, desde uma simples calculadora até aos notebooks modernos. 

Tímido e introvertido, Turing é como todo gênio (que se assemelha muito ao Sheldon), uma pessoa extremamente egoísta e antipática, e ironicamente tais defeitos são justamente os alicerces necessários para as suas maiores qualidades sendo o gênio que era. Extremamente prático e direto, Turing é chamado pelo governo inglês para participar de seu projeto Ultra e sabe que todo aquele esforço era inútil para o trabalho que ele era atraído pela superação. Era preciso algo novo. Alan Turing por muitos anos idealizou o projeto de sua vida, a máquina chamada por ele de Christopher, ou simplesmente chamada de Máquina de Turing

Como todo gênio, Turing era também desacreditado pela sua tentativa necessária de inventar algo novo e provar-se eficiente diante outras mentes brilhantes que eram tão egoístas e antipáticos quanto ele. Mas a medida que o filme se desenrola, descobrimos em Turing uma figura doce e capaz até de ser inocente em situações que ele nunca vivenciou. A responsável direta por esses momentos que arrancam alguns sorrisos de satisfação é a única mulher do elenco Joan Clarke (Keira Knightley). Contratada por Turing, depois de ele ser eleito chefe por ninguém menos que o general Winston Churchill, Joan é encontrada por ele em um teste simples veiculado em um jornal que só mentes como a dele poderiam resolver. 

Turing era uma pessoa misógina, talvez não por ele escolher adquirir essa personalidade, mas porque como gênio naturalmente desprezava as mentes alheias porque ele se jugava superior a elas (e era). Mas com Joan, ele viu pela primeira vez alguém que podia lhe entender e lhe proporcionar uma amizade que compartilhava de uma sabedoria que ele e nem ela encontravam por aí. Mas essa não é uma história de amor. Sua paixão pela sua criação escondia muito mais do que aparentava, e isso o filme vai nos explicando através de pequenos e necessários flashbacks que nos fazem compreender melhor quem é Alan Turing.

Para qualquer biografia é extremamente necessário que o que está ali sendo contado nos faça torcer pelo personagem principal e ainda mais em cinebiografias que precisamos de uma empatia criada quase que instantaneamente, e o mérito de "O Jogo da Imitação" é que bem aos poucos essa empatia vai nos conquistando. E não só o roteiro adaptado Graham Moore que desmembra os lados da vida de Turing sem priorizar demais o lado matemático ou homossexual do personagem, mas se hoje sabemos quem é e simpatizamos com o gênio Alan Turing isso se deve muito a interpretação de Cumberbatch o encarnando. O ator já é conhecido por encarnar personagens geniais e analíticos como Sherlock Holmes da série da BBC, mas aqui ele se desgruda dessa imagem que era fadada a repetição e que talvez somente ele seria capaz de interpretar com tanta competência, não só pela experiência com Sherlock, mas porque é um puta ator e ele nos entregou a atuação de sua carreira aqui. 

Se formos comparar cinebiografias, "A Teoria de Tudo" se desmembra dos outros filmes do gênero por empregar um lado legitimamente sentimentalista sem buscar descaradamente as lágrimas do espectador - lágrimas essas que na avaliação final acabam pesando muito -, mas claro, é uma pegada totalmente diferente. "O Jogo da Imitação" ao meu ver só poderia ser construído de uma forma mais simples e direta, mostrando a guerra silenciosa e política que arriscava e salvava a vida de muitas pessoas em escolhas que eram duras de se fazer, e sobre seu homossexualismo, que é abordado numa forma bem simples e bem delicada. No entanto, explorar mais profundamente a vida de Turing seria um acerto e talvez isso traria esse diferencial que faltou no filme. Afinal, esse homem que ajudou a definir o rumo que tomamos na história a partir da metade do século 20 teria muito a nos contar no pós-guerra, e nas suas aflições causadas pela castração química que lhe foi infligida pela sua homossexualidade descoberta logo após de ele, graças a sua invenção, ter salvado milhares de vidas com o fim da guerra. 

Assim, "O Jogo da Imitação" seria muito importante para ser mais uma marca em uma sociedade que em pleno século 21 ainda é tão homofóbica e extremista quanto na época de Turing, lotada de valentões de plantão que por trás da sua invenção aprimorada por Gates, Jobs e Wozniak, confundem liberdade de expressão com falta de respeito.

"O Jogo da Imitação" é uma cinebiografia que não se arrisca em nenhum momento, sendo esse um ponto que divide a avaliação final, já que o mesmo não tem um diferencial que faça o espectador julgar o filme muito acima de tantos outros. Mas sendo uma cinebiografia acima da média e com uma interpretação digna de Oscar, o filme é digno de figurar entre os melhores do ano de 2014. E quem resolveu sair um pouco do ritmo frenético do universo da Marvel e das animações da Pixar e Dreamworks (como eu) teve uma ótima surpresa aqui.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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