Resenha Livro: Deuses Americanos (Neil Gaiman)


O quadrinista e escritor Neil Gaiman sabe como poucos na literatura moderna compreender o desejo que sobrepõe-se nos amantes da leitura, que é o de ser transportado para outro lugar, viajar; sobretudo se transportar para as páginas de seus livros. É praticamente impossível não se simpatizar com os protagonistas de seus romances, sejam eles carismáticos, sejam eles misteriosos. Gaiman é mestre em aliar magia, e mistério, com uma dose juvenil e aterrorizante, pois muitas vezes os demônios estão mais próximos do que pensamos.

Em "Deuses Americanos", Shadow, após a morte de sua esposa em um acidente de carro, é liberado da prisão antes de cumprir totalmente sua pena. Perdido, acaba por conhecer um homem misterioso, chamado Wednesday, que será muito mais importante na vida de Shadow do que ele imagina. Na verdade, Wednesday é um antigo deus, certa vez conhecido por Odin, o Pai de Todos. Ele está percorrendo os Estados Unidos a fim de reunir seus companheiros esquecidos para uma batalha épica contra as divindades do mundo moderno: internet, televisão, cartões de crédito, telefone, rádio... Shadow aceita ajudar Wednesday, e eles se lançam a uma tempestade psicoespiritual que se torna demasiadamente real em suas manifestações. 

Durante a leitura e principalmente ao final dela, ficou explícito o questionamento na minha mente: O que é um Deus? Do que é feito um Deus? Qual sua essência?

Se formos pelo caminho mais simples, Deus é um Ser divino, um pleonasmo, já que divino se relaciona diretamente com um Deus. Divino é um homem que se elevou suas qualidades, suprimiu seus defeitos, se absteve de seus desejos e se sacrificou em algum momento pelo seu semelhante, e este sacrifício talvez seja justamente a supressão de seus defeitos numa fase da própria vida. Numa interpretação breve e direta, Jesus era um ser divino, mas sobretudo um homem, e justamente esta humanidade que o fazia divino, em outras palavras, se elevar. E divindade no meu entendimento não é a execução de uma simples "mágica" como a de transformar água em vinho, mas sim vindo da grandeza espiritual de tratar os semelhantes igualmente e se sacrificar pelo bem do próximo em virtude da fé. Isso é inspirador.

Gaiman em "Deuses Americanos" transpôs bem esse pensamento, de que os deuses na verdade são "gente como a gente". Se vê isso claramente no personagem principal do romance chamado apenas por "Shadow", que entre sua personalidade morta e cheia de ressentimentos de alguém que é tão tranquilo e ao mesmo tempo passa uma imagem tão grosseira, é o ponto crucial em que Gaiman quis nos mostrar que o homem e o divino são a mesma coisa. Pois Wednesday e tantos outros deuses são tão desprezíveis quanto ele.

Numa relação próxima com o livro, aquele cara da funerária, aquele cara dono de motel, ou mesmo aquele cara peculiar que cruzamos na rua pode ser muito bem um Deus personificado, sendo muito mais do que apenas conceitos. Entretanto, principalmente nesta passagem de século, o papel do ser humano e dos deuses tem sido bem alterados. Novos valores surgiram e novos significados também.

Um ser divino pode ser seu amigo batalhador que acorda as quatro da manhã todos os dias e ainda cuida de dois filhos após ele ter perdido a esposa, esse é um bom exemplo de uma força divina e de um sacrifício que sobrepõe a sua vontade. Mas algo divino no mundo moderno são a adoração aos "novos deuses", o smartphone, o computador, a televisão, o dinheiro... tudo que faça por diminuir as relações sociais das pessoas e as faça perder justamente o que as fazem humanas. No livro, Gaiman nos apresenta deuses como Wednesday, Czernobog e Anansi, mas apenas como seres enfraquecidos pela falta de crença em detrimento de tais deuses modernos como os que citei, ou mesmo de outros deuses criados pelos humanos para atender as suas necessidades mais mundanas naquele momento.

"Deuses Americanos" é cheio de metáforas, mas a mais presente é esta. A de que o mundo moderno cada vez mais subjulga o conceito do que é um Deus em favor de um anseio egoísta e de uma cega adoração a imagens, seitas, misturebas religiosas e celebridades que se transformam em verdadeiros deuses contemporâneos. Objetos que cada vez mais roubam a nossa atenção e adoração e fazem os antigos deus do livro definharem chegando próximo ao mais completo esquecimento, o que significa a morte para eles. O livro mostra que os deuses são tão dependentes dos humanos, do que os humanos dos deuses. Em outras palavras, Deus em sua imagem e semelhança não seria absolutamente nada se não fosse a crença e desejo humano em algo que seja sempre maior que a si próprio.

A roadtrip de Shadow juntamente com o cafajeste Wednesday é densa e altamente detalhada com localidades reais dos EUA nos fazendo sentir em uma verdadeira viagem como se estivéssemos sentados no carros juntamente a eles. A pesquisa também se fez presente nos deuses descritos no livro, todos eles com uma rica e misteriosa personalidade, e deuses na sua maioria tão antigos que são da época em que nem se tinha histórias a contar. Como o lendário deus africano Anansi.

"Deuses Americanos" é o livro mais complexo e ambicioso de Gaiman, e infelizmente esse lado da pesquisa e alto detalhamento que são dignos de elogios, também é o que tornou a leitura bem pesada pra mim. Entre a "roadtrip" de Shadow e Wednesday até a cidade de Lakeside onde Shadow acaba se estabelecendo (a força), são capítulos que chegam a serem modorrentos de tão cansativos, e talvez só tenha terminado a leitura justamente pelo mistério que Gaiman deixava em suas metáforas largadas pelo livro e... por ser um livro de Neil Gaiman mesmo, já que os personagens principais do livro infelizmente não tem força e muito menos carisma para carregar a história nas "costas" quando ela se torna menos interessante. Somente a partir de mais ou menos a metade do livro 2 é que "Deuses Americanos" engrena e faz a história de Shadow, que nem é deus e nem humano como ele diz, ficar suficientemente interessante para fazer essa resenha.

"Deuses Americanos" não é o melhor livro de Neil Gaiman que pude ler, mas é um livro bem interessante em que o escritor nos entrega diversos questionamentos sobre o mundo moderno envoltos em um grande mundo de ficção. Coisa que só ele saberia fazer.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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