Afinal, o Rock In Rio tem que ser só de Rock?


Entra ano e sai ano e os mesmos assuntos chatos de sempre "navegam" na internet brasileira: seja o BBB que reflete a nação de fofoqueiros, o funk da juventude perdida, a morte iminente da família brasileira... e e em todo ano que tem Rock In Rio, é de praxe empunhadores de bandeira do rock proclamarem a morte e o boicote do evento dizendo que ele traiu o movimento porque o "Rock" do título não faz sentido algum; só falta dizer que a culpa disso é do PT.

A realidade é que desde a sua criação o Rock In Rio nunca foi somente rock por si só. Vamos dar uma pequena olhada nos line-ups que envolvem as edições realizadas aqui no Brasil:

Em 1985 o evento foi realizado por uma semana, sem parar, do dia 11 ao dia 20 de outubro daquele ano e que priorizou basicamente o rock e a música nacional, contando com vários artistas que fizeram shows em duas datas diferentes, como o AC/DC. Para muitos, essa é a edição mais "rock" que o festival teve. E olhando atentamente para o line-up, há muitos artistas que tem pouco ou nada a ver com o rock, como a Elba Ramalho e o Ivan Lins.

  • Queen
  • Iron Maiden
  • Whitesnake
  • Baby Consuelo e Pepeu Gomes
  • Erasmo Carlos
  • Ney Matogrosso

  • George Benson
  • James Taylor
  • Al Jarreau
  • Gilberto Gil
  • Elba Ramalho
  • Ivan Lins

  • Rod Stewart
  • Nina Hagen
  • The Go-Go's
  • Blitz
  • Lulu Santos
  • Os Paralamas do Sucesso

  • James Taylor
  • George Benson
  • Alceu Valença
  • Moraes Moreira

  • AC/DC
  • Scorpions
  • Barão Vermelho
  • Eduardo Dusek
  • Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

  • Rod Stewart
  • Ozzy Osbourne
  • Rita Lee
  • Moraes Moreira
  • Os Paralamas do Sucesso

  • Yes
  • Al Jarreau
  • Elba Ramalho
  • Alceu Valença

  • Queen
  • The Go-Go's
  • The B-52's
  • Lulu Santos
  • Eduardo Dusek
  • Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

  • AC/DC
  • Scorpions
  • Ozzy Osbourne
  • Whitesnake
  • Erasmo Carlos
  • Baby Consuelo e Pepeu Gomes

  • Yes
  • The B-52's
  • Nina Hagen
  • Blitz
  • Gilberto Gil
  • Barão Vermelho

A segunda edição em 1991, realizada dessa vez excepcionalmente no Estádio do Maracanã, foi realizada do dia 18 ao dia 27 (com uma pausa no dia 21) daquele ano e contou mais uma vez com um line-up forte, baseado no rock e na música nacional, mas que aproveitou também para convidar artistas de outros estilos musicais, projetando um pouco do que veríamos hoje em dia: dias distintos para cada estilo musical.

  • Prince
  • Joe Cocker
  • Colin Hay
  • Jimmy Cliff

  • INXS
  • Carlos Santana
  • Billy Idol
  • Engenheiros do Hawaii
  • Supla
  • Vid and Sangue Azul

  • Guns N' Roses
  • Billy Idol
  • Faith No More
  • Titãs
  • Hanoi Hanoi

  • New Kids On The Block
  • Run DMC
  • Roupa Nova
  • Inimigos do Rei

  • Guns N' Roses
  • Judas Priest
  • Queensrÿche
  • Megadeth
  • Lobão
  • Sepultura

  • Prince
  • Carlos Santana
  • Laura Finocchiaro
  • Alceu Valença
  • Serguei

  • George Michael
  • Deee-Lite
  • Elba Ramalho
  • Ed Motta

  • Happy Mondays
  • Paulo Ricardo
  • A-Ha
  • Debbie Gibson
  • Information Society
  • Capital Inicial
  • Nenhum de Nós

  • George Michael
  • Lisa Stansfield
  • Deee-Lite
  • Moraes Moreira e Pepeu Gomes
  • Léo Jaime

Na terceira edição realizada 10 anos depois que voltava a Cidade do Rock, o Rock In Rio foi realizado do dia 12 ao dia 14 e do dia 18 ao dia 21 de janeiro de 2001, e cresceu e ampliou seus horizontes. Aqui podemos ver claramente o aumento de importância do evento e como ele se transformou de vez em uma marca dando início as críticas do pessoal especializado.

  • Sting
  • Daniela Mercury
  • James Taylor
  • Milton Nascimento
  • Gilberto Gil
  • Orquestra Sinfônica Brasileira

  • R.E.M.
  • Foo Fighters
  • Beck
  • Barão Vermelho
  • Fernanda Abreu
  • Cassia Eller

  • Guns N' Roses
  • Oasis
  • Papa Roach
  • Ira! & Ultraje a Rigor
  • Carlinhos Brown
  • Pato Fu

  • 'N Sync
  • Britney Spears
  • Five
  • Sandy e Junior
  • Aaron Carter
  • Moraes Moreira

  • Iron Maiden
  • Rob Halford
  • Sepultura
  • Queens of the Stone Age
  • Pavilhão 9
  • Sheik Tosado

  • Neil Young
  • Sheryl Crow
  • Dave Matthews Band
  • Kid Abelha
  • Elba Ramalho & Zé Ramalho
  • Engenheiros do Hawaii

  • Red Hot Chili Peppers
  • Silverchair
  • Capital Inicial
  • Deftones
  • O Surto
  • Diesel

Foram seis edições fora do Brasil e mais dez anos até o Rock In Rio voltar para o Rio de Janeiro. A quarta edição entrou pra história por ter esgotado todos os seus ingressos em apenas 4 dias, sendo realizado do dia 22 ao dia 25 de setembro e do dia 29 a 2 de outubro de 2011 e contando com 100 mil pessoas em cada dia por causa da venda controlada, o que impossibilitou público gigantescos como os 470 mil para o Queen em 1985 e os 250 mil para o Iron Maiden em 2001.

  • Rihanna
  • Elton John
  • Katy Perry
  • Claudia Leitte
  • Os Paralamas do Sucesso + Titãs

  • Red Hot Chili Peppers
  • Snow Patrol
  • Capital Inicial
  • Stone Sour
  • Nx Zero

  • Metallica
  • Slipknot
  • Motorhead
  • Coheed and Cambria
  • Gloria

  • Stevie Wonder
  • Ke$ha
  • Jamiroquai
  • Janelle Monáe
  • Legião Urbana (participação especial da Orquestra Sinfônica Brasileira)

  • Shakira
  • Lenny Kravitz
  • Ivete Sangalo
  • Jota Quest
  • Marcelo D2

  • Coldplay
  • Maroon 5
  • Maná
  • Skank
  • Frejat

  • Guns N' Roses
  • System Of a Down
  • Evanescence
  • Pitty
  • Detonautas Roque Clube

Dessa vez quinta edição do evento não demorou muito para acontecer (apenas dois anos) e dessa vez o público foi reduzido a 85 mil pessoas em cada dia.

  • Beyoncé
  • David Guetta
  • Ivete Sangalo
  • Cazuza - O Poeta está Vivo

  • Muse
  • Florence and the Machine
  • 30 Seconds to Mars
  • Capital Inicial

  • Justin Timberlake
  • Alicia Keys
  • Jessie J
  • Jota Quest

  • Metallica
  • Alice in Chains
  • Ghost
  • Sepultura e Les Tambours du Bronx

  • Bon Jovi
  • Nickelback
  • Matchbox Twenty
  • Frejat

  • Bruce Springsteen e The E Street Band
  • John Mayer
  • Phillip Phillips
  • Skank

  • Iron Maiden
  • Avenged Sevenfold
  • Slayer
  • Kiara Rocks

Sendo realizado do próximo dia 18 ao dia 20 e do dia 24 ao dia 27 desse mês, para a sexta edição, como na edições passadas, o Rock In Rio traz quatro palcos (Mundo, Sunset, Eletrônica e Rock Street) dando oportunidade para centenas de artistas nacionais e internacionais, e que ao contrário de muitos penso que há muito rock suficiente para negos balançarem a cabeça. Como no palco Sunset no dia 24 que contará com Lamb of God, Deftones e Halestorm e no dia 25 que terá Moonspell, Steve Vai e Nightwish.

18/09, sexta-feira

  • Queen + Adam Lambert 
  • OneRepublic
  • The Script

19/09, sábado

  • Metallica
  • Mötley Crüe
  • Royal Blood
  • Gojira

20/09, domingo

  • Rod Stewart
  • Elton John
  • Paralamas do Sucesso

24/09, quinta-feira

  • System of a Down
  • Queens of the Stone Age
  • Hollywood Vampires
  • CPM 22

25/09, sexta-feira

  • Slipknot
  • Faith No More 
  • Mastodon
  • De La Tierra

26/09, sábado

  • Rihanna
  • Sam Smith
  • Sheppard
  • Lulu Santos

27/09, domingo

  • Katy Perry
  • A-ha
  • Robyn
  • Cidade Negra

Muitos desde que o tempo é tempo questionam a programação dos dias e a própria escalação das bandas, como ocorreu na edição de 2011 em que o notoriamente menos famoso Glória foi escalado para o palco principal e o Sepultura relegado ao palco Sunset no mesmo horário ou em 2001 em que o Carlinhos Brown foi escalado para o mesmo dia em que tocaria o Guns N' Roses. Pura maluquice que resultou em vaias e copos e garrafas de água arremessados no palco nas duas ocasiões. A partir daí você pode debater se essa foi uma atitude desrespeitosa e que lugar de Glória é na igreja, mas sabendo que o público brasileiro é tao passional, foi um erro crasso do senhor Medina esperar que o povão esperasse quieto um artista que não tem nada a ver com o gosto próprio.

Confusões a parte, o assunto chato que envolve o nome Rock In Rio recentemente foi explicado pelo próprio Medina (como se o povo fosse entender). Em entrevista para o portal R7 ele declarou: “Rock In Rio foi a melhor marca que eu pude pensar quando imaginei o evento. Mas nem eu mesmo era fã do gênero na época. Meu negócio era Frank Sinatra. Aprendi a gostar de rock com o festival. O alvo do Rock in Rio é a família, não o roqueiro”. 

Partindo daí vamos entender melhor o que significa o conceito "Rock and Roll": 

"Rock and roll é o nome de um estilo musical que veio da expressão “rocking and rolling”, que quer dizer “balançar e rolar”. Essa expressão podia significar "dançar" ou "fazer sexo". As suas principais influências são: Blues, Boogie-woogie, Country, Folk, Gospel e ritmos africanos.

Esta expressão designa um conjunto heterogêneo de estilos musicais surgidos a partir dos anos 40 nos meios juvenis dos Estados Unidos e da Inglaterra e que se situam entre o setor mais comercial da música pop e a chamada música culta."


Não precisa de muita pesquisa e conhecimento para saber que "rock and roll" significa balançar e que a palavra não tem uma definição exata, sendo assim, é notoriamente estúpido que continuemos a pensar que o Rock In Rio deva ser sempre só de rock. É como "balançar no Rio" saca? Acho que Medina também pensou a mesma coisa. Na junção de estilos. E "Rock In Rio" soa bem para um festival musical que não busca nenhuma marca para se apoiar.

Em recente entrevista ao portal UOL, ele também revelou que foi motivado a fazer o evento, curiosamente, por causa de uma briga conjugal, onde a sua esposa não querendo ir embora do Brasil o provocou dizendo que ele não tinha feito nada de importante por aqui pra querer sair do país: "Eu fiquei transtornado. Não dormi aquela noite. Fiquei rabiscando na sala, esquematizando tudo. Já estava tudo ali: o nome Rock in Rio, a ideia do local, a abrangência de gêneros", conta. Mas, ao levar a ideia para sua agência de publicidade, as equipes de criação rejeitaram unanimemente suas pretensões. "Aí, foi um trabalho de convencimento que perdura até hoje".

Nos idos de 1980, o empresariado brasileiro era pouco confiável na época e por isso as bandas torciam o nariz para vir aqui, Medina para seu projeto tinha em mente cerca de 70 bandas. Ouviu 70 nãos. Foi aí que Frank Sinatra surgiu. Fã de carteirinha do cantor, Medina ligou para o seu amigo e contou detalhes sobre seu projeto. Ele precisava de um começo. Sem pensar duas vezes, Sinatra resolveu topar dar esse start e promover o evento tocando para cerca de 170 mil pessoas no Maracanã. O sucesso estrondoso que entrou até para o Guinness não deu outro resultado, Ozzy e Queen foram os primeiros a confirmarem a sua presença na lista de chamada de Medina. Resumindo a história, Sinatra sem duvida pode ser considerado o patrono do festival. E aí o que me diz?

A realidade é que o esforço e credibilidade do empresário Roberto Medina em reunir tantos músicos em tão pouco tempo propiciou o que temos hoje, esse boom de bandas internacionais que visitam cada vez mais cidades brasileiras ano após ano, e que nos leva a falência praticamente todo ano, como eu, que vou ao show do Faith No More dia 25 muito porque eles resolveram estender a sua passagem lá pelo Rio aqui por São Paulo também. Algo que aconteceu também com Rod Stewart, Slipknot e System of a Down por exemplo. E que propiciou também que o Brasil fosse capaz de sediar outros festivais, como o Monsters of Rock, o indie Loolapalooza, o de eletrônica Tomorrowland e tantos outros menores ou do mesmo tamanho.

A visibilidade que o evento deu tanto as bandas, como em potencial de investimento que as empresas viram com os públicos gigantescos da época, só alavancou a até então terra de macacos e da selva a ganhar ares de rota obrigatória a banda como Motorhead, Iron Maiden e tantas outras. Pra você ter uma ideia, em pesquisa do governo do Rio o Rock In Rio tem mais visibilidade que a Olimpíada, o Carnaval e o Revéillon para o carioca. Obviamente que podemos e devemos questionar a pesquisa, mas o fato é que o festival que leva o nome da cidade levou o Rio para o mundo. O público de 470 mil para o show do Queen naquele ano entrou para o livro dos recordes e para a história da própria banda. Que músico não queria ter essa emoção de tocar para tanta gente?

Outro ponto que tem que entrar nas cabeças pequenas e ainda não elucidadas é que Roberto Medina é um empresário, e como empresário visa os lucros acima de tudo, algo que qualquer festival ou a quermesse que seu bairro tem, visa também. Então pode parar com seu romantismo. É vital para a sobrevivência para qualquer festival o lucro, ou você acha que pagar o cachê a todo esse monte de músicos e montar toda essa estrutura para receber tanta gente é barato? Além da questão da interpretação do próprio Medina com o nome, a real é que o mesmo público que vai a Katy Perry é o mesmo que ajuda a custear a sua diversão de rockeiro para ver o Iron Maiden novamente...

Entre os anos de 2001 e 2011 Medina transformou o Rock In Rio de vez em marca levando o evento para Lisboa e Madrid levando muitas das bandas que tocaram por aqui e tantas outras nativas daqueles países ao evento. Em março desse ano foi em Las Vegas e o plano continua o mesmo. Aí você me pergunta: "por quê simplesmente não mudaram o nome? Ter o Rock In Rio em Madrid não faz sentido Medina filha da puta!". Bom, não faz muito sentido mesmo, tanto que já fiz muito pipi na foto do Medina por causa disso, mas se você pensar comercialmente tem sim muito sentido. É como relacionar a capa de um livro com um filme. Para o povo mais leigo que não têm contato com a leitura, isso sim faz muito sentido. Se você gostou da história do filme e quiser se aprofundar sabe melhor que livro procurar. Não sou partidário dessa ideia, mas desde a revolução industrial o mundo é feito de business e não adianta xingar muito no twitter.

Costumamos dizer que nada vindo do Brasil dá certo e que somos um país de sofredores e fracassados desde o nascimento. Por trás dessa síndrome de vira-lata e do 7x1 ter um festival que reúna tantas bandas e que sobreviveu por tanto tempo, é sim uma vitória.

Não tenho procuração para defender o Roberto Medina e quem dera se ele tivesse pagado pra mim fazer isso, mas hoje vivemos uma era de escolhas e penso que quanto mais escolhas tivermos na vida melhor. Marvel x DC, Apple x Android, Sony x Microsoft, Exatas x Humanas, PT x PSDB x Nulo... não importa, se você não quiser ver ou consumir, não compre o iPhone e desligue sua televisão e vá dormir nesses próximos dois fins de semana. Aliás, o Wacken e o YouTube estão aí pra isso.

Penso que o desejo do rockeiro brasileiro em tomar algo pra si a partir do momento em que passa a gostar de uma banda, é como um relacionamento doentio e possessivo entre ele e sua mulher. Nessa relação de tapas e beijos, tenho certeza que o babaca que disse que o Rock In Rio é "feito de lixo tóxico" numa caixa de comentários em algum site por aí, é o mesmo cara que aos xingos vai acabar ligando a televisão para ver o o Faith No More e o Metallica pela enésima vez, e se surpreender com o Royal Blood e o Gojira. Não acha?!

Eu faço um mea culpa sobre o assunto, pois como muitos, cai na mesmice da manada e fui partidário da ideia que justamente critico nesse enorme texto. Mas me esclareci, entendi e me conformei. E acho que ter um Rock In Rio por aqui é bem melhor do que não ter.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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