Legião Urbana e a volta dos que acreditamos que tivesse ido...

terça-feira, setembro 01, 2015


Sabe quando um esportista se reluta a parar, mesmo quando seu corpo não suporta mais os esforços e sacrifícios físicos que a sua profissão requere? Bom, cá entre nós que pra qualquer pessoa, sair de uma rotina praticada a quase vinte anos é uma tarefa árdua e penosa. É difícil nos despedir de um amor, mesmo que o vejamos na semana que vem. Então imagine se despedir da sua rotina?

Hoje o lutador (e lenda) Rodrigo Minotauro, ex-campeão do extinto Pride e do UFC, anunciou sua aposentadoria dos ringues aos 39 anos após três derrotas consecutivas. Ok, tá certo que não foram por causa das derrotas. Na verdade, consta que as limitações físicas do lutador foram preponderantes para ele tomar essa decisão, e limitações essas que não só eram naturais pela idade, mas também por complicadas cirurgias que ele sofreu em 2011.

Como você vê neste caso, parar no auge é muito difícil pra qualquer esportista, é como deixar seu grande amor para trás. Há um senso de nostalgia natural construído pelo nosso sucesso e uma força de vontade que se alimenta, mesmo quando o corpo não responde mais. Vejam o caso de Anderson Silva após a fratura, e de Guga que por causa das dores foi forçado a abandonar o tênis.

Pareceu que me desviei do assunto, mas no caso da Legião Urbana a comparação é bem válida. A morte de Renato Russo em 1996 "nos braços" de seu amigo e companheiro de banda Dado Villa-Lobos deixou um buraco na música brasileira e em seus dois grandes amigos. Desde então, Dado e Marcelo Bonfá lutaram na justiça para usufruir livremente do maior patrimônio das suas vidas, o nome Legião Urbana. Ok, é estranho. Mas o filho de Renato, Giuliano Manfredini deteve o nome durante quase 20 anos, contrariando o principal propósito de seu pai que sonhava no mundo platônico de liberdade e sem preconceitos.

No entanto, no final do ano passado, a 7ª Vara Empresarial do RJ deu o seguinte parecer sobre a utilização da marca "Legião Urbana": “foram fundamentais na consolidação do sucesso alcançado pelo grupo e que, portanto, devem gozar dos mesmos benefícios do herdeiro de Renato”: “Por certo, os autores são ex-integrantes da banda e contribuíram durante toda a sua existência, em nível de igualdade com Renato Russo, para todo o sucesso alcançado. Assim sendo, não parece minimamente razoável que não possam fazer uso de algo que representa a consolidação de um longo e bem sucedido trabalho conjunto – reconhecido por milhões de fãs…”

Essa decisão sensata do tribunal abriu o caminho definitivamente para uma "volta", já que os dois músicos remanescentes no fundo relutavam a ideia de abandonar sua principal criação por causa da morte de seu icônico vocalista. Em 2011 os dois arquitetaram um tributo no Rock In Rio com participações de Pitty, Rogério Flausino e Herbert Vianna. E em 2012, juntamente com o ator (e cantor de banheiro) Wagner Moura se apresentaram na extinta MTV num tributo à banda. Essa foi a ultima vez. A trajetória da Legião é muito parecida com a do Queen, que capitaneado por Brian May, compartilha o mesmo sentimento de eterno revival, inclusive com semelhanças entre Freddie e Renato.

Já dei minha opinião favorável sobre essa fase do Queen com Adam Lambert e o tributo da Legião com Wagner Moura nos vocais. Acho que no fundo, como fã, vale o revival, vale a eterna nostalgia; mesmo que a experiência não seja satisfatória. Ver e participar de um show como esse e cantar verso a verso as músicas de duas bandas que marcaram uma geração, é um sentimento indescritível. E penso também que essa força gigantesca é não só importante para nós, mas como para a nova geração, tão carente de ídolos e músicas que lhe façam carregar um sentimento que lhe proporcionem ter uma memória ativo sobre aquele momento, mesmo que visto somente pela televisão. Tipo "olha que puta show!". Penso que Renato e Freddie são entes insubstituíveis, e forçar ou cobrar um padrão que seja semelhante e/ou igual ao nível que os dois alcançavam, é uma tarefa não só injusta aos novos vocalistas, como até um desrespeito ao talento de cada um dos dois novos integrantes.

Antes que o rebuliço comece, é bom deixar claro que a nova formação composta por Dado e Marcelo, e Lucas Vasconcellos, o Formigão, também baixista do Planet Hemp e André Frateschi nos vocais não anunciou um novo álbum ou mesmo uma nova composição, o que faria as críticas e elogios serem mais fundamentados. Mas tal qual o Queen que saiu em turnê com Adam Lambert, a Legião Urbana sairá em turnê para promover as antigas músicas, atiçando a antiga nostalgia nos órfãos fãs da banda e satisfazendo o desejo dos antigos integrantes de homenagear de alguma forma a memória de Renato Russo.

Porém, tal qual como o Queen, a reconquista da marca Legião Urbana abre um precedente perigoso de se aventurar nas ideias de um possível recomeço. Em suma, a aventura de compor novas músicas sob o velho nome e a velha lembrança de Renato Russo por trás. O que "mexeria em vespeiro" nos ideais desse mesmos fãs, como eu, que recebem com os braços abertos esse revival realizado pelo Dado e pelo Marcelo,

Como Minotauro, é fundamental saber a hora de parar, de zelar por um nome, uma marca; e no caso da Legião Urbana e do próprio Queen, uma entidade. É difícil parar no auge, e parece que ainda mais no caso de uma fatalidade. É um sentimento humano natural de revisitar seus grandes momentos e de almejar novamente o topo. As mortes de Freddie e de Renato são as dores que merecem serem superadas, e sendo superadas, elas merecem uma celebração; e na verdade, a música por si só, é imortal. Mas esse sentimento nostálgico não pode ultrapassar a fronteira que prioriza o bolso, o que tornaria as duas bandas apenas um cover eterno de si mesmas, trazendo o sentimento contrário, de repulsa e decepção por um retorno que não foi só uma singela "homenagem". Esse é meu principal receio.

Mas apesar de tudo, Legião Urbana, seja bem vinda de volta!

Vamos ver o que sai daí.

*Atualização: Dado Villa-Lobos declarou ontem na sua fan-page no Facebook de que a "reunião" é apenas uma turnê comemorativa dos 30 anos do primeiro álbum da banda, descartando qualquer tipo de volta e declarando aos mais alvoroçados: "Como já dissemos inúmeras vezes, a Legião - como banda - acabou junto com a morte do Renato, em 1996. E, ninguém pode substituir o Renato. Único e insubstituível". Além da comemoração, a turnê e o relançamento é uma proposta conjunta com a Universal Music, que sabendo da recuperação dos direitos da dupla sobre o nome da banda, o relançará remasterizado juntamente com faixas raras, datadas da primeira demo em 1983.

Bom, feita a atualização, seja bem vinda de volta Legião Urbana. "Vamos celebrar a estupidez dessa nação", como diria Renato Russo!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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