Resenha CD: Motörhead - Bad Magic

sexta-feira, setembro 04, 2015


O Motorhead é uma das pouquíssimas bandas que a gente não cobra nem um pouquinho de inovação e criatividade entre seus álbuns, basicamente eles vão lá fazem seu arroz com feijão temperado, o rock n' roll como Lemmy diz no alto de sua humildade, e pronto. A única coisa que cobramos do da banda, é que eles sejam pesados e rápidos. Isso é o bastante para ficarmos felizes.

O que tento dizer é que vocês não têm a dimensão da dificuldade em resenhar um álbum do Motorhead. Como fã, acabo sendo redundante, só que não só por isso, mas porque a própria banda o é. Na verdade, criticar um álbum é dizer seus pontos fracos comparando um ao outro, só que no caso do Motorhead, os trabalhos são tão parecidos que ultrapassam o limite de "ser uma banda". É partindo daí que tenho a ideia de que o Motorhead não é somente uma banda de rock n' roll, é uma ideologia.

"Bad Magic" é o 22º segundo álbum do Motorhead e mostra que a criatividade do grupo ainda anda em alta, mesmo que esse não seja o melhor álbum da banda na década. A virada de bateria de "Victory or Die" e o single intenso "Thunder & Lightning", por exemplo, inauguram o álbum quebrando tudo como sempre, deixando bem claro de que é o Motorhead que está ali e Lemmy ainda está na linha de frente como toda a garra e a intensidade que marcaram a banda nesse mais de trinta anos. Porém, em doses bem mais contidas. É como se a cozinha de Mikkey Dee e Phil Campbell estivesse em perfeitas condições, limpa e organizada; mas o cozinheiro, adoentado, não tem mais condições de confeitar, só de assar um simples bolo de chocolate. Entenderam o que quero dizer? Por exemplo, "Tell Me Who to Kill" é uma faixa espetacular, alta e intensa como o Motorhead sempre fez, mas a voz do Lemmy simplesmente não acompanha.

Mesmo com Lemmy já capengando há tempos, trocando a vodka pelo seu suquinho de laranja e em cada entrevista deixando o assunto da música de lado em favor de como ele está na resposta de cada pergunta, Lemmy não desistirá de tocar e levar o Motorhead pelo mundo. São suas palavras e "Bad Magic" é mais um de seus gritos de guerra. Mas o ponto fraco de "Bad Magic" e talvez de toda carreira do Motorhead é justamente esse.

Não vou ser leviano em negar que a idade pra todo mundo pesa e muito e a gente muda muito - vide eu e muita gente já chegando aos 30 anos e vendo os cabelos indo pelo ralo. É estupidez pedir que o meu vocalista predileto cante com o mesmo de timbre de 10, 15 anos atrás, vejam James Hetfield no Metallica e Dave Coverdale no Whitesnake, por exemplo. O tempo é a evidência mais clara de como a idade chega pra todos, mesmo que esses pareçam nunca envelhecer para nós. Contudo, não é preciso voltar muito, na verdade até 2013 quando "Aftershock" foi lançado, e nem ter o ouvido tão bom assim para ver que Lemmy não tem mais força para soltar aquela voz como um trovão que amamos.

Compreendo perfeitamente que Lemmy tenha decidido literalmente morrer em cima do palco empunhando sua clássica Rickenbacker, até porque todas as pessoas tem o direito a escolher como vivem e como irão morrer, mas é preocupante ver que a condição deteriorada de sua saúde não lhe deixa tocar três músicas com a banda, a fazendo cancelar shows ou parte da turnê. Penso que um show é um momento de alegria de ver sua banda predileta tocar na sua frente, em outras palavras, de poder presenciar seu ídolo em carne em osso como no melhor dos seus sonhos nos fazendo sorrir mesmo com as nossas carteiras totalmente esvaziadas. Mas apesar de todas as desculpas de Lemmy por ter sido forçado a abandonar o show, trocamos essa alegria imensa por uma preocupação igualmente imensa. Talvez seja forçar demais, mas chega a ser patético de tão triste. Não queremos ver o Motorhead dessa forma, por mais que o sacrifício do Lemmy mostre mais uma grande parcela de sua humildade em entender que os fãs são grande parte do que o motiva a sua música e a própria vida.

Não me entenda mal, não o quero ver como um bom aposentado sentando em sua poltrona tomando seu suco de laranja natural, na verdade "Bad Magic" mostra que o Motorhead ainda tem lenha pra queimar e que o quase setentão Lemmy tem muito mais atitude do que alguns marquinhas de trinta. O álbum é o que o Motorhead pode oferecer no momento e os fãs ficarão muito felizes (como sempre) com isso. Mas é muito triste pra mim numa resenha, ser praticamente forçado a deixar a música de lado em favor de comentários sobre o estado de sua saúde. Assim como ele próprio é forçado nas suas entrevistas a tal coisa. =/

Bom, se "Bad Magic" eventualmente for a despedida, foi em grande estilo.

Tracklist: 

01. Victory Or Die
02. Thunder & Lightning
03. Fire Storm Hotel
04. Shoot Out All Of Your Lights
05. The Devil
06. Electricity
07. Evil Eye
08. Teach The How To Bleed
09. Till The End
10. Tell Me Who To Kill
11. Choking On Your Screams
12. When The Sky Comes Looking For You
13. Sympathy For The Devil

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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