Resenha Show: Faith No More (Espaço das Américas 24/09/15)


O Rock In Rio trouxe muitos benefícios pra quem mora em São Paulo. O fato é que a Live Music Rocks em parceria com a Budweiser trouxe pra cá boa parte do line-up rock do evento e o que aconteceu é que tivemos uma extensão do Rock In Rio aqui em São Paulo: Queen + Adam Lambert, Faith No More, Mastodon + Slipknot, Deftones + System of a Down e da parte pop Katy Perry - sem contar o Rod Stewart que deu uma passadinha na arena palmeirense, em um curtíssimo espaço de tempo fizeram a alegria dos paulistas, que em contrapartida deram uma banana para o evento carioca e diminuíram um pouco da importância e da inveja que os paulistas poderiam ter do mesmo.

O fato é que tanto show em um tão curto espaço de tempo, a não ser que você viaje de helicóptero, facilmente poderia levar a falência um jovem trabalhador paulistano. Vontade não me faltou em ir em praticamente todos esses shows. E por mais que exista gente que tem o dedo atolado no orifício anal e que no alto da hipocrisia vai pro barzinho da esquina beber o tanto que a gente gasta no ingresso de um show internacional, a experiência de voltar pra casa podre de cansado estando a metros de seu artista favorito sempre é única e insubstituível.

Era tanto calor que parecia que a fila era em direção a uma caldeira!

Faz parte da experiência de um show chegar horas antes pra guardar o melhor lugar na fila, afinal é a boa e velha pista. E sobre isso foi sofrido, o calor desértico paulistano que facilmente batia a marca de 35ºC, foi um teste hercúleo pra qualquer fã capaz de queimar as bundas alheias que sentavam na calçada (caso da minha namorada). Bem depois que o sol abaixou e a noite subiu, por volta das 20h finalmente os portões se abriram pra gentalha que não teve grana pra pagar a pista VIP e com ingressos nas mãos, caiu a ficha de que o grande momento estava acontecendo.

Localizado em frente ao Memorial da América Latina, da estação Barra Funda, e próximo ao estádio palmeirense, o Espaço das Américas foi a casa de shows escolhida para sediar a passagem do Faith No More aqui no Brasil, e me agradou tanto quanto me surpreendeu. Pro pessoal que mora na ex-terra da garoa ter uma ideia, o local bate de frente com a pompa do HSBC Hall. Lindo e bem espaçoso, a casa contrariou muito do que eu pensava, até porque a própria fachada do local em nada condiz com o que tem dentro, dando razão pra dito popular de que é "só fachada" mesmo.


A tortura chilena que Mike encomendou 

Lá pelas 21h, após muita espera minha e uma ida ao banheiro, o grupo chileno "Como Asesinar a Felipes" subiu ao palco juntamente com as lonas por cima dos instrumentos do Faith No More para apresentar seu repertório.

Como a casa se chama "Espaço das Américas" não sei afirmar ao certo se foi uma exigência da casa em comum acordo com o Faith No More de apresentar a banda chilena na abertura de seu show, mas o que fica claro pra todos que ouviram o grupo chileno, é que foi uma escolha direta de Mike Patton. O homem das mil vozes já deu voz ao "Mr. Bungle", "Fantômas", "Pepping Tom", "Mondo Cane"... e todos esses projetos tão singulares tem uma coisa em comum: são as coisas que você menos espera. Então pra quem já escutou esses projetos de Mike sabe que ele tá pouco se lixando em ser conveniente.

Dentre seus milhares de projetos, um que se destaca e da qual Mike dedicou muito de seu tempo em que esteve livre do FNM foi o "Fantômas", e foi esse projeto que me lembrei ao escutar o "Como Asesinar a Felipes" naquela noite, e se for pra definir os dois num só termo é que os dois são "anti musicais". Entretanto, fazendo uma analogia em seus nomes, eles guardam sua principal diferença. O Fantômas no meio de toda a confusão ainda guarda uma musicalidade incomum, a banda chilena não, e talvez o nome que a batize demonstre isso claramente. Oras, batizar uma banda assim é triste.

Difícil é precisar o estilo do grupo, passa pela minha cabeças vários nomes, mas o que facilita é dizer que eles parecem uma banda em que cada um toca seus instrumento independentemente do seu colega e até de forma errada. É muita informaçãa, tanto informação que em diversas vezes o vocal precisou dizer "gracias" a toda vez que terminava uma musica! Bom, o que "salvou" a apresentação, foi que o grupo foi bem carismático e pareceu entender bem o quão eram complexos pro público, que correspondeu da mesma forma, aplaudindo o grupo ao final de cada musica sem vaias ou xingamentos. Algo louvável e raro dentre o público brasileiro, que facilmente confunde falta de respeito com preferência pessoal.


Mike Patton e a gentil arte de fazer inimigos

A banda não foi pontual, mas não foi nenhum Guns n' Roses. Com um palco todo branco e lotado de flores deixando aquele clima "macumbeiro" que a banda fez questão de reiterar, o show estava marcado para às 22h, porém lá pelas 22h20 o Faith No More subiu ao palco com a ovação do público presente. E de cara "Motherfucker" foi a escolhida para abrir os trabalhos de um show inesquecível.

Naturalmente o recente e excelente "Sol Invictus" tomou cerca de 30% do setlist escolhido para São Paulo e apertou ainda mais a já a concorrida setlist recheada de clássicos. Desse álbum a já citada e candidata a hino "Motherfucker", o potencial clássico "Superhero", a excelente "Matador" e as não menos legais "Sunny Side Up" e "Separation Anxiety" marcaram presença e mostraram que são capazes de estarem frequentemente nos shows da banda.

O público não parou um minuto de cantar e Mike entre seus "brigado" canastrões não parou de desfilar clássicos um atrás do outro, sem respiro. Do inquestionável "Angel Dust" a banda desfilou "Caffeine" (com direito a veia saltada da testa de Mike), "Everything's Ruined", "Land of Sunshine" e "Midlife Crisis" com igual ovação e carinho do público - e como já é tradição, sendo que nesta última com direito a "porra caralho" orquestrado por Mike e microfone apontado para a plateia segurar o refrão a plenos pulmões "You're perfect, yes, it's true. But without me you're only you. Your menstruating heart. It ain't bleedin' enough for two. It's a midlife crisis". Rendeu aplausos do Mike é claro.

E falando em tradições, assim como ocorreu no SWU de 2011, Mike Patton soltou o verbo para cantar a deliciosa "Evidence" do álbum "King For a Day, Fool For a Lifetime" em nossa língua natal: "Se queres abrir o buraco, baixa a cabeça e aí está. Afasta bem tua cor de circunstância, afasta hasta [sic] teu sabor de evidência...". A parte emocionante ficou a cargo com "Easy", o lindo cover do "Commodores" (o grupo do Lionel Ritchie lá dos anos 80), e do ótimo "Album of the Year", coube a incrível "Ashes To Ashes" levantar o público já exausto de tanto cantar.

O encore ficou a cargo das inesperadas "Crab Song", do cover do Bee Gees "I Started a Joke", e da clássica "From Out of Nowhere", que juntamente com "Epic" marcou a presença do álbum "The Real Thing" no show. 

Me passa a impressão de que essa década longe dos palcos fizeram muito bem ao Faith No More, então não podemos esquecer de parabenizar quem faz a banda junto com o já senhor Mike Patton: o tecladista e um dos principais compositores da banda, Roddy Bottum, preciso em seu jeito "que toca para música"; da cozinha formada pelo baterista Mike Bordin e o baixista Billy Gould carregando cada vez mais groove e intensidade, e o subestimado guitarrista Jon Hudson que desde 1996 vem segurando as pontas nas seis cordas deixadas pelo carismático Jim Martin. 

Tendo mais de 20 de atividade louca e extrema, o Faith No More tem adotado um ritmo bem mais direto que em décadas anteriores em que eram frequente as pausas para as maluquices de Patton. Mas isso não é ruim e nem denota que a banda tem sofrido precocemente com a idade. O fato é que a experiência expõe uma banda cada vez mais segura no palco, segura de suas músicas e segura de seu poder em cativar o público o que quer que faça. Poucas bandas chegam a esse ponto da carreira com o poder que o FNM tem. 

Como disse, o setlist é apertado para mais de 1h, e de primeira, a que senti falta e que me enlouqueceria ao vê-la sendo tocada ao vivo é "The Real Thing", mas ao chegar em casa me lembrei de mais algumas que poderiam estar facilmente no show: "Cone of Shame", "A Small Victory", "Collision", "King For a Day", "Last Cup of Sorrow"... Sempre há aquele espacinho vazio e o desejo no coração ao final de todo show de a banda não ter tocado "aquela música". Bom, sinceramente era preciso de três horas de show pra tanta música boa... E esse foi exatamente o sentimento de cada um ao término da apresentação, como um cara ao nosso lado disse: 

"Puta que pariu, eles poderiam tocar por mais três horas". 

Até logo Faith No More. Foi épico. Com o perdão do trocadilho.


Setlist:

Motherfucker
Land of Sunshine
Caffeine
Everything's Ruined
Evidence (Portuguese version)
Epic
Sunny Side Up
Midlife Crisis (com interlúdio Boz Scaggs "Lowdown")
Chinese Arithmetic (trecho de Meghan Trainor "All About The Bass" )
The Gentle Art of Making Enemies
Easy (Commodores cover)
Separation Anxiety
Matador
Ashes to Ashes
Superhero

Encore:

The Crab Song
From Out of Nowhere
I Started a Joke (Bee Gees cover)
Raindrops Keep Fallin' on My Head (Burt Bacharach song)

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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