Resenha CD: Iron Maiden - The Book of Souls


Gostos ou preferências mudam com o tempo, isso faz parte da inevitabilidade da vida. Talvez você possa me dizer que não existe alguém que muda de time, de religião, ou mesmo sobre o paladar. Sim isso é verdade. Mas há exceções como em tudo na vida.

Claro que sobre comida o nosso estômago e nossa língua nos diz mais o que é bom ou ruim do que a nossa mente e é preciso de uma força de vontade gigantesca dela pra controlar a nossa gula, por motivos estéticos ou de saúde, porém, no que diz respeito a religião e futebol, a preferência se define melhor como puro fanatismo e formação de caráter, afinal poucos são Católicos ou Corintianos por escolha. Eles simplesmente foram educados a ser assim porque é "melhor". A música, o rock em geral tem muito a ver com isso. Quando fui procurar o heavy metal já fui condicionado a escutar Metallica e Iron Maiden e a ver as duas bandas como as melhores do mundo porque o clamor popular me educou assim, e porque bom, como não conhecia tanto do meio as duas bandas foram um começo pra mim. 

Então na parte que falei da formação de caráter, a disposição em sair da linha comum exerce justamente a força do caráter dentro de nós. A mera concordância em ser curioso, em testar coisas diferentes, escutar, provar, conhecer. Isso nos faz mudar de religião, ou simplesmente deixar de ter uma, e até mudar de time se você ainda estiver disposto a gostar de futebol, e no caso, mudar as preferências de bandas. O tempo se passou e justamente pela curiosidade, Metallica e Iron Maiden já não eram as melhores bandas pra mim, hoje não passam nem perto. A digna obra do passado não encobre os deslizes do presente, e o instrumental das duas bandas, não me fascina tanto mais quanto antes. Resumindo, o fanatismo por A ou B me enoja e uma boa porcentagem dos fãs de rock não sabem apreciar o rico estilo que têm entre os dedos.

Bom, já estou me estendendo muito mais do que deveria, mas gosto de deixar bem claro as coisas e expor o porque das minhas preferências pessoais. Mas essa é uma resenha e tenho que me ater mais a esse assunto, o assunto é tratando do novo álbum do Iron Maiden "A Book of Souls".

Vou pular a parte da comoção porque todos sabem como é. 

Primeiramente "The Book of Souls" não é um álbum curto, são incríveis 1h30 de duração divididos em um álbum duplo em que é necessário várias audições para absorver tudo o que ele tem a oferecer. Partindo daí "bora" para a análise.

Com certeza o Iron Maiden a cada lançamento desperta a curiosidade geral, desde os fãs (obviamente) até os que apreciam o estilo em geral e nem tem o Iron Maiden entre suas preferências e ouvem falar da banda como se ouve falar o nome de um político. Então com certeza se você compartilha desses perfis, ouviu os últimos trabalhos sofríveis da banda: "Dance of Death", "A Matter of Life and Death" e "The Final Frontier" que buscavam um lado mais progressivo da banda, mas que só serviam pra o Eddie decorar mais camisetas por aí. Eram vários álbuns, mas sempre o mais do mesmo como se a banda funcionasse no automático. O ponto em que o Metallica funciona atualmente.

Para mim o Iron Maiden nunca se caracterizou em ser progressivo, em ser lento ou cadenciado, inventivo ou conceitual. Posso não ter muita propriedade em falar isso, mas conheci o Iron Maiden como uma banda crua e direta, com suas "cavalgadas" características na guitarra e dinâmica em seu jeito de tocar. A banda tinha perdido isso nos laçamentos passados, mas retomou aqui, o que devolve um pouco da empolgação que tenho em ouvir um "arroz com feijão" bem feito.

2015 chegou, e parece que a lua e até a doença de Bruce Dickinson (câncer na língua), fizeram a banda refletir sobre seu caminho e ter coragem pra novos passos. E "The Book of Souls" é um novo passo e corajoso. 

Sem a ingerência do sargento Steve Harris e seu baixo em todas as músicas, deram ao Iron Maiden o espaço que ele precisava pra respirar, dividir responsabilidades, composições e o equilíbrio necessário que a banda precisava para retomar um caminho que não fosse a repetição. Essa qualidade se comprova não só pelas composições inspiradas, mas também pelo fato de que um álbum longuíssimo que "The Book of Souls" o é, acabar não se tornando cansativo em nenhum momento. São onze músicas no total. Todas beirando os cinco minutos e três ultrapassando os dez minutos. Epicidade é a proposta.

O álbum começa com o "If Eternity Should Fall" e o single (de clipe legalzudo) "Speed of Light" duas músicas de refrões grudentos típicos do Iron, na verdade o que eles melhor sabem fazer. Mas não deixe se enganar por aí, na verdade é partir desse ponto é que a coisa começou a ficar animada e meus ouvidos levantaram. O baixo e a voz quase falada de Bruce Dickinson anunciam a grande música que está por vir, e logo ela prenuncia justamente o equilíbrio que disse. "The Great Unknown" é uma grande faixa, é o lado "moderno" que a banda implementou nos últimos anos juntamente com o lado clássico que tantos saúdam. E sobre esse lado mais clássico da banda "When the River Runs Deep", "Death or Glory" (essa tendo um grande potencial a virar hino nos shows) carregam esse espírito consigo. 

As grandes peças com mais de dez minutos de duração são também destaques do álbum, a característica "The Red and The Black" (que traz aquele oôoôooooo característico), a maravilhosa "The Book of Souls" e a épica "Empire of the Clouds" com seu piano acompanhando a voz de Bruce e as trombetas soando no épico de pouco mais de 18 minutos - aliás essa música vislumbro com uma orquestra acompanhando à la Metallica no S&M. Mas as grandes peças do álbum são a "The Man of Sorrow", justamente porque é o ponto mais fora da curva do álbum (excelente por sinal), e a "Tears of a Clown" que é uma bela homenagem, uma bela música e um belo solo para as lágrimas do palhaço de Robin Williams e seu suicídio por causa da depressão que se acometeu em sua vida. 

Todas essas faixas fazem "The Book of Souls" ser uma grata surpresa pra mim e me forçam a dar o braço a torcer elegendo o álbum como um dos melhores lançamentos de 2015. Quem diria que eu dissesse isso um dia...

Muito se lê por aí que a Donzela de Ferro iria encerrar as atividades; e partindo dessa ideia é muito prazeroso ver uma banda ainda com tanto tesão de tocar no ponto da carreira em que estão, o que nem acreditava. Sobretudo fazendo alguém que tinha se desiludido com a banda e relegado a ela uma importância somente histórica, recuperar um pouco do brilho e do meu prazer em escutar um bom heavy metal. 

Tomara que o Metallica siga o mesmo caminho...

Tracklist:

Disco 1

1. If Eternity Should Fail
2. Speed of Light
3. The Great Unknown
4. The Red and the Black
5. When the River Runs Deep
6. The Book of Souls

Disco 2
1. Death Or Glory
2. Shadows of the Valley
3. Tears of a Clown
4. The Man of Sorrows
5. Empire of the Clouds

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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