Resenha Série: Demolidor (1º Temporada)


O conceito do herói

Entendo que os heróis e os vilões são separados por uma tênue linha onde as atitudes tomadas são as responsáveis por separarmos o papel de cada um na história. Um exemplo bem claro está na relação entre o Batman e o Coringa. Como esse próprio explicita, os dois no fundo são apenas loucos, foras-da-lei mascarados, e um depende do outro para a sobrevivência de seus papéis, o de herói e o de vilão - se é que o Coringa pode ser enquadrado através da vilania no sentido mais puro, quando na verdade o que o cara que "é ver o circo pegar fogo". Pra mim o heroísmo, quando ele é apenas um sentimento humanamente puro de justiça, ele é apenas um... sentimento no final das contas. Há também um sentido de prazer e de preenchimento no que Bruce Wayne se dispõe a fazer, e sabemos muito bem que ele podia muito estar se ferrando pra tudo isso. A ética acaba escondendo o desejo da morte e ao mesmo tempo acaba suprindo o sentimento de Bruce de ser necessário, de novo e de novo.

Sobre a relação entre o herói Matt Murdock e o vilão Wilson Fisk, em suma, entendemos pela série da Netflix que no final das contas os dois são movidos por um mesmo sentimento, o de transformar e melhorar Hell's Kitchen, a Cozinha do Inferno. Mas ao contrário de Batman e Coringa, os dois vivem essencialmente nas sombras. As atitudes tomadas são as responsáveis por separá-los em seus devidos papéis, e o mais importante que a série explicita de forma genial, a criação dos dois é a principal responsável pela forma em que dois tentam trazer a tal melhora ao bairro, todavia a forma de conseguir isso passa diretamente pela quebra da moral - as tais atitudes que disse.

E aí a questão da forte ligação religiosa entra em jogo nas poucas participações, mas sempre regadas com fortes diálogos entre Matt e o padre Lantom. Afinal, a quebra da sua moral (matar Wilson Fisk) passa diretamente pela motivação maior de Matt que é de fazer justiça melhorando a vida de todos no bairro. É o velho dilema que faria o Demolidor acabar se enquadrando na categoria de Frank Castle, o Justiceiro, que não mede consequência alguma pra alcançar seus objetivos, só que agindo da forma contrária, inevitavelmente e infinitamente cairia-se na velha história de mocinho e bandido. Acaba sendo preciso se libertar das amarras que a moral impede se quiser fazer justiça, mas como fazer se o desejo tornar-se maior do que sua mente? Matt exala esse medo no início de sua jornada como o justiceiro mascarado, se enchendo de ódio quando vê pessoas queridas sendo mortas por Fisk.

A Cozinha do Inferno e seus personagens

Pra quem ainda não se situou, primeiramente a Cozinha do Inferno é um lugar fictício de Nova York, o que significa que Os Vingadores passaram lá pertinho. E apesar de a série não deixar claro (mas dar várias dicas ao longo dos episódios), a invasão alienígena de Nova York no primeiro filme dos Vingadores afetou diretamente o bairro e vida de todos, proporcionando o "reinado" de Wilson Fisk (Vincent D'Onofrio) que aproveitando a desvalorização e consequente criminalização do bairro, dominou os imóveis, a mídia e a polícia, se tornando um homem impossível de se tocar.

No primeiro episódio (felizmente bem rapidamente) conhecemos o menino Matthew Murdock (Charlie Cox) que ficou cego após um acidente com um caminhão que carregava produtos químicos. Esse acidente lhe proporcionou o aumento de seus sentidos, principalmente a audição, que o tornou capaz de por exemplo escutar os batimentos cardíacos dos inimigos além de conseguir identificar pessoas pelo olfato e de ser capaz de ler somente com os dedos, sem ser em braille. O nome Demolidor veio da forte relação que ele tinha com seu pai, Jack Murdock, que tinha esse apelido como boxeador que era, mas ao contrário que Matt pensava, Jack não era um vencedor. Pelo contrário.

Com a corrupção tomando conta de Hell's Kitchen, era comum Jack vender as suas lutas mascarando suas derrotas por troca de um bom dinheiro, e numa dessas ocasiões, Matt com seu sentido aguçado acaba escutando o trato de Jack com seus agentes de que venderia a sua próxima luta, mas ele reluta e acaba vencendo e se matando logo depois por dessa vez ter feito uma promessa para Matt. Bom, a série não deixa claro, mas deduzo que provavelmente Matt se sentindo culpado pela morte de seu pai - como ele acaba confessando em um dos episódios - põe a prova suas habilidades e seus sentidos em busca de fazer de Hell's Kitchen um lugar melhor. E ainda dentro desse assunto, é marcante a cena de Matt assistindo a vitória do pai mas sendo revelados somente os sons para nós espectadores, isso ajuda a passar a sensação que Matt sentiu ao ver aquela luta.

Falando das suas habilidades, a sua super-audição requer concentração, e o papel do sensei cego Stick (Scott Glenn) é fundamental para essa busca. Lembra-se dos medos de Matt em abandonar a sua moral para concluir seu objetivo? Stick vai ao orfanato em que Matt está e não tem dúvidas (talvez sabendo de antemão de seu dom) em treiná-lo. O objetivo de Stick é que Matt nunca se sinta inferiorizado pela sua condição usando a dádiva a seu favor, canalizar seus poderes para se transformar para a guerra que está por vir (entenda-se guerra como as organizações criminosas que dominam Nova York) com o intuito de transformá-lo em um expert em artes marciais puro e livre de qualquer infecção externa, o que significa deixar totalmente de lado sentimentos como amor, a raiva e a própria moral para concluir sua missão. Mas a principal decepção para Stick é justamente essa, Matt "ainda é um humano".

E daqui é preciso dar um grande "salve" para Scott que está magnifico como Stick e deu uma verdadeira aula de como interpretar alguém cego. Claro que Charlie Cox é também magnífico como Matt Murdock e está infinitamente melhor que Ben Affleck na mesma posição, mas o que Scott Glenn faz é fazer você esquecer de que ele enxerga e de Pai Mei e Sr. Miyagi como o sensei mais fodástico que você já viu. A luta entre ele e Matt após um desentendimento lembra muito a luta de Morpheus e Neo em Matrix "pare de tentar me acertar e me acerte". Claro que sem os voos. =D

Os sentimentos de Matt são guardados para seu grande amigo Foggy Nelson (Elden Henson) e sua recém adquirida braço direito e fundamental para história Karen Page (Deborah Ann Woll), que trabalhava numa das empresas de construção de Wilson Fisk e acabou descobrindo toda a merda, acabando com seu confidente morto no chão do seu quarto e agenciada pelos iniciantes na advocacia Foggy e Matt. Foggy, o grande amigo de Matt, foi colega de quarto na época da faculdade e é grande responsável pela parte cômica da série e do lado humano de Matt, do lado que ainda é capaz de se divertir e de se desligar um pouco das suas responsabilidades.

Se Scott Glenn está magnífico como Stick, então o que dizer de Vincent D'Onofrio como Wilson Fisk? Predominantemente assustador e devidamente educado e elegante como um bom vilão deve ser, Vincent personifica um Fisk envolto em dramas pessoais e atormentado pelo passado.

Wilson Fisk é exatamente como seu pai era, ganancioso, visionário e violento, que não mede esforços para adquirir o tal respeito que ele valoriza tanto - talvez porque Bill sabia que era uma piada entre seus vizinhos. Ele não queria que o filho fosse dessa forma, portanto ele sempre encorajou Wilson a sempre ter coragem, e que nunca deixasse que ninguém o desrespeitasse. E eis que alguém o desrespeitou na escola. Foi ai que Bill ensinou os modos que Wilson levou para a sua vida adulta e o que o motivou a fazer o que fez com seu pai. Bill Fisk definiu o monstro que Wilson é, tímido e resguardado no seu próprio ódio. Um passado negro como seu próprio armário de ternos.

Alguns momentos para não ser Matt Murdock e ver com atenção

Tanto para Stick como para Foggy e Fisk, um dos grandes méritos de Demolidor é a devida importância dada a cada um de seus personagens, e a construção lenta e precisa do próprio herói - que somente revela seu traje vermelho característico no último episódio da série - e de coadjuvantes que realmente se tornam peças-chave no prosseguimento da história. Exemplos básicos são o sétimo episódio "Stick", o oitavo "Shadows In The Glass" e o décimo "Nelson Vs Murdock", todos excelentes episódios e fundamentais para entendermos as motivações dos dois lados da história. Do "soldado" Stick e sua iminente guerra, de Matt e Nelson em fazer justiça, e de Fisk que justifica seus atos pelos problemas familiares que teve na infância.

As lutas encarnadas pelo Demolidor são viscerais, muito bem coreografadas e extremamente criveis, e sobre isso é bem capaz de você sentir dor ao ver a série do sofá de casa! Temos um Demolidor que é perito nas artes marciais, mas exceto sua audição, é sobretudo um humano. Ele se machuca, ele se quebra, ele manca, ele grita, ele sofre, e ele sangra como nunca. Até tem uma enfermeira achada por ocasião, Claire Temple (Rosario Dawson) que vira sua primeira grande confidente.

Se você não entende muito bem o que estou dizendo, preste atenção em dois episódios em especial: o segundo "Cut Men" em que Matt resgata um menino sequestrado pelos russos e tem a cena mais empolgante da série que é a luta no corredor, digna do diretor de Oldboy levantar e aplaudir. E o nono episódio, "Speak In The Devil", onde Matt luta com o ninja Nobu (Peter Shinkoda) e acaba sofrendo literalmente com suor e sangue para vencê-lo. Aliás, esse é um momento crítico da história em que Matt pela primeira vez fica frente a frente com Fisk e acaba enfrentando o seu maior dilema, que é sobrepor a sua vontade sobre a sua moral.

A parceria perfeita entre Marvel e Netflix

Ao ver Demolidor, de primeira, a primeira coisa que pensei é que não haveria melhor lar para a Marvel dar a seus heróis de segundo escalão. A escolha de justiceiros como Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage para a Netflix deu aquela sensação de claro "experimento", afinal, porque a Marvel se renderia a Netflix se ela tem "Agents Of Shield" na enorme ABC? Contudo foi justamente por causa desse frescor que a série soava como algo que ia dar certo, e fazendo a alegria dos viciados que não largam as suas séries por inúmeras horas no fim de semana.

A palavra chave é liberdade. É isso o que a Netflix tem de sobra. É isso o que fez Demolidor ter sido o estrondo que foi capaz de apagar qualquer rastro de incerteza que Ben Affleck deixou encarnando o herói.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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