O terrorismo infiltrado em cada um de nós

terça-feira, novembro 17, 2015


A cada novo atentado terrorista voltamos ao mesmo ponto da conversa. É até repetitivo, mas o problema é justamente ignorar o assunto. 

Essa busca incessante por "estar certo", isso que está dentro de mim e de você e que nos faz ser hipócritas em diversas horas da vida, é o que acaba dando sentido a vida. Odiamos estar errados, odiamos refletir sobre as ideologias que carregamos. 

Dizem por aí que futebol, religião e política não se discutem pois a opinião é que nem cu, cada um tem o seu. Porém o problema nasce justamente daí, e posso estar exagerando, mas essa discussão sem fim é aonde reside a semente que dá o sentido ao extremismo, afinal, já que a opinião é que nem cu e nem se pode discutir direito de política e muito menos de deus então (ai meu deus!), a única interpretação que tenho é que o escape para as pessoas não se matarem ou se odiarem é justamente calando a boca. 

Na verdade, é só um atentado terrorista acontecer que voltamos aos mesmos pontos da conversa. A real é que o brasileiro se faz de coitado e que os próprios problemas são muito maiores do que os dos outros - quando a dor e sofrimento são iguais pra quem vivencia.

Hoje ouvi algumas coisas engraçadas e que ouço desde que comecei a ter a capacidade de prestar atenção. As duas frases mais interessantemente deprimentes foram essas:

"Eles (os franceses) brincaram com eles, o Maomé né? (sic) Tava na cara que ia ter esse ataque"

"Pra mim que se dane, eu não dou a minima importância. É só um bando de branquelos morrerem pra mídia dar importância". 

Pois é, como a vida vale pouco, como os valores se perderam; tanto que o ser humano comum já se tornou um pouco terrorista. Creio que já nos chocamos tanto através da violência que vemos e sentimos diariamente, que qualquer ataque agora é perfeitamente normal. O tratamento Ludovico de Alex DeLarge parece conto de fadas perto do que presenciamos. 

Para mim o problema não é a religião em si, o problema maior é o próprio ser humano que a criou. Talvez a minha descrença me faça ter esse pensamento e essa é uma longa discussão, mas a aqueles que ainda pregam que retidão de caráter é ter alguma religião, não tem pior hora pra quebrar a cara como nos dias atuais. E isso não é uma vitória. na verdade todos nós saímos perdendo.

A teoria vale pra todos, desde as célebres figuras como as de Malafaia e Feliciano até aos muçulmanos que saíram matando sem dó na França. O tal deus aplicado nas mentes fracas, bondosas e hipócritas injeta uma dose preocupante de preconceito e intolerância, resultando em nada mais do que presenciamos de mais ridículo na sociedade humana. É impossível se manter alheio a esse debate diário. O mal da humanidade acaba sendo a religião que a educa, fazendo as bondosas rezas para os franceses parecerem quase que uma ofensa.

Não vamos discutir aqui a existência ou não de deus, mas a incapacidade de acreditar no que quiser sem invadir o espaço alheio, e isso vale tanto pro pregador que bate na sua porta, pra aquele pastor que grita na igreja ao lado da sua casa, e pro seu representante (pelo menos deveria ser assim) que coloca sua crença em primeiro lugar quaisquer for a decisão em seu país laico. Todos eles são um pouco terroristas, cada um da sua forma. Por trás das boas intenções, o desrespeito e a intolerância através da xenofobia diária e da homofobia tão presente e disfarçada pelo pequeno pacote de preceitos que a religião vende a cada esquina, acaba resultando no mesmo motivo que iguala essas pessoas comuns e os homens-bomba na França: deus. Se mata e se vive por ele como se o mundo em que vivemos não dependesse da cooperação de cada um de nós. E talvez não há falta de caráter maior (vergonha na cara) que justificar o manto da hipocrisia através de um banho de sangue.

Os terroristas gritaram que Deus é grande. Dizem por aí também que o diabo existe. Bom, por favor, os deixem fora disso. As pessoas decentes islamitas que moram na Europa e os refugiados sírios que buscam uma nova vida na Europa sitiada agradecem.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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