Resenha Série: Marvel's Jéssica Jones (1ª Temporada)


Pedindo uma ajudinha pra Wikipédia, o título de herói designa originalmente o protagonista de uma obra narrativa ou dramática, a figura de "um verdadeiro herói" nada mais é do que um ser que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. 

Intrinsecamente ligado aos mais dignos e honrosos atributos humanos, é entendendo o herói que podemos compreender melhor o que é um super-herói, um personagem fictício que designamos como um ser sem precedentes das proezas físicas dedicadas aos atos em prol do interesse público. E sobre esse lado que se iguala ao conceito do que do divino e do inacreditável, para os Gregos, o herói situa-se na posição intermédia entre os deuses e os homens, sendo em geral filho de um deus e uma mortal como Hércules ou Perseu, ou vice-versa como Aquiles. O herói, portanto, tem dimensão semidivina.

Ligamos nos jornais televisivos e sempre nos comovemos com histórias cercadas pelo o que julgaríamos impossível ou o que simplesmente julgamos como bondosamente admirável. Por exemplo, dia após dia muitas mães e pais são heróis da vida real por abrirem mão de si mesmos ao lutarem por conquistas em prol de seus filhos e parentes, dia após dia pessoas trocam seu tempo e sua dedicação por algo que lhe traz pura satisfação pessoal em simplesmente ajudar alguém, dia após dia pessoas se dedicam integralmente a ajudar os animais indefesos, dia após dia incêndios e tentativas de assassinatos acontecem e são salvos por pessoas que tem uma péssima remuneração, mas prestam seu serviço porque se sentem bem em salvar o próximo. Pessoas assim nem dão da importância que esse título tem, simplesmente elas fazem isso porque são boas e porque julgam que isso é o certo a se fazer.

Saber o que é certo é uma tarefa que só aprendemos ao longo da vida, ela pode e deve nos ser ensinada por quem quer nosso bem, mas somente nós mesmos adquirindo o discernimento ao longo da vida e percebendo o que poder ser bom e ruim pra gente, tomaremos a decisão de seguir o caminho correto.

O universo da Marvel nos cinemas tratou e trata-se de apresentar esse lado heroico e fantasioso do super-herói, mas claro que como humanos em primeiro lugar, eles tem em suas crenças e na moralidade em seus corações a definição do que é certo e errado de se fazer, e é a partir daí que se gera imensos conflitos e os deuses acabam por se igualar aos mortais. É como qualquer um deles num momento crucial perceberem o conflito que há entre o merecimento de alguém morrer ou ser salvo, essa dúvida os torna humanos sob sua capa e cada vez mais vemos a retratação desse lado dramático das suas vidas serem exploradas. Por exemplo, a série "The Walking Dead" mostra bem esse lado humano cercado de dúvidas pelos personagens Morgan e Carol. Um sobreviveu graças a sua crença de que toda vida é válida e a outra só sobreviveu porque aprendeu que ali naquele mundo para não se transformar em um monstro é necessário se mostrar mais forte. Aqui nenhum lado está errado e nenhum está completamente certo, tudo na verdade depende de uma decisão e das crenças e da moralidade que citei.

Pra quem assistiu o seriado do advogado Matt Murdock como Demolidor entende essas difíceis decisões e como elas o cercaram durante toda a série. Combater o crime e proporcionar um lar um pouco melhor pra ele e para as pessoas que moram ali exige um sacrifício hercúleo, mas a segunda empreitada da Marvel juntamente com a Netflix em explorar o seu cartaz sombrio de seus personagens leva tais conflitos para outro patamar ao explorar também a psicopatia de heróis e vilões.

Criada por Brian Michael Bendis em 2001, Jéssica Jones (Krysten Ritter, a Jane de Breaking Bad) carrega em si uma boa dose de dramaticidade e realidade que somente o século 21 traria como inspiração. Carregada de ressentimentos e de dramas pessoais, Jéssica perdeu seus pais em um acidente de carro que matou sua família e consigo carrega um fardo que é recorrente quando falamos de mundo real: a subversão da mulher em troca de favores masculinos, ou simplesmente estupro. Essa cruz é carregada por Jéssica desde seu envolvimento passado com Kilgrave (David Tennant), um sujeito que tem o dom de controlar a mente das pessoas e que abusou dela fisicamente e psicologicamente.

No seriado vemos uma desconstrução do que é ser um herói, se em Demolidor vimos como Matt Murdock foi pouco a pouco se tornando o Demolidor que todos nós conhecemos, a Jéssica Jones é uma mulher que abandonou seu posto de heroína para se tornar uma investigadora particular, o que já é deixado bem claro na apresentação carregada de tom detetivesco. Mas o mais interessante na série da Casa das Ideias é que a aquisição de poderes e origem de Jéssica Jones pouco importam (sendo mencionados alguns fatos que pouco as explicam através de flashbacks ao longo da série), na verdade, não importa muito como ela se tornou o que é e porque deixou de ser o que era. 

Jéssica Jones tem superforça, resistência e dá saltos que não chegam a serem voos, mas é a primeira personagem que não se "esconde" atrás de um nome artístico - tanto que o nome de super-heroína, Safira, que ela tinha mal é citado. O objetivo de Jéssica Jones é dizer a cada um que ela é como eu e como você, uma mera humana que nem sabe direito os poderes que tem e já desistiu da ideia de descobrir o porque os tem. Uma mulher que mora num "muquifo" com uma vizinhança problemática, que carrega o celular antes de dormir como todo mundo, e que por causa do medo que tem de virar a cada esquina por causa do receio que tem de Kilgrave cruzar seu caminho novamente, se afunda na bebida a cada merda que faz. Uma mulher amargurada e desbocada que vê em Luke Cage (Michael Colter) um alívio pro seus desejos, e que errando em tentando fazer o que lhe parece certo sofre com cada uma das suas decisões e se arrepende de cada uma delas. Luta pra salvar a sua pele, mas em vários momentos não hesita em virar as costas para quem precisa, mostrando que ainda carrega o caráter de heroína em si - algo que sua irmã adotiva Trish Walker (Rachel Taylor) tem vontade de sobra. 

Nos primeiros episódios sentimos na pele a tensão quase paranoica que Jéssica Jones sente ao acreditar que Kilgrave está por perto. Pela trama revelar somente revelar a sua face alguns episódios a frente ficamos paranoicos junto com Jéssica, afinal, só de saber de um cara que tem a capacidade de controlar as mentes humanas por si só já é algo apavorante, tanto que a série faz questão de enfatizar o quanto cada um dos personagens vitimados por ele são eternamente feridos psicologicamente como Jéssica foi. No entanto, apesar dos poderes que Kilgrave tem e que o fariam facilmente chegar a Jéssica e destruir cada pedacinho social de Nova York sem muito esforço, o verdadeiro nó na garganta se dá quando nos damos conta de que ele fez aquilo sem nenhum poder, simplesmente por gostar de ser mau e de gostar do sadismo em controlar pessoas e em provocar pânico em Jéssica Jones. 

Se Jéssica Jones é um pedaço de cada um de nós, Kilgrave é o outro pedaço do mundo em que vivemos, representando o lado sádico, manipulador e sedutor. Representando o cara que abusa sexualmente uma mulher com a desculpa pronta de que aquilo só aconteceu porque houve o consentimento dela, mesmo essa estando inconsciente e incapaz de se defender com clareza, como Jéssica esteve. Tá certo que não é muito difícil tomar esse título, mas não é absurdo afirmar que Kilgrave é o maior vilão da Marvel até agora. Não é como Loki, um vilão que amamos odiar, mas Kilgrave é de uma escrotidão e perversidade tão grande que não dá vazão a interpretações e o odiamos mais e mais a cada episódio. 

Ambientada na mesma Hell's Kitchen de Matt Murdock - o que já causa uma imensa familiaridade a quem assiste - que ainda procura se reconstruir física e mentalmente da invasão de seres alienígenas e da destruição causada por eles e pelos heróis super poderosos que salvaram a cidade de Nova York, agora totalmente despidos de qualquer descrição pelos acontecimentos vistos nos dois longas dos Vingadores, em Jéssica Jones a Marvel acerta mais uma vez em cheio ao dar personalidade a uma personagem desconhecida do grande público e o mais importante, mostrar que ela é como cada um de nós. Por causa desse imaginário popular ainda vivo, a ligação com a série do Demolidor seria óbvia, mas outro acerto da Marvel aqui é que isso é feito de uma forma tão sutil e elegante que acabei abrindo um sorriso ao saber que a enfermeira Claire Temple (Rosario Dawson) se envolve diretamente com Luke e Jéssica (claro que essa é só uma referência clara, se você assistiu a série recomendo fortemente ao clicar aqui pra ver as outras referências). Bem ao contrário da forçação de barra e da necessidade clara de ligação entre filmes que o universo da Marvel nos cinemas sofre.

Tanto no Demolidor de Charlie Cox quanto em Jéssica Jones, parece que a Marvel quer contar sobre as origens de seus personagens mas sem entregar muito o jogo, o que a narrativa não-linear da série mostrou e se provou uma cartada esperta, pois sabendo que o público da Netflix é composto na sua maioria de aficcionados por heróis parte cansada de ver e rever origens de seus super-heróis serem contadas no cinema, a Marvel aproveitou o descompromisso e a liberdade que a Netflix traria e resolveu por seguir uma caminho diferente apostando principalmente na construção de caráter de cada um de seus personagens. Se isso já se provou um acerto em Demolidor, com a série de Jéssica Jones só reafirmou o sucesso da fórmula fazendo-a superar seu predecessor. 

Assistam sem medo e com a certeza de que a Netflix é uma benção!

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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