Resenha Série: True Detective (2ª Temporada)

quinta-feira, novembro 19, 2015


Tá certo que as temporadas tem que ser analisadas de formas diferentes, mas antes leia sobre magnífica estreia de Nic Pizzolatto nas telas dos televisores: True Detective (1ª Temporada)

A primeira temporada de True Detective foi uma grande surpresa, não só porque o até então desconhecido do grande público Nic Pizzolato nos entregar uma série digna de marcar a história, mas sobretudo porque a primeira temporada de True Detective pela sua qualidade, foi uma das grandes responsáveis por alavancarmos de vez as expectativas que tínhamos com a televisão; telespectadores e artistas. Matthew McConaughey e Woody Harrelson mostraram um novo e belo caminho a ser trilhado pelos atores que se viam subestimados pelo cinema.

Mas que tal passar a borracha em tudo isso? Pizzolatto ao ter a tarefa de roteirizar a segunda temporada da sua grandiosa estreia resolveu escrever certo por linhas tortas saindo TOTALMENTE da zona de conforto, e isso é uma puta mostra de coragem. Ele modificou todos os atores, localidade, enfoque e fez questão de minguar qualquer tipo de ligação que poderíamos fazer com a temporada passada. É uma série nova que limita-se ao tema policial adotado desde o início. Foi uma grande mudança de status-quo com o público e com a série. 

Vejo aqui que Pizzolatto resolveu expandir sua linha de raciocínio e desafiar o público, fazê-lo também sair da zona de conforto em que naturalmente estariam. A série tem um elenco muito maior que a dupla Marty e Cohle apresentados na trama passada, como disse é uma série nova.

Mas tá, muito legal. A ideia é muito boa realmente. Mas o que me atraiu nessa série? Muito pouco infelizmente. A segunda temporada de True Detective é pesada, sua densa história lotada de detalhes e pessoas é para ser digerida a conta-gotas e somente os avaliando os oito episódios somos capazes de ter a dimensão da história de Pizzolatto. E é grande. Os primeiros episódios são realmente pesados e dificeis de se assistir, dizem que True Detective é uma série pra quem tem QI mas não é bem assim. Acho que cada série tem seu público e cada público tem seu gosto e a compreensão necessária pra assistir o que bem entender. Diminuir o público que não gostou e logo não entendeu é muita estupidez e petulância. Eu não gostei oras, pra mim cai muito melhor um Breaking Bad.

Sobre isso, sinceramente acho muito difícil você não ter dormido em algum episódio da série. Em True Detective somos jogados em uma cidade mergulhada no limiar da decência e somos guiados por personagens carregados de dramas pessoais que são obrigados a lidar diariamente, resumindo, ninguém "presta" na história. Não temos mocinhos e bandidos e nem a divisão entre as visões de mundo que tínhamos em Marty e Cohle, aqui cada um deles de alguma forma esperam nosso julgamento e nossa paciência. Só que é justamente esse o problema: paciência. São muitos personagens e apesar de o didatismo ser bom e necessário, achei que a história faltou demais com dinâmica suficiente para ficarmos ansiosos pelo episódio seguinte. Comparações são totalmente injustas e inválidas. Penso que Pizzolatto quis nos desafiar como telespectadores, mas passou um pouco dos limites.

A real é que desde o tema de abertura até sermos apresentados a cidade fictícia de Vinci na Califórnia, somos tomados por uma aura de descrença e desânimo. A cidade tem o que é de pior e mais ilegal na região, jogos de azar, prostituição, imigração ilegal, dejetos tóxicos, corrupção endêmica e homens de pouca fé. Vinci guarda em si membros que são tomados pela descrença. Aliás, Pizzolatto foi muito feliz em trazer a tona essa questão política e social que são inerentes a grandes cidades do mundo.

Se você viu alguma semelhança com Hell's Kitchen não é mera ilusão. Frank Semyon e Wilson Fisk são muto semelhantes em suas esperanças, meios e fins, dores passadas e visões de futuro. Conhecido pelos seus papéis de comédias sem graça, Vince Vaughn está simplesmente irreconhecível na pele de Frank e sua atuação é um dos pontos mais elogiáveis da série. Vince dá a Frank a verdadeira cara de mau de um criminoso amargurado e que se vê humilhado após a morte de Caspere, por ser obrigado a voltar a ser o homem que fora e por ter visto todas as suas economias de uma vida inteira de bandidagem simplesmente virarem pó por causa da morte de seu gestor. Assim como Fisk na série Demolidor, Semyon também muda e ganha contornos mais dramáticos a cada acontecimento, e seu desfecho apesar de não ser surpreendente, é um dos mais poéticos da série num todo.

Falando em papéis dramáticos, diria que isso juntamente com o teor policial são os pontos que ligam a primeira e a segunda temporada. Todos são humanos, cruelmente, cercados de responsabilidades e demônios que são complexos demais para se fazer entender. Raymond Velcoro (Colin Farrell) está muito bem em seu papel e convence como o pai ausente, policial desgraçado e marido traído. Sua vida é uma desgraça e se entrelaça diretamente com a de Semyon, outro retrato da decadência. 

Os detetives Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e Paul Woodrugh (Taylor Kitsch) têm menos tempo de tela, naturalmente, mas os dois são eficientes em seus papeis cheios de dilemas morais. Eles, Raymond e o mafioso Frank tem em uma das melhores coisas da vida a cruz que carregam. O sexo em suas várias faces. Bezzerides é uma mulher forte que se esconde atrás do sexo e de uma memória reprimida da infância, Velcoro viu sua mulher ser estuprada, assassinou o potencial pai e assumiu o filho gerado por esse acontecimento de bom coração, mas no entanto logo após isso se perdeu completamente na vida. Woodrugh luta com todas as suas forças contra seus desejos, tem uma relação sórdida com a mãe, mantém uma relação que não o faz feliz e esconde sua real face, mas sofre tanto com isso que o faz ser um suicida em potencial. E Semyon é o clássico gângster que quer ter um descendente, mas não consegue pela ausência de um amor que sua mulher Jordan (Kelly Reilly) tem como função reviver. 

"We got the world we deserve", essa frase não saiu da minha mente e faz completo sentido ao final de True Detective. Você colhe o que planta, e tudo que está atrelado a Vinci só teria implicado o destino que cada um dos personagens tiverem. Dores e ressentimentos.

Pizzolatto imprime um tom fatalista em cada curva que a série toma e o tom quase novelesco é o que nos faz obrigar a ter aquela mórbida curiosidade de saber o que vai acontecer afinal, apesar de todos os pesares que a série traz a quem assiste. Aliás, a partir do quarto episódio pro final a série toma um rumo diferente, na verdade um novo enfoque a partir do tiroteio (muito bem coreografado por sinal e incrivelmente violento). É a partir daí que a série ganha uma cara melhor. No entanto, essa "reviravolta" embaralha todas as situações explicadas até ali. São situações e nomes novos, o que nos obriga a ter um verdadeiro teste de memória. 

Não é diminuindo a série, mas penso que uma série quase que praticamente te obrigar a "desenhar um gráfico" ou fazer um guia que te faça compreender melhor o que está assistindo é porque a série de maneira nenhuma conseguiu fisgar o espectador da forma que deveria. Ao contrário da primeira temporada, essa segunda não vai marcar história. Só é uma boa história. No final eu entendei tudo e fiquei boiando em outros assuntos que a minha cabeça não deu a devida atenção - e talvez só por isso consegui assisti a série até o final. 

Bom, apesar dos pesares da história arrastada em diversos momentos e de personagens que não são muito carismáticos. ninguém pode acusar Nic Pizzolatto de ter errado, não, ele acertou de novo. A segunda temporada de True Detective é cercada de pontos de vista. Ela pra mim foi um arriscado acerto, é grandiosa e é uma puta história; essa foi a minha conclusão ao final da temporada. E como disse, é preciso ver todo o material antes de tirar as próprias conclusões, mas o caminho até lá é tortuoso e desafiador, decepcionante em algumas vezes se você arriscar a comparar com a temporada passada.

Assista, mas assista por sua conta e risco. Antes de adentrar a cidade de Vinci se sinta preparado.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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