Será mesmo que você é capaz de ser tão idiota por se incomodar por uma questão de ENEM?

sábado, novembro 07, 2015


Já vamos deixar bem claro a questão número 1 da prova de ciências humanas do ENEM da escritora, filosofa intelectual e feminista e ativista política francesa Simone de Beauvoir:

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino"

Só de saber que Simone de Beauvoir era filosofa, já é o suficiente para provocar meus aplausos por essa questão ter sido incluída e aproveitada dentro do contexto do tema da redação (violência contra a mulher), afinal, no meu entendimento, a filosofia é a arte de debater, conhecer e nada mais válido do que a estimulação disso em um lugar que prega o conhecimento: a escola. Algo que aqui em nosso país é raro tanto quanto a pré-disposição clara sobre poder debater e rever as próprias ideias.

Bom, citar uma frase solta sendo que dentro dela tem um contexto bem mais amplo é realmente perigoso, já que abre um precedente enorme de interpretações, muitas vezes maldosas e acusatórias, como Simone sofreu ao com essa citação. Mas apesar de tudo, essa frase retirada do livro "O Segundo Sexo" é bem clara em colocar em debate a ideia de que ninguém nasce, torna-se; o que entendo é que, como feminista que Simone era, ela defende de que o papel que a mulher assume dentro da sociedade desde o início dos tempos é um muito mais um modelo de submissão do que de escolha, ato esse que deve caber a todo ser humano. O que dá a entender de que o ódio passa pela simples falta de exercício de senso crítico e boa vontade do que mau uso das palavras por Simone.

Se você pensar de forma clara e isenta, ela está errada? Só de vermos o conceito da doutrina religiosa que a sociedade simplesmente abraçou e ainda usa como guia moral, o conceito de homem e mulher sempre foi bem explícito e enraizou a ideia do "sexo dominante" e do papel do que cada um devia prestar a sociedade. E isso cai diretamente em temas polêmicos que a sociedade brasileira debate nos tempos atuais que é o conceito de liberdade, sexo e da família propriamente, e não demorou quase nada para duas figurinhas carimbadas da ignorância e do desrespeito como Marco Feliciano e Jair Bolsonaro saírem criticando a inclusão do tema na prova dizendo que ela como sendo uma opinião da autora é ardilosa e discrepante do que deve ser ensinado aos nossos jovens, enquanto o segundo defendeu mais uma vez o impeachment da presidente Dilma Rousseff e até acusou o governo de ter manipulado a prova em favor de uma ideia marxista.

Foi difundido largamente de que Simone era nazista e pedófila, e talvez por isso a pagina dedicada a ela na Wikipédia após a prova do ENEM naturalmente sofreu um boom de acessos. Como a Wikipédia tem domino público, quer dizer, qualquer pessoa pode editá-la, houve diversas edições e reedições incluindo informações de que Simone lutou pelo nazismo, escreveu um livro defendendo o estupro, lutou por uma lei que proibia o trabalho da mulher fora de casa e defendendo a pedofilia. Foram tantas as alterações que o usuário voluntário da Wikipédia daqui do Brasil e que é responsável por resguardar a qualidade do verbete, foi obrigado a restringir o acesso e a restaurar a página com as edições pré-ENEM.

Sobre a destilação de ódio já basta uma simples pesquisa para a sua defesa pelo nazismo já cair por terra. O fato documentado é que durante a ocupação francesa, entre 1943 e 44, Simone de Beauvoir trabalhou como diretora de sonoplastia da emissora estatal francesa Radio Vichy. Não é difícil pensar que já que a França foi ocupada pelos nazistas, Simone foi obrigada a ter que trabalhar na rádio; só que ao contrário que muitos pensam, ela foi crítica ferrenha do regime mas o assunto nem entrou em suas discussões acadêmicas. O porquê? Talvez só ela seja capaz de explicar. Calar-se é diferente do que defender.  

Bom, mas é sobre a defesa da pedofilia que a coisa pega um pouco. Simone era casada com o filósofo existencialista, também francês, Jean-Paul Sartre e a relação entre os dois foi cercada de romantismo e de uma troca intelectual grandiosa, que influenciou o trabalho dos dois vice-versa e é discutida e estudada até hoje. O casal não concordava com a monogamia e vivia em um relacionamento aberto, e ateus que eram, discordavam da questão do casamento como sendo apenas uma questão limitatória com base em normas institucionais. O fato que pega mesmo é que tanto ele como ela se relacionavam com adolescentes de 13, 14 e 15 anos e na verdade naquela época em que viviam era comum pessoas com essas idades se relacionarem e serem forçadas a se casarem. Como Sartre e Simone tinham uma ideia libertária sobre a vida sexual e o relacionamento humano, e era conhecidos pela quebra de tabus e choques sociais, é simples já interpretar diretamente de que os dois eram adeptos a pedofilia. Além do fato de que Simone juntamente a outros filósofos assinaram uma petição ao Parlamento francês pela abolição da idade de consentimento – na prática, a maioridade sexual de um cidadão, que era de 15 anos na França naquela época – e em prol da descriminalização do sexo consensual com pessoas abaixo desta idade limite. 

Particularmente concordo sobre a disposição que os dois sempre tiveram a quebrar tabus e de estimular a discussão sobre dogmas sociais, só discordo sobre o fato de eles terem se relacionado com crianças. Mas discordo de que a petição seja preponderante para afirmar que ela defendia a pedofilia como foi escrito por aí, já que havia consenso. Na verdade temos é que pensar que os tempos em que vivemos são outros. Ser criança, ser mulher e ser homem nos anos 40 eram totalmente diferentes do que é ser criança, ser mulher e ser homem hoje em dia, então o julgamento não deve ser feito com base na vida pessoal ou na contribuição social de cada um. Se isso era natural naquela época, a real é que a ideia sobre isso mudou, assim como a ideia sobre pessoas homossexuais pode mudar futuramente. Se é natural mulheres de biquini serem comuns por aqui, mulheres de burca são uma atrocidade e um insulto, e vice-versa. Respeitar culturas e épocas, por mais que sejam contraditórias, é primordial pra se fazer um julgamento. É preciso um entendimento. Assim como Sartre e Simone não podem serem taxados como pedófilos e nem de terem defendido isso, é necessário dizer que Hegel serviu de base para o nazismo e Kant era preconceituoso; mas nem por isso eles são rotulados como nazistas ou racistas, apenas como grandes filósofos da sua época. Eles tiveram suas ideias e goste ou não, devem ser respeitados pela sua particularidade pessoal.

Aí chego ao ponto crucial: respeito. Ataques ao governo e as feministas só expuseram o fato de que Simone talvez esteja certa. Porque se incomodar tanto com uma questão dessas? Será que o que os nossos deputados e até as pessoas querem é que a estimulação ao debate através que uma questão não seja difundida nas escolas? 

O que entendo é que discussões feministas e/ou humanitárias ou de qualquer cunho assim, são desnecessárias para muitos justamente porque da estimulação à discussão nasce uma sociedade mais esclarecida e afim de agir. É preciso conhecer o esteriótipo para poder se libertar dele e questões como essas dão voz ao esclarecimento de que há opções. É "perigoso". Portanto, pessoas como Bolsonaro e Feliciano e os políticos em geral teriam um espaço muito menor do que tem com o povo e sendo cobrados a todo instante. Que é o correto. Dizem que a ignorância é uma benção, mas é também um câncer que dá voz a pessoas idiotas e desrespeitosas. Pessoas até que defendem ideias corretas mas que desconhecem o ato de se resguardar, como as próprias feministas de hoje em dia que ficam de peitos pra fora com placas e pichações, em um ato que é muito mais anarquista e só que acaba por ridicularizar o que elas mesmas defendem, como os punks, tornam as críticas a personagens como a Simone muito mais corriqueiras por causa da falta de conhecimento geral.

Mas vamos partir do ponto de que você é um idiota, um exemplar da idade média que foi transportado pro futuro. E como idiota. você insiste em ser aquele cara que vive fazendo piadas de cunho machista em seu grupo de WhatsApp, acha que sua chefe brigou com você porque ela está menstruada, aplaude quando uma mulher passa de minissaia e acha que ela deve estar na cozinha e não trabalhando com você, acha que o Brasil está uma merda porque a nossa presidente é uma mulher, e odiou o filme "Mad Max" ter tido uma protagonista mulher - afinal, o filme Mad Max e por se chamar assim é uma putaria uma mulher roubar a cena -, mas é a pessoa que se orgulha piamente de não cozinhar mas ter ajudado a trocar a fralda do seu filho outro dia.

Partindo do pressuposto de que você é um cara desprovido de inteligência, misógino e preconceituoso, é (infelizmente) natural de que Simone de Beauvoir e uma questão numa mera prova do ENEM tenham provocado tanto burburinho em suas entranhas. É natural que pessoas assim como você, maioria em nosso país, achem que o desconhecimento sobre qualquer é irrelevante para poder criticar sobre o mesmo, afinal, basta saber o que os outros estão falando. É o instrumento "via fofoca", e assim a vida de Simone é desqualificada com o objetivo de também desqualificar o mérito de sua obra na política e filosofia que deviam serem colocadas em primeiro lugar. E talvez meu longo texto que muitos desistirão de ler preferindo causar risadas nos comentários ao dizer "nem li", mostrem um pouco da sua indisposição a entender não só esse assunto, mas qualquer um.

Eu confesso de que eu não sabia muito bem quem era Simone de Beauvoir se limitando pra mim como uma personagem histórica, mas foi a partir dessa discussão estúpida resolvi conhecer mais sobre ela, seus méritos e deméritos, para escrever esse texto. Graças à questão que desafia a família brasileira fui estimulado a tal e a corrigir o erro comum de qualquer um que é o do pré-julgamento opiniativo. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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